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Escrito por Neo Mondo | 26 de outubro de 2026
Brasil em festa na madrugada desta segunda-feira (26), quando Lula agitou a bandeira nacional no palanque da Avenida Paulista, em São Paulo, para celebrar a reeleição - Foto: Paulo Pinto/Agência Brasil
POR - OSCAR LOPES, PUBLISHER DO NEO MONDO
Eleitores acima de 70 anos e adolescentes de 16 e 17 anos voltaram às urnas em número recorde, e o país que saiu duas vezes do Mapa da Fome reconduziu o homem que o tirou de lá
Às 8h de domingo (25), quando as seções abriram, Luiz Inácio Lula da Silva carregava uma desvantagem de 2,2 milhões de votos. À noite, tinha 64.256.232, ou 51,79% dos válidos, contra 59.826.041 de Flávio Bolsonaro (PL). Nenhum candidato que terminou o primeiro turno em segundo lugar tinha vencido desde a volta das eleições diretas, em 1989. Lula venceu. Aos 80 anos, o retirante de Garanhuns vai cumprir um quarto mandato, algo inédito na história da República.
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A virada não caiu do céu. Lula somou 10.376.694 votos entre um turno e outro, quase três vezes o ganho do adversário. A abstenção, que em 4 de outubro tinha batido 21,08%, a maior num primeiro turno desde 1998, caiu para 19,21%. Cerca de 2,96 milhões de brasileiros que tinham ficado em casa resolveram sair. Venceu por 4,4 milhões de votos, o dobro da margem de 2022.
Os mais velhos puxaram a fila. No Brasil, depois dos 70 anos, ninguém é obrigado a votar. Mesmo assim, já no primeiro turno o número de votantes dessa idade saltou de 6,13 milhões em 2022 para 8,77 milhões, um acréscimo de 2,64 milhões de pessoas, mais que todo o eleitorado de Brasília, segundo microdados do TSE analisados pelo Movimento Voto 70+ e pelo Data8. A abstenção do grupo caiu de 58,86% para 49,19%. Lula sabia onde estava esse eleitor. Na reta final, pediu diretamente aos idosos que não se achassem velhos demais para votar, que levantassem e fossem às urnas. A última pesquisa Datafolha antes do primeiro turno lhe dava 11 pontos de vantagem entre os mais velhos.
Na outra ponta, os adolescentes. Aos 16 e 17 anos, o voto também é facultativo, e a abstenção dessa faixa despencou de 17,11% para 12,68% no primeiro turno. São brasileiros que nasceram depois de 2008, que não viveram o primeiro Lula e escolheram, sem obrigação nenhuma, tirar o título e comparecer.
Muitos chegaram apesar do caminho. Em São Paulo e Salvador, a Justiça Eleitoral teve de mandar as prefeituras colocarem os ônibus na rua, e eleitores de pelo menos dez estados relataram dificuldade para se deslocar. A resposta veio de baixo. Desconhecidos ofereceram carona pelas redes sociais. Ricardo Leite de Moraes pedalou 40 quilômetros entre Jundiaí e Campinas e chegou à seção às 16h. Em Salvador, a enfermeira Taynan Carvalho de Sá esperou desde as 8h, conseguiu uma carona solidária e chegou às 18h20 a uma urna já fechada. “Eu tentei muito”, disse.
Para entender por que tanta gente insistiu, é preciso voltar a 1952, ao caminhão pau de arara que levou um menino de sete anos do sertão pernambucano a São Paulo. O menino virou torneiro mecânico, perdeu um dedo numa prensa, liderou as greves do ABC no fim dos anos 1970, ajudou a fundar o PT, perdeu três eleições presidenciais e tomou posse em 2003. O carisma de Lula nunca foi só retórica. É biografia. Quem o ouve falar de fome sabe que ele a conheceu.
E a fome é o capítulo central dessa história. O Bolsa Família nasceu em outubro de 2003. Em 2014, o Brasil saiu pela primeira vez do Mapa da Fome da FAO. Voltou para ele no triênio 2018 a 2020. Em julho de 2025, o relatório SOFI da ONU confirmou que o país tinha saído de novo, com menos de 2,5% da população em subnutrição na média de 2022 a 2024. O próprio governo tinha prometido isso até o fim de 2026 e chegou antes.
Os números do IBGE contam o resto. Em 2024, 8,6 milhões de brasileiros deixaram a pobreza, cuja taxa caiu de 27,3% para 23,1%. A extrema pobreza recuou para 3,5% da população, a menor desde o início da série, em 2012, quando era 6,6%. O índice de Gini chegou a 0,504, o menor já medido pela pesquisa. O próprio IBGE calcula que, sem os programas sociais, a miséria atingiria 10% dos brasileiros.
A saúde e a escola completam o retrato. O SUS nasceu da Constituição de 1988, mas foi nos governos Lula que ganhou o SAMU, a Farmácia Popular e o Brasil Sorridente, que levou dentista a quem nunca tinha sentado numa cadeira odontológica. Na educação, o ProUni abriu a universidade privada para estudantes de baixa renda, as federais e os institutos federais chegaram ao interior, e o Pé-de-Meia passou a pagar para o jovem pobre não largar o ensino médio. Parte dos adolescentes que votaram domingo pela primeira vez recebe esse dinheiro.
Na floresta, o desmatamento na Amazônia caiu ao menor nível desde 1988, e a perda de vegetação foi 46% menor em quatro anos. Para um portal que cobre clima e biodiversidade há quase duas décadas, esse dado pesa tanto quanto qualquer outro.
O país que votou domingo, porém, não é unânime. Flávio teve quase 60 milhões de votos e venceu no estado de São Paulo, com 53,85%. Na noite de domingo, disse ser impossível reconhecer o resultado e anunciou que pedirá a anulação da eleição, questionando a prorrogação da votação até as 19h determinada pelo ministro Cristiano Zanin. O presidente do TSE, Kassio Nunes Marques, afirmou ter segurança absoluta sobre todo o processo.
Já era madrugada de segunda quando Lula subiu ao palanque na Avenida Paulista, lotada. Disse que a vitória era de homens e mulheres, beijou Janja e chamou o domingo de “dia histórico”.

O que nossas atitudes nas eleições ensinam às crianças?