Ciência e Tecnologia CLIMA Destaques Emergência Climática Meio Ambiente Sustentabilidade
Escrito por Neo Mondo | 31 de agosto de 2026
Terra rachada sob o sol: o solo que aquece quase o dobro mais rápido do que há quatro décadas, segundo o estudo que dividiu os climatologistas - Foto: Ilustrativa/Freepik
POR - OSCAR LOPES, PUBLISHER DO NEO MONDO
Durante quase quatro décadas, o aquecimento global manteve um ritmo teimosamente estável, algo em torno de 0,18 °C por década. Um estudo de Grant Foster e Stefan Rahmstorf, do Instituto de Pesquisa do Impacto Climático de Potsdam, publicado em agosto na Geophysical Research Letters, afirma que esse patamar ficou para trás. Segundo os autores, filtrados os fatores naturais que embaçam a leitura, a Terra passou a aquecer cerca de 0,35 °C por década na última década, quase o dobro, com mais de 98% de certeza estatística. É um número que soa como sentença, e é também o número que dividiu a comunidade climática.
Leia também: O Atlântico está parando. O mundo está olhando para outro lado
Leia também: 20,96 °C: o oceano quebra o recorde de julho às vésperas do El Niño mais forte já projetado
O método é o coração da disputa. Foster e Rahmstorf não olharam a temperatura bruta. Removeram das séries as três principais fontes de ruído de curto prazo, o El Niño, as erupções vulcânicas e a variação solar, para deixar visível apenas o sinal de aquecimento de fundo, aquele que se atribui à ação humana. Testaram esse sinal ajustado em cinco bases independentes, produzidas por organizações diferentes: NASA, NOAA, HadCRUT, Berkeley Earth e ERA5. A aceleração apareceu em todas, começando a ficar visível por volta de 2013 e 2015, e sobreviveu ao teste mesmo depois de os autores descontarem o calor extra de 2023 e 2024, anos que permaneceram os mais quentes da série mesmo após o ajuste.
Aqui entra a controvérsia que a manchete costuma esconder. Nos dados brutos, sem o filtro, não há aceleração estatisticamente significativa, os próprios autores reconhecem que o teste não alcança 95% de confiança nesse caso. A aceleração só cruza o limiar da significância depois que os fatores naturais são removidos. Para uma parte da comunidade, isso torna o título do estudo, "O aquecimento global acelerou significativamente", enganoso. Michael Mann, da Universidade da Pensilvânia, argumenta que o calor recente é largamente influenciado pelo El Niño de 2023 e 2024 e é compatível com as simulações climáticas usuais, sem exigir uma aceleração da tendência de fundo. Um estudo anterior de Claudia Beaulieu já havia concluído que, tratando corretamente a variabilidade de curto prazo, nenhum surto de aquecimento pode ser detectado com segurança depois de 1970.
A divergência, porém, é mais estreita do que parece. Zeke Hausfather, do Breakthrough Institute e um dos críticos do método, concorda com a conclusão de fundo, que o aquecimento da última década acelerou, e diverge sobretudo na magnitude, dentro de uma faixa de cerca de 15%. Praticamente ninguém na literatura ainda sustenta o antigo patamar de pouco menos de 0,2 °C por década. As estimativas atuais variam, 0,24, 0,27, 0,30, e o próprio Foster, que assina o estudo, considera 0,33 °C por década sua melhor aposta, abaixo dos 0,4 que aparecem numa das tabelas do artigo e que alguns divulgadores usaram para projeções mais aceleradas. A discussão real, portanto, não é se o planeta aquece mais rápido, mas quanto mais rápido, e com que grau de certeza é possível afirmá-lo.
Um ponto foi distorcido na cobertura inicial e o próprio autor fez questão de corrigir. A imprensa noticiou que o estudo previa o rompimento de 1,5 °C até 2030. Foster foi direto ao esclarecer que não se trata de previsão, e sim de condicional: se o ritmo da última década continuar, o limite do Acordo de Paris será ultrapassado de forma duradoura antes de 2030. Se isso vai acontecer depende de duas coisas que o estudo não resolve, a causa da aceleração recente, que os autores deliberadamente não tentam identificar, e a velocidade com que o mundo cortar as emissões de CO2. Mesmo nas estimativas mais baixas, alerta Foster, a marca de 2 °C seria alcançada por volta de 2050.
Para quem lê risco, a lição não está na casa decimal em disputa, mas no que a disputa não contesta. Os cientistas discordam sobre se o ritmo é 0,25, 0,33 ou 0,35 °C por década, e sobre se dez anos bastam para cravar estatisticamente uma mudança de tendência. Nenhum deles defende que o aquecimento desacelerou ou se manteve estável. O intervalo entre o presente e 2030 é curto em qualquer dos números, e a diferença entre eles decide apenas se a meta de Paris será perdida um pouco antes ou um pouco depois, não se será perdida no ritmo atual. É um caso raro em que a controvérsia científica, examinada de perto, aperta o cerco em vez de afrouxá-lo.
O açúcar que você não vê enrijece o colágeno da sua pele
Sala de aula: interesse, respeito e autoridade
A máquina que mede tudo perdeu a hora de parar