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R$ 1 bilhão para o verde: BNDES e o banco de fomento espanhol fecham a terceira parceria em dois anos

Escrito por Neo Mondo | 2 de junho de 2026

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R$ 1 bilhão para projetos como este — energia solar e eólica estão entre as prioridades do novo acordo entre BNDES e ICO, formalizado em 1º de junho, em Madri - Foto: Ilustrativa/Magnific

POR - OSCAR LOPES*, PUBLISHER DO NEO MONDO

Em Madri, na segunda-feira 1º de junho, dois bancos públicos — um da maior economia da América Latina, outro do país que exportou mais de 3,2 bilhões de euros em bens para o Brasil em 2024 — formalizaram a terceira operação conjunta entre as duas instituições. O BNDES captou R$ 1 bilhão, equivalente a US$ 200 milhões, junto ao Instituto de Crédito Oficial (ICO) da Espanha para financiar projetos verdes e sustentáveis no Brasil. A cerimônia reuniu o diretor de Planejamento e Relações Institucionais do BNDES, Nelson Barbosa, e o presidente do ICO, Manuel Illueca — e marcou um ciclo que começou silenciosamente há pouco mais de um ano.

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Os dois contratos anteriores já viabilizaram o financiamento de dezesseis projetos em setores como produção e distribuição de energia elétrica, construção e transporte e armazenagem — dos quais cinco foram classificados como sustentáveis sob a Taxonomia de Sustentabilidade da União Europeia. O novo aporte consolida um ritmo de negociação que se acelerou: desta vez, a formalização ocorreu na própria capital espanhola, e não à margem de assembleia internacional — sinal do peso que a relação bilateral passou a ocupar na estratégia de captação do banco.

A arquitetura da operação segue o modelo da Linha ICO Canal Internacional, instrumento pelo qual o banco de fomento espanhol intermediou recursos junto a instituições financeiras locais em mercados emergentes. Por meio desta linha, o ICO mobilizou mais de 3,9 bilhões de euros e financiou mais de 600 projetos em economias como América Latina e Caribe, Estados Unidos, Turquia e Norte de África. O Brasil — que já recebia capital espanhol por essa via — passa agora a figurar no topo desta carteira geográfica.

Os recursos apoiarão projetos alinhados às principais agendas globais de desenvolvimento, entre elas os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS), a Estratégia Europeia 2030 e as recomendações da OCDE e da Comissão Europeia. Energia renovável, eficiência energética, redução de emissões e infraestrutura sustentável compõem a lista de prioridades. Há, porém, uma camada menos visível no acordo: ele também serve para sustentar o fluxo comercial entre os dois países. O acordo se concentra especialmente em oferecer financiamento para facilitar a transição ecológica por meio de projetos que potencializam a eficiência energética, o transporte sustentável e a descarbonização industrial, além de projetos de digitalização que fomentem a competitividade e a geração de emprego qualificado.

Sob a perspectiva espanhola, o mecanismo cumpre função dupla: financia a descarbonização no Brasil e, ao mesmo tempo, abre espaço para empresas ibéricas operarem nesses projetos. Cerca de 300 empresas espanholas estão estabelecidas ou operando no Brasil. O ICO não é um financiador neutro nesse tabuleiro — é um instrumento deliberado de internacionalização do tecido empresarial espanhol, e Manuel Illueca foi preciso ao dizer isso. Em declaração divulgada pelo BNDES, ele afirmou que o acordo "reforça o papel do ICO como parceiro de referência para acompanhar as empresas espanholas na sua internacionalização, ao mesmo tempo que contribui para impulsionar projetos sustentáveis no Brasil, com participação de empresas espanholas."

Do lado brasileiro, o enquadramento é outro: desde a COP30 — novembro de 2025, em Belém —, o BNDES sustenta uma ofensiva sistemática de diversificação de captação externa. O Fundo Clima já utilizava recursos do Tesouro Nacional parcialmente captados por meio de emissões de Green Bonds no exterior. Na COP30, o banco anunciou R$ 21 bilhões em novos financiamentos internacionais, envolvendo o BID, o banco japonês JBIC, o KfW alemão, o grupo francês AFD e a italiana Cassa Depositi e Prestiti. A operação com o ICO, formalizada meses depois, é a continuação desse movimento — e o primeiro grande acordo bilateral com a Europa no período pós-Belém.

O diretor Nelson Barbosa esclareceu que os recursos integrarão o orçamento de investimentos do banco e serão canalizados pelas linhas de financiamento já disponíveis aos clientes finais, dentro dos critérios operacionais vigentes. Não se cria uma janela nova: ampliam-se as que já existem. Isso tem uma implicação técnica direta para o mercado: empresas e projetos elegíveis não precisam adaptar suas propostas à lógica do ICO — precisam, como antes, atender às políticas do BNDES. A fonte muda; o acesso permanece o mesmo.

O que muda de fato é a escala das apostas. Em dois anos, o BNDES construiu três camadas sucessivas de financiamento verde com o mesmo parceiro europeu, sem interromper o fluxo de captação com outros blocos. O Brasil chega a novembro de 2026 — quando o ciclo de compromissos climáticos do Acordo de Paris exigirá novas NDCs nacionais — com uma arquitetura de captação verde mais robusta do que tinha na véspera da COP. Se os projetos que esse capital vai viabilizar serão à altura da arquitetura que os financia, é outra pergunta.

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