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Escrito por Daniel Medeiros | 29 de junho de 2026
Avó. A memória de uma mulher carijó ajuda a reconstruir uma identidade que o tempo e os formulários oficiais insistiram em apaga - Imagem gerada por IA - Foto: Ilustrativa/Neo Mondo
POR - DANIEL MEDEIROS*
Esta semana o senador, ex- juiz e ex-ministro da Justiça Sérgio Moro, diante de uma pergunta feita por uma repórter sobre o que ele teria a dizer aos “parnanguaras" , o agora pré-candidato ao governo do Paraná confundiu a expressão que designa quem é nascido em Paranaguá com uma tribo indígena e cometeu uma resposta qualquer sobre o “respeito aos indígenas” mas… “a imperiosa marcha do progresso, a ampliação do porto”, etc e tal. Dias depois reconheceu a gafe, pediu desculpas ao povo parnaguara(sic) e então, vida que segue.
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Quero registrar que o episódio foi ,para mim, bastante elucidativo de uma falha que me escapa pelos dedos há mais de sessenta anos: a presença indígena que nunca consegui reconhecer em mim. Sou de Paranaguá, e nasci no dia do aniversário da cidade, que é a mais antiga do Estado. Meu pai conta que estava pronto para ver os festejos e já havia arrumado meu irmão mais velho quando minha mãe começou a sentir as dores do parto. Papai correu buscar a parteira e nasci em uma casa de madeira , na velha estradinha, com quase cinco quilos, sorridente e bochechudo, para o alívio de mamãe, que era muito magrinha e tinha um metro e meio de altura.
Pouco depois, meu pai foi transferido para Fortaleza e me criei no bairro do Aerolândia, em uma vila militar cujas casas foram construídas pelos estadunidenses durante a segunda guerra. Só uma vez , aos doze anos, fui com minha mãe - nossa primeira vez viajando de avião - para visitar minha avó e meus familiares parnanguaras. Ficamos cerca de um mês na pequena casa de alvenaria, logo na entrada da cidade, e nunca mais esqueci do rosto de minha avó, de suas unhas sempre pintadas de alguma cor muito escura, seus lábios finos como um traço feito a lápis e o indefectível cigarro sem filtro no canto da boca. Lembro particularmente do cheiro dela, esse misto de fumo e sabonete, ela que sempre estava muito arrumada, na simplicidade de seus vestidos e seus chinelos de dedo. Minha avó era , como era comum dizer na época, bugre, uma expressão derivada de búlgaro, por causa de um movimento religioso dissidente e que era visto pelos europeus ocidentais como herético. Daí emprestarem o termo, de forma pejorativa, aos indígenas da região, com suas crenças “bárbaras”. Vovó provavelmente descendia dos antigos carijós, tribo do tronco tupi que, em face de sua mansidão, acabou reduzida à escravidão pelos bandeirantes , ou dizimada pelas doenças trazidas pelos europeus, sobrando poucos, espalhados pelas região de rios e baias , miscigenado-se e dando origem aos caiçaras que até hoje resistem diante “da imperiosa marcha do progresso”.
Foram os carijós quem chamaram aquela baia calma e piscosa de Pernaguá ou Parnaguá, que quer dizer “grande mar redondo”, e onde fixaram suas malocas e desenvolveram uma grande habilidade em percorrer aqueles rios e aquela baía, até a ilha do Mel, com suas canoas feitas de um único tronco.
Nunca conversei com a minha avó sobre a sua ascendência. Essa memória caiu sobre a minha cabeça graças à gafe do senador/candidato, rápido em enfatizar os limites dos direitos dos povos originários em face dos apelos intransponíveis do progresso. Essa memória também reapareceu por causa de uma conversa que tive com a minha esposa sobre a linguagem oficial do IBGE, que nos define por nossa cor e que, por isso, sempre impediu-me de reconhecer a presença indígena de minha avó em mim. Sou um mestiço de pele clara, de cabelo e olhos acastanhados. Nunca, em nenhuma oportunidade institucional, tive a oportunidade de preencher um protocolo no qual me fosse permitido escrever: sou mestiço. E, depois de muitos anos, deparo-me com o tamanho dessa falha e a importância de discutir sobre isso. Diante dos inquéritos oficiais, não há a possibilidade de afirmar a presença de minha avó em mim. Como um dos critérios definidores da minha identidade é a minha cor, as opções são : branco, preto, amarelo, pardo. E aí vem, completamente fora de eixo, a possibilidade de escrever: indígena. Mas daí, o que farei com minha avó paterna que era italiana e meus dois avôs que eram portugueses? Em face disso marco a alternativa “branco”.
Minha enteada, que é filha de pai preto e mãe branca vive um drama semelhante. Dizer sobre si mesma que é negra não lhe parece suficiente. Ela, que é uma mestiça de pela clara e lindos cachos crespos, sabe que sua identidade é muito mais complexa do que a regra identificadora impõe. Quando a entrevistadora do IBGE esteve em minha casa, ela ficou visivelmente nervosa e teve dificuldade em responder a essa pergunta. Acabou dizendo parda. Uma palavra sem história.
Aí fico cismando de que deveríamos definirmo-nos como os vinhos: varietal ou blend. Não seria menos arbitrário, mas seria mais abrangente e acolhedor. Venho de uvas iguais ou venho da mistura de uvas. Sim, sei, pode não ser uma boa solução, embora mantenho o registro como provocação para meus leitores.
O senador Moro, vejam só, prestou-me, enfim, um serviço. Ao dizer “respeitar" os indígenas e, ao mesmo tempo, desconhecer como os moradores de Paranaguá são chamados, chamou a atenção de por qual razão nós, os parnanguarás, somos chamados assim. Que ele não soubesse, parece um ato falho muito revelador das suas prioridades. Que a gente esqueça da presença dos indígenas em nós, é indesculpável.
*Daniel Medeiros - Advogado e especialista em Filosofia Contemporânea pela PUCPR. Mestre e Doutor em Educação Histórica pela UFPR. Pós doutorando em Bioética pela PUCPR. Professor da Especialização em Filosofia do Direito, da Escola de Direito, e Especialização em Neurociência e Educação, da Escola de Educação e Humanidades da PUCPR. Autor da Coluna Cuidados Humanos, da revista Humanitas. Conselheiro e colunista do portal Neo Mondo.

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