Escrito por Dra. Flavia Addor | 14 de outubro de 2026
Aquecimento global e calor urbano somam forças contra a pele, que acumula manchas, rugas e ressecamento sob o sol e a poluição das grandes cidades - Imagem gerada por IA - Ilustrativa/Neo Mondo
POR - FLAVIA ADDOR*
O mundo está mudando, e os cuidados com a pele também. Algumas reflexões da minha conferência no I Summit de Inovação ABIHPEC, realizado na ESPM, em São Paulo, em outubro de 2026
O envelhecimento da pele é um dos maiores campos de estudo da dermatologia. Além das implicações estéticas óbvias, algumas doenças cutâneas se tornam mais frequentes com a idade, como os tumores benignos e malignos, incluindo o melanoma. A velocidade desse envelhecimento e as doenças que podem acompanhá-lo, porém, dependem em grande parte de fatores ambientais e do estilo de vida.
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Por décadas, a dermatologia elegeu o sol como o grande vilão do envelhecimento precoce. Campanhas públicas e médicos orientam há muito tempo a proteção contra a radiação solar. A ciência recente, no entanto, faz um novo alerta. O aquecimento global deixou de ser apenas uma crise ambiental ou uma preocupação restrita a ambientalistas. Seus efeitos estão no nosso dia a dia e se tornaram um fator direto de degradação da saúde e da aparência da pele.
Com a idade, a pele perde capacidade regenerativa. A grande virada da ciência moderna foi entender que a velocidade desse relógio biológico não está escrita apenas no nosso DNA. Ela é moldada, em grande parte, pelas nossas escolhas, pelo estilo de vida e pelas agressões do ambiente ao nosso redor.
Essa mudança de olhar ganhou força em 2017, quando a dermatologia passou a adotar um termo que transformou a forma como os médicos avaliam o envelhecimento da pele: o expossoma (do inglês exposome). O conceito reúne todos os fatores ambientais e de estilo de vida aos quais uma pessoa é exposta do nascimento à morte, da alimentação e do nível de estresse ao ar que respiramos e ao clima da cidade onde moramos. Com ele, a medicina passa a enxergar o envelhecimento de forma mais integrada, considerando como as interações do mundo moderno modulam e aceleram as alterações estruturais da pele.
Entre os fatores do expossoma, três agentes ambientais se destacam como os mais nocivos para a pele: a radiação solar, a poluição atmosférica e as temperaturas elevadas. Estudos recentes mostram que eles atuam de forma sinérgica, em um círculo vicioso. O aumento da temperatura global é consequência direta da maior concentração de dióxido de carbono e de outros gases de efeito estufa na atmosfera. Nas últimas décadas, as ondas de calor extremo, episódios de temperaturas muito altas, prolongadas e recorrentes, deixaram de ser anomalias raras e viraram o nosso novo normal. Em 2024, a temperatura média do planeta ficou 1,29 °C acima da média do século XX, o valor mais alto desde o início dos registros, em 1850.
Para a pele, esse quadro é hostil em várias frentes. A degradação da camada de ozônio permitiu que níveis maiores de radiação ultravioleta, sobretudo do tipo B (UVB), chegassem à superfície terrestre e à nossa pele. No Brasil, o câncer de pele não melanoma já é o tumor mais frequente, com 263 mil casos por ano estimados pelo INCA para o triênio 2026-2028.
Quando a exposição ao calor é prolongada, o estresse térmico prejudica a função de barreira da pele. Imagine a pele como um muro protetor: o calor excessivo compromete a integridade desse muro, a barreira cutânea. O calor também altera a população de microrganismos que vivem na superfície do corpo, o chamado microbioma. Sem essa proteção natural, o caminho fica livre para infecções.
