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Escrito por Dra. Marcela Baraldi | 5 de janeiro de 2026
A crise climática também se manifesta no nosso corpo — e o cabelo é um dos primeiros a dar sinais - Imagem gerada por IA - Foto: Ilustrativa/Freepik
POR - DRA. MARCELA BARALDI
A tricologia do antropoceno: pesquisas revelam a conexão entre mudanças climáticas, queda capilar e as soluções da biotecnologia
Sabe aquela sensação de que seu cabelo nunca mais foi o mesmo? Que ele está mais fraco, mais ressecado e caindo mais do que o normal? Pois é, a culpa pode não ser só do estresse do dia a dia ou da química que você usou. Estamos vivendo em um planeta em transformação, e o nosso cabelo, essa parte tão visível e sensível do nosso corpo, está sentindo o impacto das mudanças climáticas. Para mim, que sou apaixonada por entender a ciência por trás da beleza, essa é uma das áreas mais cruciais da tricologia moderna. O calor extremo, a poluição e a escassez de água não são apenas problemas ambientais; eles são, agora, problemas de saúde capilar.
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A crise climática se manifesta em nossos fios de maneiras que mal percebemos. O aumento da temperatura e as secas prolongadas retiram a umidade natural do cabelo, enquanto a poluição atmosférica age como um exército de radicais livres, atacando o folículo e a fibra capilar. É um ataque de múltiplas frentes que leva à queda de cabelo, ao ressecamento e à perda de vitalidade. Mas a boa notícia é que a ciência, através da biotecnologia, está desenvolvendo soluções de alta performance que agem como verdadeiros escudos protetores, transformando recursos naturais em ativos inteligentes para a saúde capilar. É a inovação a serviço da nossa beleza, adaptando-a aos desafios do Antropoceno.
O calor e a seca são inimigos silenciosos da saúde capilar. Quando a umidade do ar cai drasticamente, o cabelo, que é naturalmente higroscópico (ou seja, absorve e perde água facilmente), perde sua hidratação para o ambiente. O resultado é um fio que fica áspero, opaco e extremamente propenso à quebra .
O problema se agrava com o aumento das temperaturas. O calor excessivo, seja do sol ou de ferramentas térmicas, danifica a cutícula do cabelo, a camada externa que protege o córtex. Uma cutícula danificada não consegue reter a umidade e fica mais vulnerável aos danos ambientais. Além disso, a exposição solar intensa (raios UV) tem um efeito direto sobre a fibra capilar, enfraquecendo-a e acelerando a degradação da queratina .
Outro fator que, ironicamente, se intensifica em climas frios ou secos é o uso de água quente no banho. A água em alta temperatura retira a oleosidade natural (sebo) produzida pelo couro cabeludo, que é a nossa proteção natural contra o ressecamento. Sem essa barreira lipídica, o couro cabeludo fica desprotegido e o fio perde ainda mais umidade, entrando em um ciclo vicioso de ressecamento e fragilidade. É por isso que, em tempos de mudanças climáticas, a hidratação e a nutrição se tornam os pilares inegociáveis de qualquer rotina de cuidados capilares.
Se o calor ataca a fibra, a poluição atmosférica ataca o folículo e o couro cabeludo. A exposição prolongada a poluentes, como o material particulado (PM) e os gases tóxicos, é um fator de estresse ambiental que tem sido diretamente ligado à queda de cabelo e a problemas no couro cabeludo .
A ciência tem demonstrado que as partículas de poluição se depositam no couro cabeludo, causando inflamação e gerando radicais livres. Essa inflamação crônica no folículo capilar pode levar à sua miniaturização e, consequentemente, à queda. Um estudo revelou que a poluição diminui a beta-catenina, uma proteína essencial para o crescimento e a saúde do cabelo, enfraquecendo o ciclo capilar .
Além da queda, a poluição também afeta a estética do fio:
•Oxidação da fibra: os poluentes oxidam a queratina, o que leva ao ressecamento, à perda de brilho e até à alteração da cor do cabelo.
•Barreira do couro cabeludo: a poluição deteriora a barreira protetora do couro cabeludo, tornando-o mais suscetível a problemas como caspa, irritação e coceira.
