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“Sawara”: como uma criança Apiaká aprendeu a dizer “onça” na língua de seus avós

Escrito por Neo Mondo | 17 de junho de 2026

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"Sawara" — uma criança Apiaká desenha e nomeia a onça na língua do seu povo, durante as oficinas de revitalização na Aldeia Mayrowi, Mato Grosso - Foto: Divulgação/AXIA Energia

POR - OSCAR LOPES, PUBLISHER DO NEO MONDO

No norte do Mato Grosso, onde o rio dos Peixes deságua no Arinos e este alimenta o Juruena rumo ao Tapajós, vive um povo que quase perdeu a própria voz. Os Apiaká, povo Tupi-Guarani cuja presença na bacia do Tapajós antecede em séculos a chegada europeia, chegaram ao início do século XXI com um número residual de conhecedores do idioma — pessoas que guardavam palavras, expressões e fragmentos gramaticais, mas não mais falantes em sentido pleno. O último homem que usava o Apiaká como língua corrente, Pedro Kamassuri Apiaká, morreu em 2011. O que restou foi um idioma suspenso entre a memória e o silêncio: presente em gravações, em dissertações universitárias, nos registros que a pesquisadora Suzeile Andrade Sousa levou para a UnB depois de três meses de campo nas aldeias, e no vocabulário parcial de quem o ouviu na infância sem nunca tê-lo falado com fluência.

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É esse abismo que torna a conclusão das oficinas de revitalização na Aldeia Mayrowi algo mais do que uma notícia de programa social. Ao longo de dois anos, cerca de 400 indígenas — crianças, jovens e adultos — participaram de um ciclo formativo estruturado em quatro módulos progressivos, com 320 horas-aula dedicadas ao vocabulário, à gramática e à produção oral e escrita do Apiaká. A iniciativa, conduzida pelo Laboratório de Línguas e Literaturas Indígenas Aryon Dall'Igna Rodrigues, da Universidade de Brasília, em parceria com a AXIA Energia e a FUNAI, integra o Programa de Valorização da Cultura Indígena, componente do Plano Básico Ambiental Indígena da Usina Hidrelétrica Teles Pires.

O que se recupera não é apenas um léxico. O Apiaká pertence ao ramo Kawahib da família Tupi-Guarani e carrega, em sua morfologia e nos seus nomes para animais, plantas e territórios, um sistema de classificação do mundo construído ao longo de gerações de ocupação das margens do Teles Pires e do Juruena. Quando uma criança da Aldeia Mayrowi aprende que "onça" se diz sawara e "cachorro" se diz awara, ela não está apenas adquirindo vocabulário: está sendo inserida em uma grade conceitual cujas distinções morfológicas carregam informação ecológica, cosmológica e social que o português não replica. Para os linguistas que trabalham com processos de obsolescência, esse é precisamente o ponto de não retorno: quando a língua deixa de ser o veículo do pensamento coletivo, o que se perde não pode ser recuperado por tradução.

A professora Ana Sueli Cabral, coordenadora do laboratório da UnB, explica que o material pedagógico das oficinas foi construído a partir dos estudos com os últimos conhecedores do idioma — um trabalho de arqueologia linguística que precedeu as oficinas e tornou possível sistematizar, em conteúdos ensinável, aquilo que sobreviveu disperso na memória coletiva do povo. Esse processo de ancoragem — do registro científico à sala de aula indígena — é o que transforma a iniciativa em algo estruturalmente distinto de uma campanha de valorização cultural. É reconstrução, não apenas celebração.

A professora Suzeile Andrade Sousa, que assina a pesquisa de base do projeto e conhece a Aldeia Mayrowi desde suas primeiras idas a campo, em 2014, fala sobre resistência. As oficinas fortalecem a identidade cultural e a autoestima, especialmente entre crianças e jovens que cresceram sabendo que tinham uma língua mas nunca a ouviram em uso cotidiano. Ela também nomeia o que raramente aparece nos relatórios corporativos: a dificuldade de fazer com que o entorno não indígena — instituições, gestores, parceiros — respeite a lógica cultural do povo, e não apenas o resultado mensurável do programa.

foto da professora suzeile sousa, remete a matéria "Sawara": como uma criança Apiaká aprendeu a dizer "onça" na língua de seus avós
A professora Suzeile Sousa durante as oficinas do Projeto de Resgate da Língua Apiaká, na Aldeia Mayrowi — ela foi quem transformou os registros dos últimos conhecedores do idioma em conteúdo ensinável, devolvendo ao povo palavras como sawara - Foto: Divulgação/AXIA Energia

Do lado da comunidade, o que se ouve é outra camada da mesma história. Rafael Morimã, monitor do projeto e morador da aldeia, descreve o que observou entre as crianças com a precisão de quem acompanhou a mudança de perto: onde antes se dizia "onça", agora se diz sawara; onde antes se dizia "cachorro", agora se diz awara. Edinaldo Silva Kamassuri, diretor da Escola Estadual Indígena Mayrowi Apiaká, sublinha que as oficinas trouxeram algo que a escola não tinha: materiais didáticos estruturados, com conteúdo próprio, produzidos a partir da língua e da cultura do povo. Raimundo Kamassori, presidente da Associação Indígena Apiaká Sawara, registra a alegria de ver jovens se comunicando na língua tradicional — e aponta que, além do idioma, a comunidade vem recuperando outras práticas ancestrais, da alimentação aos cantos. O nome da própria associação diz o que precisa ser dito: Sawara, onça, em Apiaká.

