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Quem tira a caixinha de leite da rua ganha menos que o mínimo. A Tetra Pak decidiu medir isso

Escrito por Neo Mondo | 9 de outubro de 2026

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Caixinha, papelão e plástico chegam à indústria pelas mãos de catadores autônomos como Gilmar Aparecido Braga, que puxa a carroça pelo trânsito de São Paulo - Foto: Divulgação/The Circulate Initiative

POR - OSCAR LOPES, PUBLISHER DO NEO MONDO

“A única coisa que me falta é um diploma universitário, mas eu entendo de matéria-prima como ninguém.” A frase é de uma catadora ouvida em agosto, em São Paulo, na oficina que discutiu o diagnóstico da cadeia da Alto Vale Celulose, uma das maiores recicladoras de embalagens cartonadas do país e fornecedora-chave da Tetra Pak. Ela contou também o que a tira do trabalho em alguns dias: não ter com quem deixar o filho. Catadores, cooperativas, aparistas, a recicladora e a marca votaram juntos as prioridades do projeto. A liderança feminina ficou entre as cinco primeiras.

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A Tetra Pak financia por três anos o trabalho, conduzido pela organização The Circulate Initiative. Nayara Martino comanda a operação na América Latina. Ela passou anos aplicando devida diligência em direitos humanos a fornecedores da Nestlé, da Unilever e da PepsiCo, e na Unilever montou a governança das auditorias feitas por terceiros. Agora tenta levar o método aonde a nota fiscal não chega: ao catador autônomo que vende para o depósito do bairro.

Esse contingente é grande. O Brasil tem cerca de 800 mil catadores, e só uns 70 mil trabalham em cooperativas. As 3.097 organizações mapeadas pelo Anuário da Reciclagem 2025 movimentaram R$ 2,03 bilhões em 2024, com renda média de R$ 1.359,57 por mês, abaixo do salário mínimo daquele ano. A caixinha longa vida, feita em camadas de papel, plástico e alumínio, vale menos que o PET, e o diagnóstico mostrou que dinheiro extra e comida fazem o catador recolhê-la. A Política Nacional de Resíduos Sólidos obriga a Tetra Pak a responder pela volta da embalagem à indústria. Sobre as condições de quem faz esse retorno, a lei diz pouco.

foto de nayara martino, entrevistada da matéria Quem tira a caixinha de leite da rua ganha menos que o mínimo. A Tetra Pak decidiu medir isso
Nayara Martino - Foto: Divulgação/The Circulate Initiative

O programa também tem números a explicar. Lançado em 2023, prometia melhorar a vida de 50 mil trabalhadores informais até 2025. Entre 2025 e meados de 2026, segundo a própria organização, alcançou 11.300 em quatro países. Nayara diz que não houve atraso e explica a conta.

A Tetra Pak financia o projeto, e a Alto Vale é uma das maiores recicladoras de embalagens no país. Quem escolheu essa cadeia como ponto de partida, e o que ela permite enxergar que a cadeia de um reciclador de PET, por exemplo, não permitiria?

Pela metodologia da Responsible Sourcing Initiative, a marca parceira escolhe a recicladora. Nossa abordagem parte das relações que já existem entre cada elo da cadeia, por isso começamos por uma recicladora de quem a marca já compra.
A Tetra Pak selecionou a Alto Vale Celulose porque ela é uma parceira-chave na sua cadeia de embalagens cartonadas pós-consumo, e porque a Alto Vale Celulose é uma das maiores recicladoras desse tipo de embalagem no país.
Quando se trata do polietileno tereftalato (PET) e das embalagens cartonadas, não vemos diferenças significativas nas condições de trabalho nem nas práticas de sourcing responsável. Nos elos mais altos da cadeia de valor, recicladoras, grandes aparistas e alguns pequenos aparistas costumam trabalhar com fluxos de resíduos específicos. Já cooperativas, associações e catadores não: eles coletam e triam todos os materiais com valor, de diferentes fluxos de resíduos. Na base da cadeia de valor, onde os riscos de direitos humanos são mais salientes, são os mesmos trabalhadores fazendo o mesmo trabalho.
A diferença está na demanda de mercado: o PET tem demanda consolidada e uma rede de coleta que paga razoavelmente bem, enquanto as embalagens cartonadas são multicamadas e têm menor valor. Vimos o mesmo na Índia, onde a Responsible Sourcing Initiative tem um projeto com uma grande recicladora de PET e outro com uma recicladora que trabalha com embalagens cartonadas e plásticos multicamadas.

