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Escrito por Daniel Medeiros | 15 de dezembro de 2025
Golpe, reflexão, democracia, poder e as regras do jogo - Foto: Ilustrativa/Freepik
POR - DANIEL MEDEIROS
Era o final dos anos 70 e eu iniciava meu Ensino Médio. Na minha escola haveria a escolha para a nova diretoria do Grêmio Estudantil e eu, pela primeira vez, concorreria em uma das chapas, ao cargo de vice-diretor de jornal. Isto é, eu seria o segundo na hierarquia da elaboração do jornalzinho de oito páginas que circulava mensalmente pela biblioteca, pátio, cantina do colégio e que dois ou três dias após o seu lançamento encheria os latões de lixo espalhados pelas ruas internas do grande prédio que nos abrigava.
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Mesmo assim eu estava eufórico e preparei-me para a disputa, conversando com meus amigos de futebol, o pessoal da sala, dos corredores, onde eu já pudesse ter sido visto, pois não era um dos alunos populares da escola, mas também tinha lá os meus contatos.
O candidato à presidência do Grêmio, meu amigo Martins, que escrevia bons poemas e que me desafiava com palavras perdidas dos dicionários que ele estudava com afinco, era um pouco mais velho e bem mais influente. Falava e era ouvido, contava histórias engraçadas e mesmo os estranhos das mesas próximas da cantina ou do refeitório riam de seus chistes . Mas, apesar dessas qualidades, nossa chapa não era considera favorita, pois não era considerada “a oficial”, não possuía o aval terminativo dos professores e da direção. Nunca soube a razão dessa indisposição. No meu subconsciente de adolescente nordestino, o fato de Martins ser um moço pobre e negro não significava nenhuma desvantagem. Só muito tempo depois, no mundo adulto, que é a era das desilusões, percebi que isso pode ter sido uma razão para o que aconteceu.
E o que aconteceu é que vencemos as eleições para o Grêmio, com uma margem indiscutível. Algo do que falamos ou a forma de apresentarmos as nossas ideias, ou mesmo nós, em nossa pequenez de jovens da periferia em meio àquele ambiente frequentado por muita gente de condições econômicas bem mais avantajadas, tudo isso pode ter gerado uma onda de simpatia, ou até mesmo provocado um movimento de galhofa do tipo “vamos votar neles pra ver o que acontece”, e o fato é que vencemos. Lembro-me o prazer que isso causou em meu espírito, essa vitória inesperada, essa duplicação do meu ser que agora seria o aluno do primeiro ano do Ensino Médio e o vice-diretor de jornal, com direito a uma plaquetinha vermelha com letras pretas indicando meu cargo e que eu ostentaria com orgulho acima do bolso esquerdo da camisa do meu uniforme.
E então houve uma tentativa de golpe. Uma das chapas derrotadas ( eram três competidoras) alegou que não representávamos a maioria dos estudantes, pois havíamos recebidos pouco menos de 40% do total dos votos e que, nesse caso, deveria haver uma nova eleição. Deveria, eu até poderia admitir hoje, para efeito de argumentação, mas na época, essa afirmação não fazia sentido, já que o mais importante havia sido conquistado: conseguimos mais votos do que o segundo e do que o terceiro lugar. Isto é: chegamos na frente. Não era o suficiente?
Hoje me orgulho dessa embrulhada toda, pois aprendi que antes de nós, jovens do final dos anos setenta, o grande Juscelino Kubitschek já havia passado pelo mesmo perrengue, na eleição de 1955. Mas naquele momento eu ainda desconhecia esse fato da história nacional, já que JK não era um objeto de estudos muito pormenorizado nos currículos oficiais daqueles anos de chumbo.
A direção acatou preliminarmente a argumentação dos nossos adversários e suspendeu o resultado da eleição. Recordo-me de alguns jovens arrancando nossos cartazes das paredes e jogando no lixo diante do riso de seus apoiadores e como aquela cena gerou em mim um misto de raiva e revolta que, creio, nunca mais me abandonou. Tentei impedir um desses momentos e um rapaz, com uma régua grande nas mãos, ameaçou agredir-me com ela. Paralisei diante daquela possibilidade de violência, pois era um colega de turma, não propriamente um amigo, mas alguém que eu cumprimentava todos os dias e com quem conversava sobre banalidades ou sobre as provas com certa frequência. Dele recordo-me apenas do olhar de fúria e da disposição de me ferir porque eu queria evitar que ele destruísse nossos cartazes de campanha.
Tudo acabou sendo resolvido pela imposição da Lei. Não havia nenhuma previsão, no regimento da escola, do que depois ( e até hoje) conhecemos como o segundo turno das eleições. Logo, nossa vitória era regimental e ela foi confirmada. E eu ganhei minha plaquinha vermelha de vice diretor de jornal e a ostentei ao longo daquele ano que acabou sendo o meu último naquela escola. Não guardo lembrança sobre minha performance na função, que deve ter sido um pouco menos ou um pouco mais do que medíocre. Mas nunca esqueci daquele olhar de fúria despertado no rosto daquele rapaz pacato e do potencial de por em risco as regras simples que fazem as coisas funcionarem coletivamente.
Daniel Medeiros - Advogado e especialista em Filosofia Contemporânea pela PUCPR. Mestre e Doutor em Educação Histórica pela UFPR. Pós doutorando em Bioética pela PUCPR. Professor da Especialização em Filosofia do Direito, da Escola de Direito, e Especialização em Neurociência e Educação, da Escola de Educação e Humanidades da PUCPR. Autor da Coluna Cuidados Humanos, da revista Humanitas. Conselheiro e colunista do portal Neo Mondo.
E-mail: danielhortenciodemedeiros@gmail.com
Instagram: @profdanielmedeiros

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