Ivenaldo Paleci Apiaká, vice-presidente da associação, coloca o programa no tempo mais longo. A língua estava quase esquecida após a perda dos últimos anciãos. O que o projeto representa, para ele, é a recuperação da história, da tradição e do registro original da comunidade. Ele também menciona o engajamento das aldeias vizinhas, que reconheceram a relevância da iniciativa e se mobilizaram para participar. Cristina Tucumã, professora de língua materna na sua aldeia e participante das oficinas, fala com a sobriedade de quem entende a dimensão do trabalho que ainda resta: a recuperação é gradual, o contexto interno das aldeias é de diversidade cultural, e a continuidade depende do engajamento cotidiano de professores, famílias e alunos. Os avanços desde os anos 2000 são reais — palavras, cantos, pinturas recuperados — mas a língua só vive quando é usada, não quando é ensinada.

O programa foi desenhado para operar desde dentro da rotina escolar. As aulas aconteciam às quartas-feiras, integrando o Apiaká ao cotidiano da escola da aldeia, não como disciplina exótica mas como prática de pertencimento. A proposta pedagógica incorporou elementos culturais que transcendem o ensino linguístico estrito, reconhecendo que a transmissão de uma língua ameaçada depende, em igual medida, da vitalidade das práticas que ela nomeia. Estão previstas a elaboração de uma cartilha ilustrada, um caderno de exercícios e um manual pedagógico — materiais que, após validação pela comunidade, serão distribuídos nas aldeias e deverão sustentar a formação de novos multiplicadores.

A arquitetura do programa revela uma compreensão mais sofisticada do que os critérios clássicos de responsabilidade socioambiental permitem capturar. O Plano Básico Ambiental Indígena da UHE Teles Pires nasceu da exigência legal de compensação pelos efeitos de uma obra de infraestrutura sobre populações em territórios afetados. Mas há uma diferença entre cumprir uma condicionante e construir, ao longo de dois anos, um ciclo formativo que envolve 400 participantes, 320 horas de aula, a parceria com um laboratório universitário especializado e a FUNAI. Essa diferença é a distância entre mitigação e reparação.

O contexto normativo internacional reforça a escala do que está em jogo. A Assembleia Geral da ONU proclamou o período entre 2022 e 2032 como Década Internacional das Línguas Indígenas, reconhecendo formalmente a crise de diversidade linguística como um problema de patrimônio global. Segundo o Atlas das Línguas em Perigo da UNESCO, cerca de 90% das línguas hoje faladas no mundo podem desaparecer até o final deste século. No Brasil, dos aproximadamente 190 idiomas indígenas ainda registrados, 45 são classificados como em "situação crítica" e 19 como "seriamente em perigo". O Apiaká, que chegou ao século XXI sem falantes nativos e com um punhado de conhecedores, é um caso-limite dentro desse mapa.

Que uma empresa de energia elétrica esteja no centro dessa aposta é um fato que merece leitura sem ingenuidade. A AXIA Energia opera em territórios que, por definição, implicam interferência em bacias hidrográficas e, com frequência, em terras e populações indígenas. Os planos ambientais que acompanham as licenças de operação são instrumentos regulatórios, não filantropia. Reconhecer isso não diminui o valor do que foi construído em Mayrowi: diminuiria apenas se o quadro fosse escondido. O ponto relevante, do ponto de vista da política pública e da governança corporativa, é outro: o que acontece quando o prazo legal do programa encerra? A cartilha, o caderno de exercícios e o manual pedagógico são condição necessária mas não suficiente para que uma língua passe a ter falantes ativos. A continuidade depende de uma escola equipada, de professores formados, de um ambiente social em que falar Apiaká tenha prestígio e função — não apenas memória.

foto de menino de costas com a camiseta do projeto apiaká, remete a matéria "sawara": como uma criança Apiaká aprendeu a dizer "onça" na língua de seus avós
No quadro, awara é cachorro, akusi é cutia e "sawara" é onça — vocabulário Apiaká recuperado nas oficinas de revitalização da Aldeia Mayrowi, Mato Grosso - Foto: Divulgação/AXIA Energia

Rafael Morimã disse que agora vão "dar continuidade". A voz que ficou na citação é a voz de quem sabe que o trabalho mais difícil não foram as 320 horas de aula. Foi o que começa depois delas.

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