O diagnóstico de agosto apontou pontos de coleta precários e riscos à saúde. Qual achado concreto mais pesou na conversa com os parceiros, e o que ele já mudou no desenho das próximas fases?

Os dados detalhados do diagnóstico são confidenciais, mas podemos compartilhar o processo. Os resultados foram discutidos com todos os elos da cadeia. Na oficina de agosto, em São Paulo, todos votaram nas soluções possíveis: catadores, cooperativas e aparistas, ao lado da marca e da recicladora. Um dos achados que mais se destacaram foi que as mulheres têm menos oportunidades do que os homens de participar de negociações e decisões, e a liderança feminina entrou entre as cinco prioridades. Isso já orientou o projeto. Uma das soluções em desenho busca identificar mulheres com potencial de liderança e apoiar seu desenvolvimento por meio de cooperativas e organizações de trabalhadores.

Auditorias de fornecedor trabalham com quem emite nota fiscal. Das 800 mil pessoas que vivem da catação, só 70 mil estão em cooperativas. Como o projeto chega ao catador autônomo que vende para um depósito, não tem CNPJ e nunca ouviu falar da Alto Vale?

É aqui que nos diferenciamos de uma auditoria convencional: não paramos em quem emite a nota. Usamos o Harmonized Responsible Sourcing Framework, padrão de referência do setor para a devida diligência em direitos humanos em toda a cadeia. O diagnóstico entrevistou pessoas em todos os segmentos: a recicladora, os aparistas, as cooperativas e os depósitos que a abastecem, os cooperados e os catadores autônomos. O autônomo costuma vender para um depósito ou aparista de confiança, escolhido por conveniência, preço ou relação pessoal. Nossos parceiros de campo esperam nesses pontos para entrevistá-los. Depois, com a permissão deles, guardamos o contato e definimos a melhor forma de manter o diálogo ao longo do projeto.

A empresa que fabrica a embalagem paga pela investigação das condições de trabalho de quem a recolhe. Se a avaliação encontrar trabalho infantil ou uma violação grave num fornecedor da Alto Vale, o que acontece no dia seguinte, e quem decide se isso vira informação pública?

Nosso trabalho é identificar os riscos com a recicladora e sua cadeia e depois apoiá-la a enfrentá-los. O framework segue o princípio da melhoria progressiva: trabalhamos com o fornecedor para que o problema seja resolvido, e não transferido para outro lugar. Num caso de trabalho infantil ou outra violação grave, a prioridade imediata é a segurança das pessoas afetadas. Não recomendamos romper com o fornecedor, porque isso costuma tirar o problema de vista e deixar a família em situação pior. O fornecedor assume um plano de remediação com prazos claros, e a prevenção passa a integrar o projeto.

Um Comitê Consultivo, com a marca, a recicladora, o parceiro de implementação e a organização de catadores, orienta o trabalho e aprova planos e prioridades. Os dados do diagnóstico são confidenciais para proteger trabalhadores e pequenos negócios. A divulgação de informações específicas é decidida em conjunto pelos parceiros, e os aprendizados são publicados de forma agregada.

O diagnóstico mostrou que dinheiro e comida aumentam a coleta de material de baixo valor, como a caixinha longa vida. A The Circulate Initiative estudou, na Índia e no Quênia, quanto custa o reciclado de origem responsável. No Brasil, quem paga essa diferença: a marca, o consumidor ou o catador, que hoje subsidia o sistema com o próprio tempo?

Não devem ser os catadores. Hoje eles subsidiam o sistema com tempo não remunerado e riscos à própria saúde. Nossa pesquisa na Índia e no Quênia mostra que a compra responsável tem um custo real, que precisa ser incorporado ao preço ao longo da cadeia. Quem financia isso pode variar: marcas, investidores, governos locais e, em alguns casos, recicladoras.

