Dia Internacional da Biodiversidade 2026

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Dia internacional da
Biodiversidade 2026

O que a ciência sabe sobre o oceano e o Brasil ainda não decidiu fazer

Escrito por Neo Mondo | 22 de maio de 2026

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Ciência em ação. Para Alexander Turra, aproximar o conhecimento científico da sociedade é essencial para que a biodiversidade marinha deixe de ser invisível e passe a ocupar o centro das decisões que moldam o futuro do planeta - Foto: Divulgação

POR - OSCAR LOPES, PUBLISHER DO NEO MONDO

São Paulo fica a 80 quilômetros do mar. É a maior cidade do hemisfério sul, o centro financeiro e cultural do país, e está separada do oceano por menos distância do que muita gente percorre para trabalhar toda manhã. E ainda assim o oceano é, para a maioria dos paulistanos — e dos brasileiros —, um lugar de férias, não um sistema do qual dependem para respirar, comer e regular o clima que torna possível qualquer coisa que façam no resto do ano.

Essa distância não é geográfica. É cognitiva. E é, segundo Alexander Turra, o problema central que a conservação da biodiversidade marinha no Brasil ainda não resolveu.

Turra é professor titular do Instituto Oceanográfico da Universidade de São Paulo, coordenador da Cátedra UNESCO para a Sustentabilidade do Oceano — sediada no IO-USP e no Instituto de Estudos Avançados da USP — e curador deste especial. Biólogo com mestrado e doutorado em Ecologia pela Unicamp, agraciado com a medalha Mérito de Tamandaré da Marinha do Brasil, ele passou as últimas décadas construindo pontes entre o conhecimento científico sobre o oceano e os sistemas de decisão que determinam o que acontece com ele — governo, mercado, comunidades, cultura, arte.

É o tipo de cientista que organiza festivais oceânicos no Memorial da América Latina e em museus, que convida escolas de samba a criar enredos sobre o mar, que coordena redes que conectam 17 estados costeiros do Brasil, que esteve na COP30 em Belém como pesquisador e como articulador político — e que ao mesmo tempo produz ciência rigorosa sobre microplásticos, biodiversidade marinha e serviços ecossistêmicos publicada nas melhores revistas do campo. Não é contradição. É método.

Neste Dia Internacional da Biodiversidade, Alexander Turra fecha o especial que também abriu — com o editorial de abertura assinado por ele — e responde sobre o que está em jogo quando o Brasil olha para o oceano que banha sua costa e ainda não decidiu, de fato, o que quer fazer com ele.

Você assina o editorial de abertura deste especial e fecha com esta entrevista. Entre as duas peças, o que você quer que o leitor tenha aprendido — não sobre biodiversidade em geral, mas sobre a relação específica entre biodiversidade oceânica e os sistemas humanos que dependem dela?

O percurso entre o editorial de abertura e esta entrevista deveria revelar algo que raramente aparece de forma explícita no debate público: a biodiversidade não é um tema ambiental periférico — é a base material e imaterial de tudo que a sociedade brasileira é e aspira ser. Quando falamos de biodiversidade em seus diferentes níveis de organização, do molecular ao ecossistêmico, estamos falando de medicamentos, de bem-estar, de economia, de geopolítica. O Brasil não é lembrado no mundo apenas pelo futebol e pelo samba. É lembrado pela sua biodiversidade. Sem ela, o Brasil não tem futuro. E é por isso que o Brasil é o país da biodiversidade — dentro e fora das suas fronteiras.

Há, no entanto, um ponto cego nessa narrativa. Quando perguntamos às pessoas sobre biodiversidade, elas pensam em espécies, habitats e paisagens terrestres. Isso é fundamental — mas é incompleto. A maior parte da biodiversidade do planeta está debaixo d'água, num ambiente submerso que está fora do campo de percepção direta de quase toda a população. Ao final deste especial, eu quero que o leitor tenha internalizado essa visão ampliada — que compreenda de forma definitiva o que a biodiversidade representa para o país e como o Brasil, ao protagonizar essa agenda, pode ensinar o mundo. Não como retórica. Como trajetória concreta de um país que aprendeu a agir antes que fosse tarde.

