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Por uma educação que ensine a pensar

Escrito por Neo Mondo | 20 de outubro de 2025

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Será que, mesmo em plena era digital, não estamos revivendo certos traços cognitivos da Idade Média? - Foto: Ilustrativa/Freepik

POR – CAROLINA DA COSTA

Tenho a sensação de que, em pleno século XXI, vivemos alguns aspectos cognitivos da Idade Média — não por falta de tecnologia, mas pela forma como o conhecimento se concentra nas mãos de poucos. Naquela época, o saber era privilégio de uma elite letrada, guardado nos mosteiros e mediado por monges copistas. Hoje, os algoritmos exercem função semelhante: filtram, priorizam e controlam o que chega até nós. Mudaram os instrumentos, mas o efeito é o mesmo — uma sociedade em que muitos estão cercados de informação, mas privados de compreensão.

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A chamada “Idade das Trevas” não foi escura porque deixou de produzir conhecimento. Pelo contrário, os monges copistas eram meticulosos em preservar textos e registrar ideias. O problema é que o conhecimento não circulava: ficava restrito a poucos. Era reproduzido, não recriado. A passagem para o Renascimento marcou a transição do copismo à criação — quando a humanidade descobriu o poder de pensar por si mesma. Isso foi uma revolução intelectual. Com o avanço da imprensa e a redescoberta dos textos clássicos, o saber saiu dos mosteiros e ganhou as praças, as universidades e as oficinas. A Europa passou de uma cultura de obediência à autoridade para uma cultura de investigação, dúvida e experimentação. A razão, a ciência e a educação tornaram-se instrumentos de emancipação.

É esse espírito que precisamos reencontrar nos tempos de hoje: como promover um novo renascimento — não contra a ignorância (como era no passado), mas pela reconstrução da forma como produzimos, compartilhamos e raciocinamos sobre o conhecimento?

Esse novo pacto precisa unir escolas, universidades, empresas e a sociedade civil em torno de uma causa comum: formar cidadãos capazes de pensar criticamente, interpretar dados, duvidar com método e agir com base em evidências. Em um mundo em que a tecnologia é cada vez mais acessível, o verdadeiro diferencial será a capacidade de raciocinar — não apenas de acessar informação.

Um exemplo inspirador vem do Good Judgment Project, conduzido por Philip Tetlock e Barbara Mellers (2015). O estudo reuniu milhares de pessoas comuns para prever eventos complexos — crises políticas, decisões econômicas, conflitos internacionais — e descobriu que os melhores “superprevisores” não eram especialistas, mas pensadores críticos. Eram pessoas dispostas a revisar opiniões, aprender com os erros e ajustar suas hipóteses à luz de novas evidências.

A lição é simples e profunda: boas decisões nascem de bons processos de pensamento. A educação precisa voltar a formar mentes que saibam duvidar, conectar e construir sentido — não apenas repetir informações.

Mais do que combater a desinformação, trata-se de cultivar uma cultura que valorize a verdade, a curiosidade e a autonomia intelectual. Esse novo renascimento será coletivo, crítico e conectado — um convite a “reaprender” a pensar em meio ao ruído digital, para que nenhuma luz dependa mais de tão poucos para acender.

foto de carolina da costa, autora do artigo Por uma educação que ensine a pensar
Carolina da Costa

Chief Impact Officer da Stone Co, liderando as frentes de inclusão produtiva na base da pirâmide (microcrédito, blended finance com veículo filantrópico e educação financeira) e integração ESG financeira e institucional. Foi originadora e captadora de fundos para Maua Capital no tema sustentabilidade no agro. Presidente do Comitê ESG do Grupo Boticário. Prêmio profissional do ano em Inovação em Sustentabilidade pela ANEFAC (2021). Conselheira LATAM Solidaridad Network. Conselheira de Desenvolvimento da PUC Rio. Foi dire­tora de inovação, saúde digital, pesquisa e ensino do Hospital Alemão Oswaldo Cruz, onde permanece como conselheira estratégica. Ex-VP de Graduação do Insper, atualmente Conselheira do Hub de Inovação e do Comitê de Ensino e Pesquisa e também professora de educação executiva nos temas pensamento crítico e sistêmico.

Administradora pública, M.S. pela EAESP-FGV e University of Texas at Austin, e PhD em Educação e Cognição pela Rutgers University.

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