No Brasil, a resposta é a responsabilidade compartilhada, princípio da Política Nacional de Resíduos Sólidos. O decreto de 2025 sobre logística reversa de embalagens plásticas reforça as obrigações dos fabricantes, e a Lei de Incentivo à Reciclagem canaliza incentivos fiscais para o setor. Juntos, criam uma obrigação e um fluxo de recursos. O que a legislação pouco aborda são as condições de quem faz a recuperação acontecer. O governo poderia exigir mais transparência nas cadeias de fornecimento da reciclagem. Das marcas, o que mais ajuda são compromissos comerciais de longo prazo para comprar reciclado, com exigência de transparência na cadeia, para que a remuneração chegue aos catadores.

Em 2023, o programa prometia 50 mil trabalhadores e mais de 25 marcas até 2025. Agora fala em 50 mil e mais de 60 compromissos, sem prazo. Quantos trabalhadores tiveram renda ou condição de trabalho comprovadamente melhor até aqui, e o que atrasou a meta?

Não há atraso. Houve uma evolução da meta. Melhorar a vida de 50 mil trabalhadores do setor informal continua sendo o objetivo. A coalizão de parceiros cresceu, e por isso ampliamos a meta de compromissos.

Todos os projetos seguem cinco fases: engajamento, diagnóstico de riscos, planejamento das soluções com os atores da cadeia, mitigação e remediação em campo, e por fim monitoramento e reporte. As três primeiras levam de 10 a 11 meses. Começamos pelo Vietnã, em 2024, e depois vieram Indonésia, Índia e Quênia. A metodologia leva tempo porque construímos confiança ao longo da cadeia antes de enfrentar os riscos. Entre 2025 e meados de 2026, melhoramos a vida de 11.300 trabalhadores do setor informal em quatro países. No mesmo período, 73 empresas da reciclagem nas regiões onde atuamos adotaram o framework.

O financiamento da Tetra Pak cobre três anos. O que precisa estar funcionando no fim desse prazo para que as melhorias não acabem junto com o contrato, e o que você teme que não resista?

O diagnóstico e o desenho das soluções aconteceram em 2026, e a implementação dura cerca de 24 meses a partir do fim deste ano. Três coisas precisam estar de pé no final. A compra responsável tem de fazer parte da rotina de compras da recicladora. Os catadores autônomos precisam de caminhos para acessar a seguridade social e aumentar a renda. E as cooperativas precisam da formalização e da documentação exigidas para receber a remuneração da logística reversa, o que transforma um direito previsto em lei em renda.

Minha maior preocupação é que a cadeia de uma única recicladora não muda as condições de uma cidade inteira. Se a política pública continuar movimentando material e dinheiro sem olhar para quem está na base, as melhorias de um projeto isolado serão sempre frágeis. Por isso, contribuir com a política pública faz parte do trabalho. Com as organizações de catadores e nossos parceiros, queremos que a logística reversa e os incentivos à reciclagem cheguem de fato às cooperativas e aos autônomos, e que as condições de trabalho entrem na forma como o sistema é avaliado.

O projeto colombiano começa ainda este ano e a rede latino-americana está em formação. Que empresa ou setor você gostaria de ver nessa mesa e ainda não está lá? O que essas companhias perdem ao continuar comprando reciclado sem saber quem o recolheu?

Queremos mais empresas que compram conteúdo reciclado, especialmente marcas e varejistas de alimentos, bebidas e higiene pessoal, além de transformadores, investidores e entidades gestoras de logística reversa. O framework e as ferramentas se adaptam a outros países. O que não se transfere automaticamente são as relações locais com cooperativas, organizações de catadores e municípios. A escala virá de recicladoras e marcas que adotem a prática como sua. A devida diligência em direitos humanos está se tornando obrigatória em mercados como a União Europeia, e o novo decreto brasileiro sobre embalagens plásticas aumenta a demanda por reciclado. A empresa que não mostra quem coletou seu material, e em quais condições, enfrenta riscos jurídicos, reputacionais e de abastecimento.

Um catador perde, em média, 15,59 horas por mês separando plástico que ninguém compra, quase dois dias de trabalho sem pagamento. A legislação brasileira já define quem responde pela volta da embalagem à indústria e já abriu um fluxo de incentivos fiscais para o setor. Nenhuma das duas mede quanto desse dinheiro chega a quem recolhe o material na rua. A implementação do projeto na cadeia da Alto Vale começa no fim de 2026 e dura 24 meses. Os resultados por trabalhador serão divulgados apenas de forma agregada.

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