A radiação infravermelha da luz solar faz ainda a temperatura da própria pele ultrapassar com facilidade os 40 °C durante o dia. O fotoprotetor comum não resolve essa parte do problema: ele foi desenvolvido para filtrar a radiação ultravioleta e não tem tecnologia para conter os efeitos do calor. Esse superaquecimento local estimula uma produção intensa de mediadores inflamatórios e radicais livres, que desencadeiam a oxidação celular. Nessa condição, a renovação do colágeno e da elastina, proteínas que garantem firmeza e sustentação ao rosto, se desequilibra, e a degradação dessas moléculas aumenta. Ao mesmo tempo, as células da pele sofrem dano direto no DNA, o que acelera o envelhecimento e aumenta muito o risco de tumores. O resultado aparece no espelho: perda de elasticidade, mais rugas e linhas de expressão, manchas escuras e um ressecamento crônico que os hidratantes comuns não conseguem resolver.
Para quem duvidava que o calor, sem luz solar direta, pudesse provocar esses danos, a ciência começa a responder. Pesquisadores do Instituto Leibniz de Pesquisa em Medicina Ambiental (IUF), em Düsseldorf, e do Instituto Indiano de Tecnologia de Bombaim avaliaram 1.510 mulheres de três cidades da Índia. Eles cruzaram os sinais de envelhecimento da pele dessas mulheres com os dados de temperatura e umidade dos cinco anos anteriores nas regiões onde elas viviam, combinados no chamado índice de calor. Quanto maior o índice, mais manchas na testa e mais rugas grossas, como os pés de galinha e as linhas abaixo dos olhos. A associação se manteve mesmo quando os pesquisadores descontaram a idade, a radiação ultravioleta, o tabagismo e a poluição do ar. Publicado na revista Dermatitis, é o primeiro estudo epidemiológico a relacionar o índice de calor ao envelhecimento cutâneo. Coordenou o trabalho o dermatologista Jean Krutmann, diretor do IUF e o mesmo pesquisador que, em 2017, ajudou a levar o conceito de expossoma para a dermatologia.
Nas grandes metrópoles, a poluição atmosférica piora essa equação e funciona como um catalisador químico. As micropartículas suspensas no ar ativam as mesmas vias inflamatórias e oxidativas do calor e somam forças com ele. Além disso, quando os poluentes urbanos se depositam sobre a pele superaquecida, tornam-se quimicamente mais reativos, agressivos e tóxicos do que eram no ar.
Diante dessa nova realidade climática, a dermatologia precisa adotar uma visão sistêmica e personalizada de cada paciente. O médico do século XXI deve analisar um conjunto amplo de variáveis: idade, estilo de vida, preferências pessoais, doenças associadas e fototipo, ou seja, a capacidade daquela pele de resistir à queimadura e ao dano celular quando exposta sem proteção.
Manter a pele saudável exige cuidados diários simples, mas indispensáveis. A lista começa com banhos mornos, que não agridem ainda mais a barreira lipídica já fragilizada pelo clima. Inclui também o uso rigoroso de protetor solar de amplo espectro, associado a hidratantes capazes de reduzir os danos oxidativos e inflamatórios e de restaurar o microbioma cutâneo. A prevenção secundária, com visitas periódicas ao dermatologista, tornou-se obrigatória para identificar cedo qualquer alteração suspeita.
Toda essa evolução científica leva a uma conclusão: não basta cuidar da saúde e da integridade da pele, é preciso também uma postura coletiva para conter a crise climática. O autocuidado ganhou um sentido mais amplo. No século XXI, preservar a saúde e a longevidade passa por preservar o planeta. Cuidar do meio ambiente deixou de ser um dever ecológico distante e abstrato. Virou, literalmente, uma questão de salvar a nossa própria pele.
*Flavia Addor - Médica dermatologista mestre em dermatologia (FMUSP) pós graduada em Ciências dermocosméticas e Segurança em cosméticos (Univ. Vrije-Brussels) , nutrologia (ABRAN) e marketing (FGV). Membro do conselho deliberativo da Sociedade brasileira de dermatologia e do conselho cientifico da Associação Brasileira da Industria de produtos de higiene pessoal, perfumaria e cosméticos. Diretora cientifica do Grupo MEDCIN -Centro de Pesquisa Clinica e pré-clínica- empresa do GBA Group e colunista do portal Neo Mondo.

Flavia Addor, coautora do Consenso Brasileiro de Fotoproteção, estreia coluna quinzenal no Neo Mondo