A biodiversidade marinha é, por definição, invisível para a maioria das pessoas — está debaixo d'água, fora do campo de percepção direta. Isso cria um problema político: é difícil defender o que não se vê. Como a ciência pode enfrentar esse déficit de percepção?

A ciência marinha brasileira vem trabalhando para superar essa lacuna de forma sistemática. O Brasil é hoje um dos principais produtores mundiais de conhecimento sobre o oceano — sobre o funcionamento das massas d'água, sobre a biodiversidade que elas sustentam, sobre os processos que têm consequências diretas para a vida humana, como as florações de algas tóxicas decorrentes do excesso de nutrientes vindos de esgotos urbanos e fertilizantes agrícolas. Esse conhecimento existe. O problema é que existe numa linguagem que a maior parte das pessoas nunca acessou.

A biodiversidade marinha é também uma biodiversidade de exclusão. Boa parte da população brasileira nunca foi à praia, nunca viu o mar. Uma parcela ainda menor conseguiu olhar essa biodiversidade de perto — mergulhando, visitando aquários, tendo contato com o ambiente subaquático. Então a ciência tem um papel duplo: desvendar o que existe e fazer com que esse descobrimento chegue às pessoas.

É nesse espírito que a Cátedra UNESCO para a Sustentabilidade do Oceano estruturou o movimento Arte Oceano — uma iniciativa que congrega artistas e cientistas para produzir obras físicas e virtuais que compõem uma galeria de arte, cultura e ciência oceânica sediada na USP. Fotografia, videodocumentação, quadros, esculturas, histórias em quadrinhos — como a parceria com a Turma da Mônica voltada para o oceano —, o enredo da Escola de Samba X9 de Santos com o mote "o mar está em todo lugar". Cada um desses formatos é uma porta de entrada para quem nunca teria chegado ao oceano pela via científica. A ciência, a difusão do conhecimento e a arte têm que caminhar juntas. É isso que este especial também está tentando fazer.

Manguezais, recifes de coral, pradarias de algas marinhas — esses ecossistemas costeiros fornecem serviços essenciais e concentram biodiversidade extraordinária, mas seguem sendo destruídos em ritmo acelerado. Qual é o ecossistema que mais te preocupa no Brasil, e por quê?

O ambiente marinho e costeiro brasileiro é composto por habitats com características próprias — praias, manguezais, recifes de coral, bancos de rodólitos, recifes de profundidade, ilhas oceânicas — e cada um deles traz benefícios específicos para a sociedade que precisam ser protegidos de forma proporcional à sua importância.

As praias estão sumindo. Cerca de 40% das praias brasileiras estão em avançado estágio de erosão — o que significa o risco concreto de perder a base de toda uma economia costeira, do turismo ao bem-estar de populações litorâneas. Os manguezais, associados aos rios que chegam ao mar, são essenciais para a produção pesqueira — pois inúmeras espécies dependem deles nas fases iniciais do seu ciclo de vida — e para a proteção da costa contra eventos extremos. Os recifes de coral sustentam biodiversidade com enorme potencial farmacêutico, alimentício e cosmético, além de estruturar o turismo e a pesca em regiões inteiras.

Mas o ponto que mais me preocupa não é um ecossistema isolado — é a fragmentação da nossa estratégia de proteção. Quando a Convenção sobre Diversidade Biológica propõe que tenhamos pelo menos 30% de áreas marinhas protegidas até 2030, isso significa 30% de cada tipo de habitat: de manguezal, de praia, de recife de coral, de banco de rodólito. Habitats que, em muitos casos, ainda não temos mapeados com a precisão necessária para saber o que estamos protegendo. E há organismos que transitam entre habitats ao longo do seu ciclo de vida — dependendo do estuário para se reproduzir, dos recifes intermediários para crescer, das águas abertas para se dispersar. Proteger partes isoladas desse sistema não é suficiente. A conservação marinha no Brasil precisa dar um salto qualitativo: de uma estratégia de representatividade de habitats para uma estratégia de conectividade entre eles. O Brasil está produzindo a ciência necessária para isso. A janela de oportunidade está aberta — e não vai ficar aberta para sempre.

