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Escrito por Daniel Medeiros | 20 de julho de 2026
Racismo: é isso que segue existindo nas arquibancadas — e é sobre isso que continuamos calados. Diferenciar o ídolo do coro que o cerca é o primeiro passo para não repetirmos os "bárbaros sem alma" de Montaigne - Foto: Reprodução/YouTube/@CazeTV
POR - DANIEL MEDEIROS*
No ensaio Dos Canibais, Michel de Montaigne ironiza o horror dos europeus diante dos índios tupinambás, praticantes da antropofagia, acusando-os de selvagens sem alma, animais que precisavam ser salvos pela fé cristã e pelos valores da civilização branca. Logo os europeus, dirá Montaigne, que matam e queimam seus concidadãos por divergências de crença ou opinião. Montaigne conheceu pessoalmente os "canibais", pois três deles foram levados a Rouen, na França, para serem mostrados ao rei Carlos IX, que contava na época com apenas 12 anos — o que surpreendeu os indígenas: "como pode uma criança mandar em homens robustos e barbados?" —, assim como também os surpreendeu a pobreza reinante na cidade, a fome e a desigualdade. Diante disso, dirá Montaigne, com clara ironia: "essas criaturas sem calção ou culote, sem saber falar o latim ou o francês, sem conhecer os mandamentos, o que poderiam saber sobre civilização e cultura?"
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Os tupinambás formavam uma sociedade complexa e rica, marcada por relações que diferiam em quase tudo das dos europeus. Como disse Montaigne sobre eles, com rara precisão: "não existe nenhuma espécie de tráfico; nenhum conhecimento de letras; nenhuma ciência dos números; nenhum nome de magistrado, nem superioridade política; nenhuma servidão; nenhuma riqueza ou pobreza; nenhum contrato; nenhuma sucessão; nenhuma partilha; nenhuma ocupação além das ociosas; nenhum respeito de parentesco além do comum; quase nenhuma roupa; nenhuma agricultura (sic); nenhum metal; nenhum uso de vinho ou trigo. Nem mesmo as palavras que significam a mentira, a traição, a dissimulação, a avareza, a inveja, a difamação, o perdão".
Enfim, eram os Outros, e confrontá-los, naquela exposição em Rouen, diante do rei, foi uma ótima oportunidade para os franceses realçarem os defeitos deles. Mas, principalmente, para destacar as suas próprias virtudes.
Exatamente como têm feito inúmeros brasileiros com as manifestações de racismo de vários torcedores argentinos na Copa do Mundo (escrevo este texto ainda antes do jogo final da Copa). "Ah — apontam o dedo —, o time argentino não tem um único negro!" "Olha, vários argentinos chamando os brasileiros de macacos!" "Como alguém pode torcer para esse time?"
Sim, é verdade. Jamais deveríamos torcer para quem não se opõe veementemente a qualquer manifestação de racismo. Não deveríamos tolerar, em hipótese alguma, a injúria e a discriminação racial — em qualquer lugar ou em qualquer circunstância.
A população negra na Argentina foi reduzida a quase nada desde o final do século XIX, e o que resta — cerca de 1% da população — é quase completamente invisibilizado. Uma vergonha para os que apoiam a tese de que essa nação tão rica e complexa é uma espécie de país europeu na América e, para reforçar essa imagem, fez de tudo para apagar sua história multiétnica. Logo eles, amantes do tango, de raiz tão africana!
Mas seriam essas pessoas tão diferentes de nós? Sendo um país com 10% de pretos e 45% de pardos, somos o paraíso da igualdade e do respeito racial? Somos a terra da oportunidade plural e não aceitamos que, em nossos estádios ou em quaisquer outros lugares públicos, nas empresas e nas escolas, nos ônibus e nas periferias das grandes cidades, injustiças sejam praticadas contra pretos e pardos?
Ou, como disse Montaigne, há 450 anos: "achamos bárbaros os costumes dos outros". Mas, quanto a nós, o que fazemos?
*Daniel Medeiros - Advogado e especialista em Filosofia Contemporânea pela PUCPR. Mestre e Doutor em Educação Histórica pela UFPR. Pós doutorando em Bioética pela PUCPR. Professor da Especialização em Filosofia do Direito, da Escola de Direito, e Especialização em Neurociência e Educação, da Escola de Educação e Humanidades da PUCPR. Autor da Coluna Cuidados Humanos, da revista Humanitas. Conselheiro e colunista do portal Neo Mondo.

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