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O paradoxo do clima no Brasil: por que 72% da população teme o futuro, mas a pauta é ignorada no presente?

Escrito por Kamila Camilo | 14 de outubro de 2026

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Paradoxo climático: o calor já pesa no cotidiano dos brasileiros, mas a preocupação ainda perde espaço nas decisões de consumo e no voto - Imagem gerada por IA - Ilustrativa/Neo Mondo

POR – KAMILA CAMILO*

Todos nós carregamos uma distância entre o que acreditamos ser o certo e o que de fato escolhemos fazer. A psicologia tem nome para esse fenômeno : a dissonância cognitiva. O conceito, formulado pelo psicólogo Leon Festinger nos anos 1950, descreve o desconforto de sustentar crenças e atitudes que não combinam entre si.

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Na prática, a crença costuma morar no plano simbólico. Ela diz quem gostaríamos de ser. Já as escolhas do dia a dia respondem ao preço, ao hábito, ao cansaço e ao que está ao alcance. Para não viver em conflito permanente, a mente encontra saídas: a negação, justificava ou transferência  da responsabilidade para outra pessoa. A questão racial é um exemplo, a maioria afirma que o racismo existe, mas ao mesmo tempo acreditam que ninguém é racista no Brasil. 

O mesmo acontece quando a crise climática entra em pauta. Dados da pesquisa Termômetro do Brasil realizada pelo Instituto Oya, mostram que a distância entre discurso e prática ambiental é estrutural. O brasileiro diz que se preocupa com o meio ambiente. E se preocupa de verdade, 72% dos entrevistados consideram as mudanças climáticas um tema grave. Mas essa preocupação some no caminho até a urna e na seleção de produtos no carrinho de compras.

A leitura mais fácil é chamar isso de hipocrisia. Mas a pesquisa Termômetro do Brasil, apresenta uma outra percepção: a dissonância não é falha de caráter, e sim o resultado de uma responsabilidade que se dissolve antes de chegar a alguém. O indivíduo nunca assume a culpa da negligência. A responsabilidade é sempre de um "eles" impreciso: seja o governo, a empresa, o vizinho, o sistema. Ninguém consegue dizer quem são "eles". Enquanto a responsabilidade não tiver rosto, não vai encontrar mãos para segurá-la.

Existem três  dados que ajudam a compreender essa análise:

Primeiro, a barreira é prática, não de atitude. A maioria dos brasileiros já adotam hábitos sustentáveis e acreditam no próprio impacto. O gargalo aparece no bolso: falta dinheiro e faltam opções acessíveis. Não existe escolha real quando o caminho mais barato não está disponível, as pessoas acabam optando pela economia e o não sustentável.

Segundo, a desconfiança trava a ação coletiva. 65% dos brasileiros não confiam em políticos. A esperança em representantes comprometidos com o desenvolvimento sustentável é o item de maior desesperança da pesquisa, com 56%. Quando ninguém acredita que o sistema vai responder, carregar sozinho a responsabilidade deixa de parecer razoável.

Terceiro, a desigualdade é de informação, não de consciência. A classe A cita as mudanças climáticas como ameaça quase 1,5 vez mais que a classe DE (49% contra 38%). Mas quem tem menos repertório não se importa menos. Só tem menos vocabulário para nomear a preocupação.

Mapeamos quatro perfis de  dissonância cognitiva, baseados na Teoria dos Valores Humanos Básicos, de Shalom Schwartz.  Eles se manifestam de formas distintas porque respondem às lentes morais de cada indivíduo. O perfil pautado pela “Comunidade” que é nomeado em nosso estudo como “a gente resolve” ele  quer engajar, mas é travado pelo orçamento e pela ausência de caminhos acessíveis. O focado na “Autonomia” é o “eu me viro”, cuida de si e rejeita apelos coletivos, exigindo a validação de suas escolhas individuais. Já o perfil fissurado na “Ordem” é o “cada coisa no seu lugar” esse busca estabilidade e repele discursos de ruptura, enquanto o pautado pela “Autoridade” conhecido como “fiz por merecer” recusa noções de sacrifício e só se move quando a pauta socioambiental se converte em mérito e vantagem competitiva. Sem compreender que cada grupo aponta a responsabilidade para onde seus valores já apontavam, qualquer tentativa de mobilização continuará naufragando na abstração.