A poluição plástica nos oceanos é um tema que saiu dos laboratórios e entrou no debate público. Mas há outras ameaças à biodiversidade marinha — ruído oceânico, acidificação, pesca de arrasto — que permanecem fora do radar. O que a ciência sabe sobre essas ameaças que o público e os gestores ainda não sabem?

O mar vem sendo agredido de formas que a opinião pública ainda não internalizou em sua totalidade. Estamos falando de uma diversidade de ameaças que a ciência compreende cada vez melhor: lixo e metais pesados, medicamentos liberados na urina humana — como antidepressivos — que chegam aos rios e ao oceano, microplásticos em concentrações crescentes em toda a cadeia alimentar marinha, acidificação causada pela absorção de CO₂, ruído submarino que desestrutura a comunicação e a orientação de espécies que dependem do som para sobreviver.

A melhor analogia que encontrei para explicar isso é médica. Cada uma dessas ameaças é uma comorbidade — uma condição pré-existente que reduz a capacidade do oceano de lidar com novas pressões, da mesma forma que um organismo humano doente tem menos recursos para enfrentar uma infecção nova. Um oceano sem lixo, sem esgoto, sem metais pesados, sem derivados de óleo é um oceano mais saudável e mais capaz de realizar os processos que nos beneficiam: regulação do clima, segurança alimentar, proteção da linha de costa, produção do oxigênio que respiramos.

Temos usado o conceito de homeostase para nos referir a essa capacidade do oceano — e do planeta — de continuar funcionando e gerando benefícios para a vida. Quando acumulamos comorbidades, comprometemos essa homeostase. E o que está em jogo não são apenas os benefícios materiais — recursos, alimentos, proteção —, mas também os benefícios imateriais: o lazer, a espiritualidade, a inspiração, a relação com a arte e com a cultura que o oceano alimenta e que alimenta o movimento de protegê-lo. Cuidar do oceano é cuidar de nós mesmos. Se queremos que ele continue sendo o que é, precisamos eliminar as comorbidades antes que elas se tornem irreversíveis.

Você esteve na COP30 em Belém como pesquisador e como curador da Cátedra UNESCO. O oceano — que cobre 71% do planeta e regula o clima — ainda não tem um tratado equivalente ao Acordo de Paris. O Acordo Global sobre Oceanos está avançando na direção certa, ou é mais retórica do que substância?

A agenda global do oceano vem emergindo, se consolidando e se ampliando desde a década de 1960. Seu marco estrutural é a Lei do Mar, ratificada pelo Brasil na década de 1980, que estabeleceu a base jurídica para que os países delimitassem suas zonas de jurisdição nacional e exercessem soberania sobre os recursos e serviços gerados nesses territórios marinhos.

Em 2026, um novo tratado entrou em vigor: o Tratado do Alto-Mar — formalmente o Acordo sobre Biodiversidade Além das Jurisdições Nacionais (BBNJ) —, que complementa a Lei do Mar ao olhar para o que está além das fronteiras nacionais. Esse espaço — o maior ambiente do planeta, um bem comum da humanidade — ficou durante décadas sem um marco jurídico vinculante de conservação. O tratado demorou mais de vinte anos para ser maturado e aprovado. Ao ser ratificado, inclusive pelo Brasil, ele permite que a comunidade internacional gerencie esse território coletivamente, pautada pelos princípios construídos ao longo de décadas nas Nações Unidas: precaução, partilha de benefícios, diálogo com as realidades da pesca e da mineração do fundo do mar — atividades que seguem sendo profundamente preocupantes do ponto de vista dos seus impactos potenciais.