O cabelo age como uma esponja, absorvendo os poluentes do ar. Por isso, a rotina de cuidados precisa ir além da limpeza básica e incorporar a proteção antipoluição, um conceito que está sendo rapidamente desenvolvido pela biotecnologia.
Diante de um cenário de agressões ambientais cada vez mais intensas, a biotecnologia surge como a grande aliada para construir a resiliência capilar. Não se trata mais de mascarar o dano, mas de proteger e reconstruir o fio de dentro para fora, usando a inteligência da natureza e da ciência.
A biotecnologia permite que os cientistas identifiquem e potencializem ativos naturais, transformando recursos da biodiversidade em soluções de alta performance. As inovações se concentram em:
1.Ativos bioprotetores: o desenvolvimento de polissacarídeos e biopolímeros que formam uma película flexível e protetora ao redor do fio. Essa película age como um escudo contra a poluição e a perda de umidade, minimizando os danos e auxiliando na reconstrução capilar .
2.Queratina vegetal e aminoácidos: a biotecnologia permite a produção de queratina e complexos de aminoácidos de origem vegetal que mimetizam a estrutura da queratina humana. Esses ativos penetram profundamente no córtex, reparando a fibra danificada pelo calor e pela poluição, e oferecendo proteção contra futuros danos ambientais .
3.Soluções para o couro cabeludo: o foco está em ativos que acalmam a inflamação do couro cabeludo causada pela poluição e que fortalecem o folículo capilar. Isso inclui o uso de extratos botânicos e prebióticos que equilibram a microbiota do couro cabeludo, criando um ambiente saudável para o crescimento do cabelo.
A biotecnologia, aliada à bioética, está transformando os recursos naturais brasileiros em soluções sustentáveis e eficazes, valorizando a biodiversidade e garantindo que a inovação seja ecologicamente responsável.
Para combater os efeitos das mudanças climáticas, o cuidado capilar precisa ser holístico, abrangendo tanto o couro cabeludo quanto a fibra capilar. Não basta apenas hidratar as pontas; é preciso tratar a raiz, onde a vida do cabelo começa.
A rotina de cuidados deve ser adaptada para criar uma barreira de proteção contra o estresse ambiental:
1.Limpeza inteligente: usar shampoos que não apenas limpam, mas que também contêm agentes quelantes para remover os resíduos de poluição e minerais da água. A limpeza deve ser suave para não remover a oleosidade protetora do couro cabeludo.
2.Hidratação e nutrição intensivas: máscaras e leave-ins ricos em óleos e manteigas vegetais, que selam a umidade e nutrem a fibra. Em climas secos, o uso de óleos finalizadores é crucial para criar uma barreira contra a perda de água.
3.Proteção térmica e UV: o uso de protetores térmicos e sprays com filtro UV é indispensável, não apenas para proteger contra o calor de ferramentas, mas também contra a radiação solar, que se intensifica com as mudanças climáticas.
O cabelo é um indicador da nossa saúde e do ambiente em que vivemos. Ao cuidar dele, estamos também reconhecendo o impacto do nosso estilo de vida e do planeta em nosso bem-estar.
O futuro da saúde capilar é um futuro de adaptação. A ciência está nos dando as ferramentas para proteger nossos fios contra um ambiente cada vez mais hostil. A inovação em biotecnologia e a busca por cosméticos biodegradáveis e sustentáveis são a nossa resposta a essa crise.
A demanda por inovações que protejam o cabelo contra a exposição ambiental está em alta, e isso impulsiona a pesquisa a criar produtos que são mais do que cosméticos; são verdadeiros tratamentos de saúde. É um movimento que nos convida a sermos mais conscientes sobre o que colocamos em nossos cabelos e o que jogamos de volta no planeta.
Para mim, essa é a beleza do futuro: uma beleza que é resiliente, inteligente e, acima de tudo, sustentável. É a ciência nos ajudando a manter a vitalidade dos nossos fios, mesmo em tempos de mudanças climáticas.
Dra Marcela Baraldi - Médica dermatologista, membro da Sociedade Brasileira de Dermatologia, cadastrada no corpo clínico do Hospital Israelita Albert Einstein e consultório particular – CRM: 151733 / RQE: 66127. Colunista de Neo Mondo.

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