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Sem seguro e garantias para os vulneráveis, não há transição climática justa

Escrito por Neo Mondo | 25 de novembro de 2025

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Enquanto grandes setores avançam, os grupos mais vulneráveis continuam à margem, pagando a conta mais alta do clima - Foto: Divulgação

POR – CAROLINA DA COSTA

Não basta ampliar o financiamento climático: é preciso garantir que ele chegue às populações e aos setores mais vulneráveis da economia, onde o risco climático se traduz diretamente em risco de crédito, perda de renda e interrupção de trajetórias produtivas. As conclusões mais recentes da COP30 reforçam essa urgência ao reconhecer que adaptação não é apenas uma agenda complementar — é uma condição essencial para proteger pessoas, sistemas produtivos e economias inteiras. Pela primeira vez, houve um consenso amplo sobre a necessidade de ampliar os orçamentos e priorizar investimentos que tornem territórios e cadeias produtivas mais resilientes.

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Um estudo do Climate Policy Initiative (CPI) mostra que o Brasil recebeu US$ 5,1 bilhões por ano em financiamento climático entre 2021 e 2022, um aumento de 84%. Ainda assim, o volume permanece insuficiente para setores com maior grau de impacto social, como agricultura de baixo carbono, bioeconomia e microempreendedorismo. A principal barreira identificada é o risco percebido elevado — agravado pela falta de estruturas de redução de risco capazes de atrair capital para agentes econômicos de menor porte.

O CPI destaca que, enquanto energia renovável atrai capital naturalmente, segmentos que dependem de inclusão produtiva — agricultores familiares, pequenos fornecedores de cadeias agroindustriais, negócios urbanos vulneráveis — permanecem subfinanciados devido ao alto custo de capital, à volatilidade climática e à ausência de garantias. Apenas 7% do financiamento climático global é destinado à adaptação. Estimativas da UNEP (Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente) indicam que países em desenvolvimento precisam de US$ 215 a 387 bilhões anuais para adaptação — um gap de centenas de bilhões. Na prática, quem paga a conta do clima, por ter menor capacidade de adaptação, são as populações vulneráveis — justamente quem menos tem recursos para arcar com perdas.

Daí a necessidade dos instrumentos de blended finance (financiamentos mistos) — especialmente garantias e seguros — que redistribuem risco, reduzem perdas potenciais e ampliam a capacidade de endividamento desses grupos, fortalecendo a resiliência financeira.

Esse diagnóstico convergente aparece também no estudo “O Papel do Seguro na Transição Climática”, da CNseg, que subsidiou parte das discussões oficiais na COP30. Segundo o relatório, entre 2014 e 2024 os desastres naturais geraram R$ 327,4 bilhões em prejuízos privados, afetando de forma aguda atividades produtivas intensivas em mão de obra. Em 2024, foram 1.690 desastres naturais; no Rio Grande do Sul, as perdas chegaram a R$ 100 bilhões — com apenas 6% delas seguradas.

Esses números evidenciam um problema sistêmico: eventos climáticos extremos vêm se convertendo em choques de renda, rupturas em cadeias produtivas e deterioração de carteiras de crédito, especialmente nos segmentos mais frágeis da economia. Para além da infraestrutura destruída, há impacto direto na inadimplência, na capacidade de pagamento e na continuidade de micro e pequenas atividades.

A CNseg lembra que o país tem um setor segurador robusto — R$ 2,3 trilhões em ativos, 266 mil empregos e participação de 6,2% do PIB — porém ainda com baixa capilaridade: apenas 25% das residências, 30% da frota e 7,7% da área agrícola possuem cobertura adequada. Essa lacuna afeta diretamente a inclusão produtiva, pois famílias e pequenos negócios expostos a riscos climáticos acessam menos crédito e enfrentam condições piores de financiamento.

Há, portanto, amplo espaço para o setor de seguros tracionar inovações em arranjos econômicos e financeiros que (1) estabilizem a renda de pequenos negócios suscetíveis a catástrofes climáticas; (2) componham garantias em green e social bonds (títulos verdes e sociais) para reduzir risco e atrair capital; e (3) criem modelos de valor compartilhado entre agentes de um mesmo setor. O exemplo da Fundação Solidaridad com a Minera Orex, no Peru, torna esse ponto concreto: grandes empresas podem transformar setores de alto risco quando optam por integrar, e não excluir, pequenos operadores.

No caso peruano, a empresa passou a formalizar relações com mais de 80 operações de mineração artesanal, oferecendo assistência técnica, contratos claros e um mecanismo simples de acesso a seguros — cujo pagamento é descontado diretamente da entrega do minério. Isso reduziu o risco para as seguradoras, garantiu proteção social para cerca de 400 trabalhadores e aumentou a estabilidade territorial ao organizar quem atua dentro da concessão. O arranjo ilustra como adaptação, redução de risco e desenvolvimento local caminham juntos quando empresas, comunidades e instituições — como a Solidaridad — operam de maneira colaborativa, e não conflitiva.

Para o Brasil, a agenda climática precisa incorporar explicitamente a dimensão social e produtiva do risco climático. Seguro e crédito não são instrumentos paralelos: são complementares. Um fornece proteção e previsibilidade; o outro garante continuidade produtiva e expansão econômica. E ambos dependem de arranjos de redução de risco que tornem viável a chegada de capital a quem mais precisa.

Seguro, crédito e adaptação, portanto, precisam operar de forma coordenada. Sem redução do risco percebido, o crédito não chega às populações e atividades mais expostas. Sem crédito, a adaptação não se converte em inclusão produtiva, e sem inclusão, a transição climática permanece restrita aos setores já consolidados — incapaz de promover transformação estrutural.

foto de carolina da costa, autora do artigo Sem seguro e garantias para os vulneráveis, não há transição climática justa
Carolina da Costa - Foto: Divulgação

Chief Impact Officer da Stone Co, liderando as frentes de inclusão produtiva na base da pirâmide (microcrédito, blended finance com veículo filantrópico e educação financeira) e integração ESG financeira e institucional. Foi originadora e captadora de fundos para Maua Capital no tema sustentabilidade no agro. Presidente do Comitê ESG do Grupo Boticário. Prêmio profissional do ano em Inovação em Sustentabilidade pela ANEFAC (2021). Conselheira LATAM Solidaridad Network. Conselheira de Desenvolvimento da PUC Rio. Foi dire­tora de inovação, saúde digital, pesquisa e ensino do Hospital Alemão Oswaldo Cruz, onde permanece como conselheira estratégica. Ex-VP de Graduação do Insper, atualmente Conselheira do Hub de Inovação e do Comitê de Ensino e Pesquisa e também professora de educação executiva nos temas pensamento crítico e sistêmico.

Administradora pública, M.S. pela EAESP-FGV e University of Texas at Austin, e PhD em Educação e Cognição pela Rutgers University.

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