Esse tratado dialoga com outra iniciativa em curso: o acordo global para enfrentar a poluição ambiental por plásticos, que deve ser finalizado em 2027. Com ele, teremos instrumentos jurídicos objetivos para remover uma das principais fontes de degradação marinha. O Brasil já está à frente nesse movimento — aprovou sua Estratégia Nacional do Oceano em outubro de 2025 e o estado de São Paulo está finalizando sua estratégia estadual de combate ao lixo no mar, no âmbito da rede Oceano Olímpico coordenada pela Cátedra UNESCO. A agenda está avançando. Não na velocidade que a crise exigiria. Mas está avançando com substância real.

O Brasil tem uma Amazônia Azul — uma área oceânica equivalente à Amazônia terrestre em extensão. Essa expressão circula no discurso político, mas quanto dela está efetivamente protegida e monitorada? A Amazônia Azul é política pública ou é metáfora?

O termo Amazônia Azul foi cunhado pela Marinha do Brasil como estratégia para valorizar um ambiente pouco conhecido, de dimensão equivalente à da Amazônia terrestre, mas submerso e invisível para a maioria da população. Sua função inicial foi de convencimento — criar uma referência cognitiva que ajudasse a sociedade a compreender a importância estratégica desse espaço e a pressionar por políticas públicas à sua altura.

Hoje, a Amazônia Azul é mais do que metáfora — mas ainda não é política pública completa. O que está acontecendo é um processo de construção: o BNDES vem fomentando o planejamento espacial marinho nas quatro regiões costeiras do Brasil; o Ministério do Meio Ambiente apoia esse processo no Nordeste; a rede de instituições que trabalha nessa direção está crescendo. O planejamento espacial marinho é o instrumento que permite organizar as atividades humanas no oceano de forma conscienciosa, funcional e longeva — otimizando o uso sem comprometer as atividades de subsistência e os direitos dos povos e comunidades tradicionais.

Mas o oceano não começa na praia. O que acontece nas bacias hidrográficas — o esgoto das cidades, os fertilizantes da agricultura, o sedimento represado por barragens que deixa de engordar as praias — chega ao mar. Políticas de gerenciamento costeiro, planos diretores municipais, estratégias de ocupação urbana: tudo isso impacta diretamente o que acontece na Amazônia Azul. A pergunta não é se ela é metáfora ou política pública. É quando a política pública vai ser capaz de tratar o oceano com a seriedade que o nome já reconhece.

Você coordena iniciativas que conectam ciência, política e cultura — a SP Ocean Week, a Rio Ocean Week, a Cátedra UNESCO. Esse modelo de engajamento público é eficaz para mudar percepções e comportamentos, ou é pregação para convertidos?

O objetivo do movimento não é pregar para convertidos — é usar os convertidos como vetor de uma pregação mais ampla. E os números indicam que isso está funcionando. As iniciativas da Cátedra UNESCO — a SP Ocean Week, a Rio Ocean Week, a Galeria de Arte, Cultura e Ciência Oceânica, o diálogo com o carnaval, a parceria com a Turma da Mônica — têm construído uma audiência superlativa, presencialmente e nas redes sociais. O Movimento Pororoca 2026 — a Virada da Maré — tem como meta envolver pelo menos 500 mil pessoas pelo oceano na semana que antecede a SP Ocean Week. Não como evento. Como movimento.

O que estamos tentando construir é o que a década das Nações Unidas da Ciência Oceânica para o Desenvolvimento Sustentável — coordenada pela UNESCO pela Comissão Oceanográfica Intergovernamental — chama de ciência oceânica em sentido amplo: não apenas o conhecimento que precisa ser gerado, mas o conhecimento que precisa ser compartilhado. A Cátedra articula governo, iniciativa privada, terceiro setor, comunidades tradicionais e populações vulneráveis em espaços de diálogo horizontal, transparente, republicano. Inclusive com as religiões — a rede ecumênica da água trata a água de forma integradora, conectando oceano, rios, lençóis freáticos e atmosfera numa visão sistêmica que a ciência também reconhece.

