Destaques Economia e Negócios Emergência Climática ENERGIA FINANÇAS Meio Ambiente Sustentabilidade Tecnologia e Inovação
Escrito por Neo Mondo | 12 de maio de 2026
Guerra e watts: técnico monitora painel fotovoltaico em parque híbrido solar-eólico — o tipo de infraestrutura que investidores globais passaram a priorizar após o segundo grande choque energético provocado pelo conflito no Oriente Médio - Imagem gerada por IA - Foto: Ilustrativa/Neo Mondo
POR - OSCAR LOPES, PUBLISHER DO NEO MONDO
Em abril de 2026, ETFs vinculados a energia renovável registraram a maior entrada líquida mensal de capital desde janeiro de 2021 — mais de três bilhões de dólares em um único mês, segundo dados da Morningstar compilados pela Zero Carbon Analytics. O número não é apenas um sinal de mercado. É o reflexo de uma mudança estrutural na forma como o capital global lê o risco energético depois de dois choques consecutivos em menos de cinco anos.
Leia também: O preço de uma guerra que o Brasil não escolheu
Leia também: A guerra que o petróleo comprou — e a transição que ninguém ousou liderar
A invasão do Irã pelos Estados Unidos e Israel, em 28 de fevereiro de 2026, desencadeou o segundo grande choque nos mercados de petróleo e gás desde a guerra na Ucrânia. O Estreito de Ormuz, por onde circulam aproximadamente 20% do fluxo mundial de petróleo e gás, tornou-se uma variável de risco permanente — não mais um gargalo logístico, mas uma ferida aberta na arquitetura energética global. A Agência Internacional de Energia, o Fundo Monetário Internacional e o Banco Mundial, em declaração conjunta, classificaram o conflito como gerador de "uma das maiores escassezes de oferta da história dos mercados globais de energia."
Dois novos estudos divulgados nesta terça-feira, 12 de maio, documentam o que esse choque produziu do lado do investidor. O primeiro, um briefing da Zero Carbon Analytics, mostra que ETFs de energia limpa constituídos nos Estados Unidos estão superando ETFs tradicionais de energia no início de maio, influenciados pelas perturbações nos mercados globais desde o início da guerra no Irã. O segundo, elaborado a partir de pesquisa global com investidores conduzida pela Climate Opinion Research Exchange (CORE), revela que a proporção de investidores que classificam as renováveis como o setor de maior retorno em um horizonte de doze meses saltou de 9%, em março de 2025, para 14% em março de 2026 — a maior alta entre todas as categorias de energia acompanhadas pela pesquisa.
O comportamento dos mercados financeiros ao longo desse período não foi linear. Embora preços mais altos do petróleo tenham beneficiado inicialmente as empresas do setor, a perturbação prolongada no Estreito de Ormuz gerou incerteza geopolítica acentuada, temor de recessão e preocupações com destruição de demanda pelos preços elevados — fatores que, em conjunto, limitaram os ganhos nos ativos de combustíveis fósseis. O mercado começou a precificar não apenas o valor presente do barril, mas a vulnerabilidade estrutural de uma cadeia de abastecimento dependente de um corredor marítimo em zona de conflito ativo.
O Invesco WilderHill Clean Energy ETF subiu 118% em um único mês a partir do fechamento do Estreito; o iShares Global Clean Energy e o Invesco Solar ETF acumularam altas de 54% e 75% no comparativo anual, respectivamente. Esses movimentos não escaparam à atenção dos analistas mais cautelosos. A BloombergNEF advertiu, em relatório sobre o mercado de armazenamento de baterias, que empresas "podem adiar a migração para alternativas de baixo carbono... a menos que antecipem uma mudança estrutural no afastamento da dependência de combustíveis fósseis." Tatiana Mitrova, pesquisadora do Centro de Política Energética Global da Universidade de Columbia, foi direta: "ainda é cedo demais para dizer que a guerra no Irã está acelerando claramente toda a transição."
A cautela de Mitrova não invalida o que os dados de política pública revelam. Segundo a Zero Carbon Analytics, até 1º de maio, 23 países em cinco continentes fizeram anúncios relacionados à energia limpa e à eletrificação, citando preocupações com segurança energética desencadeadas pela segunda grande crise de petróleo e gás em cinco anos. O Reino Unido introduziu, em março, normas que obrigam todas as novas residências da Inglaterra a ser equipadas com bombas de calor e painéis solares. O presidente da Indonésia, Prabowo Subianto, anunciou o compromisso de instalar 100 GW de energia solar em três anos. As Filipinas anteciparam 1,47 GW de energia renovável e armazenamento para até o final de abril. O Brasil integra esse mapa de anúncios — em um momento em que sua matriz elétrica, com cerca de 88% de geração proveniente de fontes renováveis, já representa uma vantagem comparativa reconhecida internacionalmente.
Há uma dimensão mais longa nessa reconfiguração que os mercados de curto prazo tendem a subestimar. A pesquisa da CORE mostra que 82% dos investidores pretendem aumentar alocações em renováveis nos próximos três anos — apetite que persiste mesmo em meio a debates sobre a necessidade de diversificar a produção convencional de petróleo e gás. O número ecoa o que a Agência Internacional de Energia já havia apontado antes do conflito: os investimentos globais em energia limpa somaram estimados US$ 2,2 trilhões em 2025, montante mais de 80% superior aos investimentos em energia fóssil — proporção radicalmente distinta da registrada uma década atrás, quando os fósseis lideravam com US$ 1,5 trilhão ante US$ 1,1 trilhão em fontes limpas.
A leitura das preferências de governos de países em desenvolvimento sobre como os bancos multilaterais de desenvolvimento deveriam alocar seus recursos reforça esse pano de fundo. Uma pesquisa da ODI Global com quase 900 autoridades governamentais e funcionários de MDBs em 125 países revelou que, ao serem questionados sobre em qual tipo de energia prefeririam investir, 79% citaram energia solar fotovoltaica, 54% usinas hidrelétricas e 47% energia eólica. Apenas 3% indicaram carvão e petróleo, e 13% usinas a gás. A hierarquia é reveladora: não se trata de uma posição climática abstrata, mas da preferência operacional de gestores públicos que calculam riscos de longo prazo.
O que os dois estudos divulgados hoje sugerem, em conjunto, é que a guerra no Irã não criou uma tendência nova — ela acelerou e tornou legível uma mudança que já vinha se acumulando nos fundamentos. O atual choque nos preços do petróleo e do gás pode oferecer um prêmio de segurança energética para renováveis e combustíveis alternativos, sobretudo para investidores de longo prazo capazes de diversificar carteiras apostando em fontes domésticas e limpas. O risco geopolítico, que por décadas serviu de argumento para manter reservas fósseis, inverteu sua lógica: agora é exatamente ele que torna a descarbonização mais atrativa do que antes.
A questão que permanece aberta não é se essa mudança de percepção é real — os dados a confirmam. É saber se ela é duradoura o suficiente para superar os ciclos de memória curta que, historicamente, se dissipam quando o preço do barril volta a cair. A crise de 1973 produziu décadas de investimento em eficiência energética e pesquisa em renováveis. A crise de 2022, desencadeada pela invasão da Ucrânia, acelerou a expansão solar e eólica na Europa. Se o padrão se repetir, o conflito no Oriente Médio de 2026 pode ter inaugurado, inadvertidamente, o maior ciclo de financiamento de energia limpa da história. Essa conclusão, por ora, pertence ao futuro — não ao briefing de hoje.
Kunhã Arã: da semente ao chocolate
Além da COP: em Santa Marta, países constroem a arquitetura política do fim dos combustíveis fósseis