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Escrito por Kamila Camilo | 29 de janeiro de 2026
Tecnologia: progresso sem bem viver não é evolução, é apenas aceleração de desigualdades - Foto: Ilustrativa/Freepik
POR – KAMILA CAMILO
A tecnologia que criamos revela nossas capacidades, mas são os trade-offs que aceitamos dizem muito sobre quem escolhemos ser
Sempre que uma grande tecnologia emerge, quem vende tenta emplacar como narrativa dominante as boas promessas. O que essa tecnologia vai resolver. O que vai otimizar. O quanto vai nos poupar tempo, dinheiro ou esforço. Com a inteligência artificial, não tem sido diferente. Falamos exaustivamente sobre eficiência, produtividade e inovação. Mas talvez a pergunta mais importante esteja sendo evitada: estamos, de fato, satisfeitos com os trade-offs que escolhemos ao longo do caminho?
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Toda transformação tecnológica carrega um custo. O carro substituiu a tração animal e redesenhou cidades inteiras, mas também trouxe poluição, acidentes e dependência de combustíveis fósseis. A eletrificação abriu caminho para desenvolvimento em larga escala, ao mesmo tempo em que inaugurou hidrelétricas que deslocaram comunidades e um modelo energético que aprofundou desigualdades considerando que a água fosse um recurso "renovável” que hoje já sabemos não ser. A chamada economia verde, por sua vez, depende da mineração intensiva de minerais críticos, muitas vezes extraídos à custa da vida, da saúde e da dignidade de outras pessoas e da própria natureza.
A pergunta que fica é incômoda, mas necessária: em que momento normalizamos o fato de que o progresso de alguns pode custar a vida de muitos, humanos e não humanos? Que tipo de “human-centered design” é esse que aceita, de forma recorrente, sacrificar populações inteiras em nome da inovação?
Segundo pesquisa da organização Talk Inc, quase 90% dos usuários de internet brasileiros usam IA generativa e para mim a questão que atravessa todo esse debate e raramente é feita de forma honesta: essa tecnologia está, de fato, melhorando nosso bem viver? Não apenas produtividade, crescimento econômico ou eficiência, mas qualidade de vida no sentido mais amplo, tempo, saúde mental, relações, equilíbrio com a natureza, sentido coletivo. Outro dado da pesquisa que me preocupa é a rápida confiança que temos em produtos tecnológicos emergentes, em 2024, 77% se preocupavam com a invasão de privacidade e com a forma que a IA usava os seus dados. Agora, são 69%.
Em muitos casos, a tecnologia promete nos libertar, mas acaba nos acelerando; promete nos conectar, mas frequentemente nos isola; promete otimizar a vida, mas transfere custos invisíveis para corpos, territórios e futuras gerações. Se o bem viver não for um critério central no desenho das tecnologias, inclusive nas digitais, e não apenas um efeito colateral desejável, corremos o risco de seguir avançando tecnicamente enquanto empobrecemos social, emocional e ambientalmente. Se o progresso não melhora a vida de todos, no fim, é apenas movimento de mercadorias.
Quando olhamos para a inteligência artificial, esse dilema ganha contornos ainda mais profundos. Afinal, para que estamos desenhando a IA? E, principalmente, a serviço de quem?
Vale lembrar que a IA não surgiu agora. Ela está entre nós desde os anos 1950, passando por diferentes nomes, sistemas especialistas, automação, machine learning. Nossos celulares usam IA há pelo menos quinze anos. O que mudou foi o enquadramento. Ao chamar tudo de “inteligência artificial”, criamos uma espécie de fetiche coletivo, uma obsessão por replicar o humano na máquina. É o que eu chamo de síndrome de Deus. A todo custo queremos fazer algo "nossa imagem e semelhança". Ainda bem que a comunidade médica deu uma bloqueada na clonagem humana.
Por que um robô precisa parecer humano? Por que insistimos em projetar tecnologia à nossa imagem e semelhança? Talvez porque exista, por trás disso, um complexo de Deus muito presente no Vale do Silício: a ideia de que criar algo “inteligente” é criar algo que nos imita, que nos substitui, que nos supera. Esse impulso autocentrado faz com que a tecnologia não apenas reproduza, mas amplifique as assimetrias sociais que já existem.
A própria trajetória da OpenAI ilustra bem esse paradoxo. Nascida como uma fundação, com a missão explícita de desenvolver inteligência artificial que beneficiasse a humanidade, a organização rapidamente se transformou em um negócio multibilionário, no início de 2026, a OpenAI consolidou sua posição como a startup mais valiosa do mundo, com uma avaliação de mercado estimada em cerca de US$ 500 bilhões. Em algum ponto, a pergunta deixou de ser “como proteger a humanidade?” e passou a ser “como escalar esse produto?”. Não se trata de demonizar empresas ou inovação, mas de reconhecer que os incentivos importam e moldam profundamente os impactos da tecnologia.
Se, na era da IA, o business continuar operando sob a lógica de que tudo é aceitável em nome do crescimento, o trade-off seguirá sendo o mesmo de sempre: a vida, o trabalho e o futuro de bilhões de seres humanos e não humanos. E isso é o que pode nos definir pelos próximos 50 anos.
É por isso que espaços de diálogo como Davos seguem sendo relevantes não pelo glamour, mas pela possibilidade de colocar essas perguntas desconfortáveis no centro da mesa. A IA já chegou às nossas vidas de forma massiva. O que ainda está em disputa é o modelo de sociedade que vamos construir a partir dela.
Se não mudarmos o foco se continuarmos desenhando a inteligência artificial centrada apenas no indivíduo, no lucro e na performance, vamos apenas automatizar as injustiças que já conhecemos. Talvez o verdadeiro desafio não seja tornar a IA mais humana, mas torná-la sistêmica, responsável e radicalmente consciente dos seus impactos coletivos.
Kamila Camilo é uma empreendedora social negra brasileira LGBTIQ+ dedicada a conectar grandes organizações a movimentos de base para impulsionar ações climáticas de impacto. Como fundadora do Instituto Oyá e da iniciativa Creators Academy, ela lidera uma rede de 120 influenciadores que alcançam mais de 12 milhões de pessoas no Brasil. Atualmente, Kamila integra os conselhos dos Institutos Talanoa e Igarapé, promovendo políticas climáticas e estratégias de segurança pública, além de colaborar com a GainForest para impulsionar soluções climáticas baseadas em dados. Finalista da competição XPrize Rainforest com a equipe ETH BiodiX, Kamila continua a defender abordagens inovadoras para a sustentabilidade e a justiça climática.

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