O objetivo final é que cada pessoa que passa por essas iniciativas compreenda o que o oceano representa para ela — direta e indiretamente — e o que as suas atitudes individuais e coletivas têm como consequência para a saúde desse sistema. Não pode ficar ninguém de fora. É isso que estamos tentando fazer.

Pesquisadores que se engajam publicamente em temas politicamente sensíveis — como biodiversidade, clima, povos indígenas — frequentemente enfrentam pressão e questionamentos sobre sua independência científica. Como você navega essa tensão entre rigor científico e engajamento público?

O ponto de partida é intransigível: como cientista, você não pode ceder à desonestidade intelectual. Você trabalha sobre evidências, pondera as informações disponíveis e é rigoroso sobre o que pode afirmar e o que não pode — porque o conhecimento disponível ainda não permite. Esse é o comportamento básico do cientista, e ele não muda quando o cientista sai do laboratório e entra no debate público.

O que muda é a linguagem. Quando você dialoga com a iniciativa privada, há elementos que fazem mais sentido para esse interlocutor do que para um gestor público ou para estudantes do ensino fundamental. Trabalhar esse conhecimento em formatos específicos, com materiais específicos para diferentes públicos, não é aliviamento do rigor científico — é o rigor científico sendo exercido em linguagens diferentes. A ciência produzida continua a mesma. O que se ajusta é a forma de torná-la acessível e mobilizadora.

Na Cátedra UNESCO, temos tido a oportunidade de dialogar com todos os setores de forma horizontal e transparente — entendendo os interesses em jogo, os conflitos e as potencialidades de cada diálogo entre múltiplos atores. Lidar com interesses eventualmente conflitantes é inerente ao processo. É natural que seja lento. Mas é um processo que deve ser pautado pelo diálogo e pelo avanço do conhecimento científico — incluindo o conhecimento que se constrói coletivamente. A década do oceano tem fortalecido exatamente isso: a co-construção de políticas públicas em espaços de diálogo bem estruturados, respeitosos, que amadurecem ao longo do tempo. Rigor científico e engajamento público não são opostos. São condições um do outro.

Ao longo da sua trajetória como pesquisador, houve um momento — uma descoberta, um dado, uma expedição — que mudou fundamentalmente sua compreensão sobre a crise de biodiversidade? Que momento foi esse?

Algumas imagens foram determinantes para mudar a escala da minha percepção sobre o que está em jogo. Uma delas aconteceu em Belém, ao lado do Mercado Ver-o-Peso, durante uma maré baixa. Vi as embarcações acomodadas na margem do rio, rodeadas de lixo, de urubus, de uma mistura de elementos que criavam uma realidade difícil de assimilar. Uma imagem que se somou a outras — o vazamento de óleo que atingiu mais de 3 mil quilômetros do litoral nordestino, o rompimento da barragem do Fundão em Mariana, que contaminou o Rio Doce até a foz e chegou a influenciar o Arquipélago dos Abrolhos. Eventos recentes, concretos, mostrando que a forma como conduzimos nossas atividades humanas cobra um preço real na biodiversidade e nos sistemas que sustentam a vida.

Mas a imagem que fica, e que orienta o trabalho que faço hoje, não é a do problema. É a da capacidade de transformação. O Brasil está vivendo um momento de explosão da chamada economia azul — novas atividades e serviços dependentes de conectividade, de dados, de tecnologia, que geram uma nova economia do oceano sem depender necessariamente da extração de recursos. Startups, universidades, empresas que buscam dar escala a soluções: o Brasil tem, com toda a sua criatividade e malemolência, a capacidade de compreender os problemas e encontrar caminhos para superá-los. A situação está ruim. Mas é possível mudar — e há cada vez mais pessoas, dentro e fora da ciência, militando nessa frente de mostrar que a transformação é possível. É isso que tenho visto. E é isso que me mantém no trabalho.

