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COP30, hospedagem e memória curta: o que aprendemos com os últimos 10 anos de conferências climáticas

Escrito por Kamila Camilo | 12 de agosto de 2025

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Imagem gerada por IA - Foto: Ilustrativa/Divulgação

POR – KAMILA CAMILO

Nos últimos dez anos, toda cidade que sediou uma Conferência das Partes (COP) da UNFCCC enfrentou algum tipo de crise relacionada aos preços de hospedagem. Eu me dei ao trabalho de analisar historicamente esse padrão — e, com exceção de cidades como Dubai, que tinham uma oferta muito superior à demanda, todas as sedes anteriores precisaram de algum tipo de intervenção estatal para evitar abusos.

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Mesmo em Dubai, que sediou a COP28, o governo precisou agir para conter a especulação nos hotéis mais próximos do evento, ainda que a cidade tivesse leitos sobrando. Em Baku, sede da COP29 em 2024, quartos de qualidade duvidosa chegaram a custar até 50 mil dólares. E, sinceramente, não vi o alarde midiático global que agora se volta contra Belém.

Delegações de países do Sul Global, principalmente aquelas que recebem financiamento da UNFCCC, sempre reclamam dos preços abusivos — e com razão. Isso impacta diretamente sua presença, participação e poder de negociação. A diferença é que, nas edições anteriores, esse tipo de crítica raramente ganhava destaque internacional. Já Belém, antes mesmo de receber a COP30, virou manchete global por algo que, infelizmente, é corriqueiro em eventos dessa magnitude.

Sim, a forma como o Brasil inicialmente lidou com a questão da hospedagem não foi a melhor. Houve omissão, falta de planejamento e, em alguns casos, oportunismo. Mas isso não nos torna exceção. A série histórica mostra que essas distorções de mercado se resolvem — geralmente com algum tipo de intervenção pública feita entre três e seis meses antes da conferência. E nós ainda estamos nesse prazo.

Mas é verdade que nenhuma cidade-sede precisou de tanto investimento em infraestrutura básica quanto Belém. A cidade não tem metrô, não tem trem de alta capacidade, e o transporte público é limitado. Não dá para descer de um bonde elétrico na porta da arena de negociações. A mobilidade e a rede hoteleira são restritas. Mesmo assim, há precedentes. Cali, por exemplo, que não comportava nem 20 mil pessoas, deu um jeito. Belém também dará.

A situação atual é a seguinte:

  • O Brasil espera receber entre 45 mil e 50 mil participantes. A capacidade atual de hospedagem em Belém é de cerca de 36.015 leitos, distribuídos entre hotéis, aluguel por temporada e até navios de cruzeiro.
  • Há registros de quartos que normalmente custam R$ 150 sendo ofertados por R$ 3 mil a diária. Suítes de motel de R$ 20/hora chegaram a ser anunciadas por US$ 570 a noite.
  • Em resposta, o governo federal firmou um Termo de Ajustamento de Conduta (TAC) com o setor hoteleiro, estabelecendo um teto de US$ 300 por noite para as delegações — o limite estabelecido pela ONU é de US$ 149.
  • Uma plataforma oficial de hospedagem foi lançada em agosto. Em paralelo, o governo contratou três navios de cruzeiro, com 6 mil leitos (3.900 cabines), com preços entre US$ 220 e US$ 600, priorizando delegações de países mais vulneráveis.
  • O Código de Defesa do Consumidor está sendo acionado para lidar com práticas abusivas. Algo marcante tem sido, claro, o fato de o brasileiro fazer piada de tudo, então não faltam memes sobre, por exemplo, quartos de motel serem considerados hospedagem para o evento.

A imprensa internacional, os observadores e o próprio secretariado da UNFCCC têm razão em pressionar. Em julho, o bureau da ONU realizou uma reunião de emergência sobre os preços em Belém. Delegações africanas, do Pacífico e da América Latina alertaram que talvez não consigam vir. O risco de uma COP desigual, esvaziada justamente dos países mais afetados pela crise climática, é real.

Mas é importante frisar que o Brasil já está tomando medidas. Intervenções como essa são o padrão, não a exceção. Nenhuma COP se organiza sozinha — e, repito, essa resolução costuma ocorrer a poucos meses do evento. Belém não fugirá à regra.

É verdade que o Brasil tratou a COP como se fosse uma Copa do Mundo e, com isso, permitiu a inflação de preços que agora estamos tentando corrigir. Mas ainda há tempo. O importante é agir com responsabilidade e coordenação.

Só me entristece ver que, enquanto nos engalfinhamos por hospedagem e culpamos uns aos outros internamente, a empresa de relações públicas contratada pela Shell acaba de ganhar a concorrência para coordenar a comunicação oficial da COP30.

Mais uma vez, nos dividimos por dentro, enquanto os recordes de lobby de petróleo, gás e mineração seguem crescendo por fora.

Belém vai sediar a COP30 — e vai ter que ter regulação de preços. Como sempre foi. A diferença é que, agora, tudo está sendo feito sob os olhos do mundo inteiro.

foto de kamila camilo, autora do artigo COP30, hospedagem e memória curta: o que aprendemos com os últimos 10 anos de conferências climáticas
Kamila Camilo - Foto: Divulgação

Kamila Camilo é uma empreendedora social negra brasileira LGBTIQ+ dedicada a conectar grandes organizações a movimentos de base para impulsionar ações climáticas de impacto. Como fundadora do Instituto Oyá e da iniciativa Creators Academy, ela lidera uma rede de 120 influenciadores que alcançam mais de 12 milhões de pessoas no Brasil. Atualmente, Kamila integra os conselhos dos Institutos Talanoa e Igarapé, promovendo políticas climáticas e estratégias de segurança pública, além de colaborar com a GainForest para impulsionar soluções climáticas baseadas em dados. Finalista da competição XPrize Rainforest com a equipe ETH BiodiX, Kamila continua a defender abordagens inovadoras para a sustentabilidade e a justiça climática.

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