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Escrito por Daniel Medeiros | 9 de junho de 2026
Geração Fabiano: quando as palavras faltam, o medo sobra - Imagem gerada por IA - Foto: Ilustrativa/Neo Mondo
POR - DANIEL MEDEIROS*
O que acontece quando não encontramos a forma de expressar o que pensamos? O pensamento permanece íntegro ? Ou a própria ação do pensar se desagrega quando não conseguimos traduzi-la em palavras?
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A linguagem organiza os saberes e não apenas os nomeia. Por isso, se eu manipulo um conjunto muito pequeno de palavras, os sentidos que me afetam tornam-se obscuros para mim e a compreensão dos outros sobre quem eu sou ou penso também se empobrece.
Não falo aqui da palavra escrita, embora o domínio dessa ferramenta incrementa a palavra pensada e a palavra dita, além de torna-la cambiável com pessoas distantes no tempo e no espaço. Pessoas que não sabem ler não são destituídas de riqueza de pensamento ou mesmo de expressão. Mas, sem dúvida, encontram limites nítidos.
Acessar um universo vocabular mais amplo torna nossa relação com o mundo e com os outros mais complexa, porque podemos nomear os detalhes, as impressões, as menores variações das sensações e dos raciocínios. A linguagem qualifica o olhar de quem vê e também de quem escuta, como uma franquia para o aumento de conhecimento e conectividade entre as pessoas.
Há uma relação estreita entre ressentimento e estreitamento vocabular. A falta de compreensão de algo e a consciência dessa lacuna cria um sentimento de hostilidade que se mistura com o medo de estar sendo logrado, ultrapassado pelo outro. Como na passagem famosa da novela Vidas Secas, de Graciliano Ramos, quando o personagem Fabiano, homem bruto e cheio de arestas sente-se acuado na venda ou diante do soldado amarelo. Sempre em posição de defesa, sempre surpreendido pelo cotidiano que tem dificuldade de compreender. Quando depara com uma metáfora elaborada por sua esposa, sinha Vitória, espanta-se , como se achasse um tesouro. O mundo das palavras não lhe pertence e, com isso, boa parte do mundo também. Vida seca.
Escrevo isso pensando na geração Alfa, jovens do século XXI, que se divertem repetindo bordões aleatórios em modo infinito, sem parecer se cansarem, alternando um aplicativo e outro, na rolagem infinita de imagens, sons interrompidos, jogos de gestos e ações mecanizados. E, diante de qualquer esforço de explicação sobre algo que arranhe a superfície dura de suas existências, esboçam. o olhar vazio da incompreensão que logo se esfuma na indiferença com qualquer conclusão que derive desse esforço.
A distração é o zyklon B dessa geração. Uma distração que não é nem mesmo voluntária, mas condição estruturante. Distração que é resultado da dificuldade de organizar as ideias com as palavras que faltam, como quem quer pescar um peixe com a rede cheia de furos. Distração que faz perder a textura do mundo e das pessoas, das situações, das complexidades das relações, a textura fundamental que tece as utopias. Pesquisa publicada na revista The Lancet Planetary Health, em 2021, depois de ouvir 10 mil jovens de 16 a 25 anos, em 10 países, constatou que 75% deles consideram o futuro assustador e a maioria relatou dificuldade em fazer planos de longo prazo, ter filhos ou como construir uma vida adulta estável. A pesquisa buscava sentir a preocupação de jovens em relação aos distúrbios climáticos. Mas o que colheu foi um retrato de uma geração incapaz de imaginar alternativas utópicas para qualquer coisa.
E o que falta a elas?
Faltava para Fabiano as habilidades da comunicação que permeiam as relações do eu-tu. Ensimesmado, desconfiava de tudo. Admirava seu Tomás da bolandeira, homem que sabia usar as palavras nos lugares certos e por isso não temia ninguém. Já Fabiano usava o medo como os animais: para sobreviver. Tudo o ameaçava. Como o soldado amarelo que aparece na porta da bodega do seu Inácio e o convida para jogar cartas.
Fabiano atentou na farda com respeito e gaguejou, procurando as palavras do seu Tomás da bolandeira: "isto é. Vamos e não vamos. Quer dizer. Enfim, contanto, etc. É conforme."
Levantou-se e caminhou atrás do amarelo, que era autoridade e mandava.
Seria a geração Alfa uma geração de Fabianos?
*Daniel Medeiros - Advogado e especialista em Filosofia Contemporânea pela PUCPR. Mestre e Doutor em Educação Histórica pela UFPR. Pós doutorando em Bioética pela PUCPR. Professor da Especialização em Filosofia do Direito, da Escola de Direito, e Especialização em Neurociência e Educação, da Escola de Educação e Humanidades da PUCPR. Autor da Coluna Cuidados Humanos, da revista Humanitas. Conselheiro e colunista do portal Neo Mondo.

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