Este especial termina com uma matéria de Oscar Lopes intitulada 'A natureza não negocia'. Para você, o que essa frase significa como cientista — e o que ela deveria significar para quem lê este especial e toma decisões que afetam ecossistemas?

A natureza não tem consciência sobre nós. Ela não está preocupada com a nossa existência. Ela simplesmente é — com seus ritmos, seus direitos, seus caminhos. E quando está degradada, ela para de realizar os processos que sustentam a nossa vida. Não como punição. Como consequência.

A gente tem, historicamente, uma relação clientelista com a natureza — dependemos dela para recursos, para serviços, para espiritualidade, para inspiração, e agimos como se ela tivesse a obrigação de continuar fornecendo tudo isso independentemente do que fazemos com ela. A natureza não negocia porque não há nada a negociar: se não cuidamos dela, ela fica doente. Se ela fica doente, nós ficamos doentes. O oceano está doente. A natureza está doente. E ela está doente porque a sociedade está doente — porque ainda não aprendemos a construir uma relação com os sistemas naturais que não seja de extração sem reciprocidade.

O que a ciência, a educação e um especial como este tentam fazer é romper esse ciclo vicioso e construir um ciclo virtuoso — mostrar para o presente e para as futuras gerações que é possível construir algo melhor. Algo pautado pela serenidade, pela sensibilidade, pela evidência. Espaços harmoniosos de relação entre a sociedade e a natureza, que permitam um futuro mais sustentável, mais próspero e mais justo. A natureza não negocia. Mas nós ainda temos tempo de aprender a não precisar que ela negocie — porque teremos aprendido a cuidar dela antes que a conta chegue.

Alexander Turra assina a abertura e o fechamento deste especial. Não é uma decisão editorial acidental. É uma escolha que diz algo sobre o que o Neo Mondo entende por curadoria: não uma voz que introduz e desaparece, mas uma inteligência que percorre o especial do início ao fim, que assume a responsabilidade do que convoca e do que conclui.

O que ele conclui, nesta última página, é menos otimista do que os discursos de conferência e mais honesto do que os relatórios de progresso permitem ser. O oceano está doente. As praias estão sumindo. Os recifes estão branqueando. Os manguezais estão sendo substituídos por urbanização e carcinicultura. A Amazônia Azul tem nome, mas ainda não tem a proteção que o nome promete. E o Brasil — que poderia ser o país que mais tem a ganhar com a conservação da biodiversidade marinha, e que tem a ciência, a criatividade e a posição geopolítica para liderar essa agenda — ainda não tomou, de forma estrutural e irreversível, as decisões que tornaria essa liderança real.

Mas o que Alexander Turra recusa, com a mesma firmeza com que recusa a negligência, é o pessimismo paralisante. O Brasil está produzindo conhecimento de ponta sobre o oceano. Está construindo planejamento espacial marinho em suas quatro regiões costeiras. Está conectando 17 estados costeiros numa rede de governança. Está levando 500 mil pessoas ao oceano numa única semana. Está formando gerações de cientistas que entendem que rigor e engajamento não são opostos — são condições um do outro.

A natureza não negocia. Mas a sociedade ainda pode aprender. E há, neste país continental e megadiverso, uma quantidade extraordinária de pessoas aprendendo, ao mesmo tempo, que a biodiversidade não é o passado que precisa ser preservado — é o futuro que ainda pode ser construído.

Este especial foi uma tentativa de mostrar que esse aprendizado está acontecendo. O resto depende de quem o lê.

Este conteúdo integra o especial A Teia da Vida: Biodiversidade, Risco e o Futuro do Planeta, produzido pelo Neo Mondo para aprofundar o debate sobre a biodiversidade como um dos principais desafios ambientais, econômicos e civilizatórios do século XXI. Um especial Neo Mondo em parceria com a Seguros Unimed.

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