Dia Internacional da Biodiversidade 2026
Escrito por Neo Mondo | 22 de maio de 2026
Bioeconomia em disputa. Entre o potencial da biodiversidade e a pressão por escala, o desafio é crescer sem reproduzir os mesmos modelos que historicamente concentraram riqueza e degradaram os territórios de origem - Foto: Kevin Damasio
POR - REDAÇÃO NEO MONDO
Há uma assimetria que define o estágio atual da bioeconomia brasileira: os projetos que funcionam não escalam, e os modelos que escalam raramente operam com a mesma lógica dos projetos originais. Essa tensão não é um acidente de percurso. É a natureza do problema que a bioeconomia tenta resolver — a construção de cadeias produtivas em territórios onde o ativo mais valioso é exatamente o que os modelos convencionais de produção destroem.
O termo bioeconomia tem sido empregado com variações tão amplas que perdeu precisão operacional em muitos contextos. Para os fins desta análise, a bioeconomia relevante é a que envolve o uso sustentável da biodiversidade como base produtiva: cadeias do açaí, da castanha-do-pará, da copaíba, do cacau nativo, do babaçu, do pirarucu, de fibras vegetais — além de biofármacos, cosméticos de origem vegetal e insumos para a indústria alimentícia derivados de espécies nativas marinhas e terrestres. Uma definição que exclui deliberadamente o que costuma ser chamado de bioeconomia nos países da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) — biocombustíveis industriais de segunda geração, biomassa para energia, bioplásticos em escala —, porque o debate brasileiro relevante é outro.
O açaí é o caso de maior visibilidade e, por isso, o mais útil para dissecar. A cadeia produtiva do açaí movimentou, em 2023, mais de 7 bilhões de reais no Brasil, segundo dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) e da Secretaria de Estado de Desenvolvimento Econômico do Pará. O crescimento foi exponencial na última década, impulsionado pela demanda internacional — especialmente nos Estados Unidos, na Europa e no Japão. O que esse crescimento fez com o sistema produtivo original é uma pergunta a que as projeções otimistas raramente respondem: em alguns territórios, a pressão por produtividade está levando ao adensamento artificial das várzeas, à redução da diversidade de espécies associadas ao açaizeiro e à entrada de intermediários que concentram o valor e retiram autonomia das comunidades extrativistas que originalmente sustentavam a cadeia produtiva.
O problema não é o crescimento da demanda. É que o modelo de escala replica a lógica das commodities convencionais — homogeneização, dependência de insumos externos, concentração do poder de mercado — dentro de uma cadeia que só tem valor diferenciado quando opera de forma oposta a essa lógica.
O Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) tem desempenhado um papel crescente no financiamento da bioeconomia, especialmente por meio do Fundo Amazônia e de linhas dedicadas à sociobiodiversidade. Entre 2023 e 2024, o banco investiu volumes expressivos em projetos de restauração ecológica, manejo florestal e cadeias extrativistas — com metodologias de avaliação que vão além do retorno financeiro convencional e incorporam métricas de integridade ecossistêmica e de bem-estar comunitário. Essa mudança de critério é relevante: sinaliza que o maior banco de desenvolvimento da América Latina passou a operar com uma definição de risco que inclui o risco de natureza.
O mercado voluntário de créditos de biodiversidade — distinto do mercado de carbono — ainda é embrionário, mas avança rapidamente. O desenvolvimento de metodologias padronizadas para mensurar ganhos de biodiversidade, a discussão sobre a integridade desses créditos e a entrada de investidores institucionais nesse mercado são processos simultâneos, acelerados pelo Quadro Global de Biodiversidade de Kunming-Montreal e pela pressão decorrente da divulgação do Grupo de Trabalho sobre Divulgações Financeiras Relacionadas à Natureza (do inglês, Taskforce on Nature-related Financial Disclosures - TNFD).
O que separa um projeto piloto bem-sucedido de um modelo replicável em escala não é apenas o financiamento — é a governança territorial. A maior parte dos casos que funcionam tem em comum a presença de instituições locais com capacidade de gerir o processo produtivo sem subordiná-lo completamente à lógica do mercado externo. Cooperativas, associações extrativistas, instituições científicas presentes no território, mecanismos de rastreabilidade que garantem ao comprador internacional a procedência do produto: esses elementos não são detalhes operacionais. São a condição de possibilidade do modelo.
Sem eles, a bioeconomia não escala. Escala um agronegócio com branding diferente.
Este conteúdo integra o especial A Teia da Vida: Biodiversidade, Risco e o Futuro do Planeta, produzido pelo Neo Mondo para aprofundar o debate sobre a biodiversidade como um dos principais desafios ambientais, econômicos e civilizatórios do século XXI. Um especial Neo Mondo em parceria com a Seguros Unimed.

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