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“Amizade”: a palavra que Eduardo Ribeiro escolheu para definir 50 anos de jornalismo

Escrito por Neo Mondo | 1 de junho de 2026

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Amizade e palavra. Eduardo Ribeiro durante palestra: meio século construindo pontes onde outros construíam muros - Foto: Divulgação

POR - OSCAR LOPES, PUBLISHER DO NEO MONDO

Ao mestre com carinho

Quando perguntaram a Eduardo Ribeiro qual palavra o define, ele respondeu sem hesitar: amizade. Não jornalismo, não comunicação, não empreendedorismo — embora toda a sua trajetória seja a prova viva de que esses três universos podem coexistir numa mesma vida sem que nenhum deles perca a substância. Amizade. A escolha diz mais sobre ele do que qualquer currículo.

Cinquenta anos atrás, em 1º de junho de 1976, Eduardo Cesário Ribeiro entrava formalmente numa profissão que ele já havia aprendido a amar pelos bastidores — primeiro como office boy da Editora Abril, aos 14 anos, filho de uma família da Barra Funda que ensinava os filhos a trabalhar antes de ensiná-los a sonhar. Não havia ali nenhum plano grandioso. Havia um jovem da Zona Oeste de São Paulo que descobrira, naquelas redações exuberantes e caóticas dos anos de chumbo, que o jornalismo era o lugar onde as histórias do mundo encontravam quem as levasse a sério. Ele nunca mais saiu.

O que veio depois é uma das trajetórias mais singulares do jornalismo brasileiro do último meio século — singular não pelo que tem de extraordinário nos termos convencionais da profissão, mas pelo que tem de raro: Eduardo escolheu, conscientemente ou não, fazer do jornalismo brasileiro o seu próprio tema. Enquanto a maioria dos seus contemporâneos cobria política, economia, esporte ou cultura, ele foi se especializando numa pauta que a categoria tendia a tratar como menor — os próprios jornalistas. Suas histórias, suas disputas, seus talentos, sua memória. A profissão como objeto de atenção, não apenas como veículo de atenção.

Essa inversão de perspectiva é a chave para entender o que ele construiu. O Jornalistas&Cia nasceu em 1995, numa época em que a internet ainda engatinhava no Brasil e a ideia de uma publicação especializada no ecossistema da comunicação parecia aposta arriscada num mercado que mal sabia nomear a si mesmo. Três décadas depois, a publicação que ele fundou na rua Diana, no mesmo bairro onde nasceu, é referência incontornável para quem trabalha com comunicação no país. Eduardo brinca que, se fosse um legume, seria uma mandioca — de raízes, ligado à família e ao território desde sempre. A imagem é mais precisa do que parece: a mandioca sustenta sem aparecer, cresce firme na terra que conhece, e só revela sua riqueza quando você escava o suficiente.

O Portal dos Jornalistas veio ampliar esse projeto de escuta da profissão. E os rankings dos +Admirados — iniciativa que em 2025 mapeou 214 prêmios de jornalismo, reconheceu mais de 11 mil profissionais e 1.300 veículos — nasceram de uma inquietação que só alguém com olho clínico para o funcionamento real do mercado poderia ter: Eduardo percebia que os eventos de comunicação reuniam jornalistas e executivos de imprensa no mesmo espaço físico, mas em mundos paralelos. Os assessores chegavam, faziam uma participação pontual, iam embora. O networking não acontecia. "Como eu coloco essas figuras todas juntas sem que pareça que estou jogando os executivos aos leões?", perguntava ele a si mesmo. A resposta foi o prêmio. Criar um ambiente onde reconhecer o talento alheio fosse o próprio evento — não o pretexto para outro. Na primeira edição, em 2014, Ricardo Boechat levou o troféu de mais admirado jornalista do Brasil. A festa que se seguiu foi comparada ao antigo Baile da Imprensa: uma profissão que raramente se permite celebrar encontrando, por uma noite, a alegria de enxergar o que tem de melhor em si mesma.

É a partir dessa mesma lógica que o Neo Mondo construiu com Eduardo Ribeiro a parceria no prêmio +Admirados Jornalistas Negros e Negras da Imprensa Brasileira. Para mim, essa colaboração tem um significado que vai além do institucional. Um jornalismo que não se vê inteiro não pode ver o mundo inteiro — e o prêmio nasceu exatamente da compreensão de que celebrar a excelência dos jornalistas negros e negras não é ação reparatória no sentido estreito do termo, mas expansão da capacidade da profissão de reconhecer o seu próprio alcance. Eduardo entendeu isso sem precisar de convencimento. É a marca de quem passou cinco décadas olhando para os outros com o mesmo rigor com que outros olham para os fatos.

Há uma linha que percorre toda a sua trajetória e que o pingue-pongue da edição especial do Jornalistas&Cia revela de forma involuntária: quando perguntado sobre como gostaria de ser lembrado, Eduardo respondeu "como alguém que contribuiu com a profissão que abraçou." Não como fundador de veículos, não como criador de prêmios, não como empreendedor da comunicação — embora seja tudo isso com competência rara. Como alguém que contribuiu. A escolha do verbo é tudo: contribuir pressupõe que existe algo maior do que você, algo que precede e que continuará além de você, e que a função mais nobre é deixá-lo mais forte do que encontrou.

Cinquenta anos de jornalismo são, antes de tudo, cinquenta anos de uma aposta: a de que a profissão tem valor suficiente para merecer quem a observe, a registre e a proteja com a mesma seriedade com que ela mesma observa, registra e protege o mundo. Eduardo Ribeiro fez dessa aposta a sua obra. E a obra pertence a todos nós que escolhemos o jornalismo como forma de estar no mundo — porque sem pessoas como ele, a profissão saberia menos sobre si mesma, e portanto seria menos capaz de ser o que precisa ser.

Obrigado, Eduardo. Os cinquenta anos são seus. A memória que construiu é nossa.

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