É por isso que a comunicação genérica falha. Uma mensagem para o "brasileiro comum" mira uma média que não existe. O que mobiliza o perfil “a gente resolve” soa como imposição para o  “fiz por merecer”. O que mobiliza “cada coisa no seu lugar” soa institucional demais para  o “eu me viro”. A mensagem geral nunca é neutra, sem querer, ela fala com um perfil e deixa os outros três indiferentes, ou até resistentes. O mercado publicitário aprendeu isso há muito tempo, já o campo socioambiental ainda está no começo dessa jornada.

O caminho é desenhar ações destinadas a cada perfil. Para o “a gente resolve”, criar mutirões com resultado visível para o bairro, mobilizados por redes que já existem, como igreja, associação e grupo de família. Enquanto para o “eu me viro”,  o caminho é gerar desafios pessoais em que a pessoa é protagonista da solução. Quando observamos o “cada coisa em seu lugar”, a participação em conselhos municipais, associações e na escola dos filhos são essenciais. Por fim, o “fiz por merecer”, valoriza rankings, selos de excelência e o convite para virar referência pública.

O brasileiro não reage ao clima como conceito, ele reage quando ele vira sintoma no corpo ou prejuízo no bolso. A poluição e a fumaça das queimadas já atingiram 40% da população. No Centro-Oeste, somam metade dos moradores: 17% com frequência e 33% de forma pontual. O calor extremo, com problemas de pressão e cardiovasculares, já foi sentido por 33%. Isso explica um aparente paradoxo, no estudo que realizamos, o clima é só o 9º entre o ranking de 18 preocupações nacionais, atrás de violência, corrupção e inflação.

foto de kamila camilo, autora do artigo O paradoxo do clima no Brasil: por que 72% da população teme o futuro, mas a pauta é ignorada no presente?
Kamila Camilo - Foto: Divulgação

Para quem informa a população, a lição é direta. O erro mais comum é falar de emissões e graus Celsius, enquanto a prioridade do receptor  é a pressão alta do avô, a fumaça que faz o filho tossir, o sofá que boiou na enchente. Ninguém precisa ser convencido de que o clima mudou, as pessoas precisam compreender que esses impactos vividos estão relacionados às ações climáticas.

Existe uma forma de terceirização da responsabilidade ainda mais refinada do que culpar governos ou empresas: a ideia de que "precisamos educar as crianças para salvar o planeta". Disfarçada de virtude pública, essa armadilha empurra a conta no tempo sem gerar atrito no presente, apostando em uma juventude de 18 a 24 anos que já se encontra sobrecarregada, registrando a menor satisfação com a vida (34%) e os maiores temores com o desemprego (39%) e a automação (44%). A mudança comportamental não nascerá de um apelo a uma infância abstrata do amanhã, mas do engajamento direto de quem já vota, consome, lidera e educa hoje, conectando a pauta ambiental aos vínculos afetivos que cada perfil já protege. Não são as crianças de amanhã que vão salvar o planeta; é quem já pode agir agora que precisa parar de esperar por elas. 

*Kamila Camilo - É uma empreendedora social negra brasileira LGBTIQ+ dedicada a conectar grandes organizações a movimentos de base para impulsionar ações climáticas de impacto. Como fundadora do Instituto Oyá e da iniciativa Creators Academy, ela lidera uma rede de 120 influenciadores que alcançam mais de 12 milhões de pessoas no Brasil. Atualmente, Kamila integra os conselhos dos Institutos Talanoa e Igarapé, promovendo políticas climáticas e estratégias de segurança pública, além de colaborar com a GainForest para impulsionar soluções climáticas baseadas em dados. Finalista da competição XPrize Rainforest com a equipe ETH BiodiX, Kamila continua a defender abordagens inovadoras para a sustentabilidade e a justiça climática. Colunista do portal Neo Mondo.

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