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Escrito por Neo Mondo | 31 de agosto de 2026
Máquina de capturar atenção, a plataforma transforma o tempo da adolescência em valor - Imagem gerada por IA - Ilustrativa/Neo Mondo
Por - Murilo Karasinski*, especial para Neo Mondo
As plataformas digitais aprenderam a medir o tempo com precisão quase clínica. Registram o segundo em que o polegar hesita sobre a tela, a imagem que retém o olhar e a hora em que a solidão se converte em promessa de retorno. Nessa aritmética faltava uma palavra humana que interrompesse a conta.
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Em 26 de agosto, a Meta firmou com procuradores-gerais norte-americanos um acordo que pode chegar a 17,1 bilhões de dólares e ainda depende de aprovação judicial. O processo acusava a empresa de desenhar o Facebook e o Instagram para prolongar o uso entre adolescentes e de expô-los a conteúdos associados a automutilação, transtornos alimentares e sofrimento psíquico. A Meta não reconheceu culpa. As mudanças previstas, porém, alcançam o núcleo do funcionamento das duas plataformas.
Se o acordo for homologado, contas de adolescentes passarão a ter limites de uso, pausas que interrompem a rolagem contínua e períodos sem notificações durante as aulas e a madrugada. Recursos de comparação social perderão parte da força. A empresa também revisará os mecanismos de aferição de idade e os controles familiares.
A adolescência é uma oficina na qual a identidade ensaia o próprio nome, descobre o peso do olhar alheio e aprende a abrir distância entre um desejo e uma decisão. Quando uma plataforma conhece as hesitações de um jovem com precisão maior do que a dele sobre si mesmo, surge uma assimetria moral que a linguagem do consentimento não resolve. A vulnerabilidade pertence ao processo de formação. Protegê-la significa proteger o tempo de que a autonomia precisa para adquirir espessura.
O ponto inquietante do acordo está na forma escolhida para tornar o dano governável. Um juiz pode ordenar minutos de uso e suspender notificações. Um auditor conta pausas e confere curtidas. Como medida de exposição, porém, o tempo de tela nada diz sobre o que aconteceu naquelas horas, sobre o que o jovem viu e sobre a função que a plataforma cumpria em sua vida. A evidência de uso ocupa o lugar da evidência de efeito, porque o que é auditável ganha prioridade na definição do dano.
A mesma empresa cujo modelo econômico converte permanência em valor passa a participar da definição do limiar considerado saudável. Cerca de 30% do pagamento previsto depende de que TikTok e YouTube adotem medidas equivalentes e assumam pagamentos próprios. A negociação judicial vira, assim, instrumento para fixar o padrão do setor.
No Brasil, o ECA Digital exige que as plataformas previnam o uso compulsivo e adotem formas confiáveis de aferição de idade. A autonomia que essa proteção pretende resguardar não cabe inteira em limites de tela. O discurso do minimalismo digital imagina um indivíduo capaz de fechar a porta e seguir vivendo do lado de fora. Essa figura ficou difícil de encontrar depois que o WhatsApp passou a organizar avisos da escola, turnos de trabalho, cuidados familiares e acesso a serviços.
O custo de sair oferece uma medida ética da liberdade e expõe uma pergunta que o relógio não alcança. Quem tem condições de sustentar uma vida offline sem que a ausência digital seja lida como indiferença, como sinal de que há algo a esconder ou como recusa do convívio? Sem essa garantia, o botão de desligar permanece uma porta pintada na parede, desenhada para absolver a arquitetura e inútil para quem procura a rua.
*Murilo Karasinski - Professor Permanente do Programa de Pós-Graduação em Bioética da PUCPR. Pós-Doutor em Bióetica, Doutor em Filosofia e Bacharel em Direito pela PUCPR. Membro da Sociedade Brasileira de Bioética. Membro do Observatório de Inteligência Artificial no Ensino Superior da PUCPR. Pesquisador de temas relacionados à Inteligência Artificial, Neuroética, Bioética e Transumanismo.
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