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A realidade incômoda da transição energética e os caminhos possíveis para o Brasil

Escrito por Neo Mondo | 26 de setembro de 2025

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A transição energética é complexa, lenta — e, justamente por isso, exige ação estratégica, políticas consistentes e inovação de impacto - Foto: Ilustrativa/Freepik

POR – CAROLINA DA COSTA

Li recentemente o livro How the World Really Works (2021), de Vaclav Smil, e, como alguém que trabalha com impacto e sustentabilidade — e que também estudou e lecionou sobre pensamento crítico e sistêmico — considero sua obra uma leitura obrigatória. Smil nos obriga a encarar a realidade com fatos e dados: ainda somos uma civilização ancorada em combustíveis fósseis, em materiais intensivos em energia e em sistemas globais frágeis. Reconhecer esses limites não significa desmobilizar esforços, mas fortalecer a agenda climática e de sustentabilidade, pois apenas a partir desse realismo podemos desenhar políticas, investimentos e inovações eficazes e duradouras.

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Vamos aos números. Mesmo após três décadas de expansão das renováveis, 80% da energia mundial ainda vem de carvão, petróleo e gás (dado presente no livro e também na International Energy Agency, 2023). Cada pessoa no planeta consome, em média, 70 gigajoules de energia primária por ano — o equivalente a 500 quilos de petróleo. Além disso, quatro materiais sustentam a vida moderna: cimento, aço, plástico e amônia. Sem eles, não haveria cidades, pontes, produção de alimentos em escala ou a agricultura intensiva que hoje alimenta mais de 8 bilhões de pessoas. Smil lembra que toda a nossa dieta é “fossilizada”: tratores, fertilizantes, transporte e refrigeração dependem de combustíveis fósseis. Sem o processo Haber-Bosch, que viabilizou a produção sintética de amônia presente nos fertilizantes, apenas metade da população terrestre seria abastecida.

Transição energética exige ação estratégica - Imagem gerada por IA - Foto: Ilustrativa/Divulgação

A conclusão é desconfortável: historicamente, transições energéticas levaram entre 50 e 75 anos. O carvão demorou quase um século para substituir a lenha; o petróleo levou décadas para dominar o século XX. Por isso, Smil rejeita tanto o excesso de otimismo quanto o catastrofismo. O que sobra é o realismo. Claro que a velocidade das inovações — com a queda acelerada do custo da energia solar e das baterias, somada a políticas robustas — pode encurtar prazos em setores específicos, como a geração elétrica e o transporte urbano (Jacobson et al., 2022). Ainda assim, a dependência estrutural do cimento, do aço, do plástico e da amônia mostra que a transição será custosa, complexa e moldada por limites materiais inescapáveis.

Esse realismo precisa ser complementado por uma estratégia clara de enfrentamento da crise climática, que é, acima de tudo, um problema de ação coletiva global. Se o mundo não atingir emissões líquidas zero nas próximas duas décadas, as chances de estabilizar o clima serão praticamente nulas. Para isso, é essencial precificar o carbono, criando incentivos econômicos concretos para reduzir emissões. Hoje, o preço já varia de cerca de US$ 85 por tonelada nos EUA a US$ 100 na Europa (nos mercados regulados) — enquanto na Amazônia é possível capturar 1 tonelada de carbono por apenas US$ 5, o que evidencia o imenso potencial das soluções baseadas na natureza.

O Brasil, em especial, tem uma vantagem competitiva única: pode gerar mais valor com a preservação e a captura de carbono do que com o desmatamento. Criar mecanismos financeiros que remunerem a conservação é estratégico não apenas do ponto de vista ambiental, mas também econômico. Além disso, a transição precisa considerar a desigualdade global: países ricos têm mais recursos para financiar mudanças, enquanto os mais pobres sofrem de forma desproporcional os impactos da crise climática. É preciso, portanto, garantir mecanismos de compensação e justiça climática entre Norte e Sul.

Smil nos lembra da lentidão histórica das transições, e a agenda climática nos lembra da urgência de agir. Entre a paciência imposta pelos limites físicos e a pressa ditada pelo risco climático, existe um caminho: investir em eficiência, criar políticas públicas consistentes, desenvolver mercados de carbono e apostar em inovações que acelerem setores estratégicos. O Brasil pode — e deve — ser protagonista desse movimento, transformando suas vantagens naturais em alavancas reais de uma transição que seja sistêmica, justa e eficaz.

foto de carolina da costa, autora do artigo A realidade incômoda da transição energética e os caminhos possíveis para o Brasil
Carolina da Costa - Foto: Divulgação

Chief Impact Officer da Stone Co, liderando as frentes de inclusão produtiva na base da pirâmide (microcrédito, blended finance com veículo filantrópico e educação financeira) e integração ESG financeira e institucional. Foi originadora e captadora de fundos para Maua Capital no tema sustentabilidade no agro. Presidente do Comitê ESG do Grupo Boticário. Prêmio profissional do ano em Inovação em Sustentabilidade pela ANEFAC (2021). Conselheira LATAM Solidaridad Network. Conselheira de Desenvolvimento da PUC Rio. Foi dire­tora de inovação, saúde digital, pesquisa e ensino do Hospital Alemão Oswaldo Cruz, onde permanece como conselheira estratégica. Ex-VP de Graduação do Insper, atualmente Conselheira do Hub de Inovação e do Comitê de Ensino e Pesquisa e também professora de educação executiva nos temas pensamento crítico e sistêmico.

Administradora pública, M.S. pela EAESP-FGV e University of Texas at Austin, e PhD em Educação e Cognição pela Rutgers University.

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