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Reflexões sobre a revolução do GLP-1

Escrito por Dra. Flavia Addor | 23 de outubro de 2026

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Reflexões sobre o GLP-1: entre os avanços da medicina e a pressão estética, o cuidado com a saúde deve orientar as escolhas - Imagem gerada por IA - Ilustrativa/Neo Mondo

POR - FLAVIA ADDOR*

Como as terapias baseadas em GLP-1 estão transformando o futuro da medicina... e de seus usuários

Poucas classes de medicamentos chegaram tão rapidamente ao conhecimento do grande público quanto os agonistas do receptor de GLP-1, também chamados de análogos de GLP-1. Usados primeiramente no tratamento do diabetes tipo 2, esses fármacos estão revolucionando a medicina por seu papel na perda de peso e pelos benefícios que dela decorrem em diversos sistemas do organismo, como o cardiovascular e o renal.

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Essas moléculas estão presentes no receituário médico desde o início dos anos 2000. A eficácia das novas gerações, porém, e a compreensão crescente de seus efeitos têm atraído muitos pesquisadores e investimentos.

Como o diabetes e a obesidade não se limitam a uma única especialidade, os pacientes que utilizam terapias baseadas em GLP-1 podem ser acompanhados por médicos de atenção primária, endocrinologistas, cardiologistas, nefrologistas e dermatologistas, já que todas essas áreas lidam com casos em que a obesidade é comorbidade.

E as opções disponíveis se multiplicam. Aos agonistas duplos, que atuam tanto no receptor de GLP-1 quanto no de GIP, somam-se novos fármacos em desenvolvimento. Pesquisadores investigam agonistas triplos e combinações com a amilina, outro hormônio que promove a saciedade, além de estratégias para preservar a massa muscular durante a perda de peso. Novas versões orais também avançam, para quem não quer recorrer aos injetáveis.

Diante de tantas possibilidades, cabe a toda a sociedade uma reflexão sobre o papel dos análogos de GLP-1 na redução do peso corporal: essas medicações estão mudando a maneira como nos relacionamos com a alimentação e com o próprio corpo.

Durante décadas, a obesidade foi tratada socialmente como mera consequência de maus hábitos alimentares. Quem não conseguia emagrecer era frequentemente julgado como guloso, como alguém que comia demais ou não se esforçava o suficiente, sem disciplina para não “beliscar” ou para fazer exercícios físicos. A chegada das versões mais recentes dessas terapias (semaglutida e tirzepatida) mudou essa narrativa: tornou mais evidente que o peso corporal envolve mecanismos neurológicos e metabólicos complexos e reforçou o entendimento, já adotado pela OMS, de que a obesidade é uma doença.

A princípio, esses fatos trazem certo alívio. Para muitas pessoas, emagrecer significa recuperar a mobilidade e melhorar a saúde, além de sentir-se mais confortáveis com a própria imagem e voltar a participar de situações sociais que antes evitavam.

A possibilidade de modificar o corpo com uma eficácia antes difícil de alcançar também muda as expectativas individuais e coletivas e cria outro tipo de estigma: se existe um medicamento capaz de ajudar a emagrecer, por que alguém continuaria acima do peso? Essa cobrança “estética” pode, paradoxalmente, converter-se em uma obrigação “social”. Nessa lógica perversa, o corpo nunca parece bom o suficiente. E a busca incessante por acesso ao tratamento, pela manutenção do resultado ou por uma aparência considerada ideal torna-se um caminho perigoso tanto para a saúde física quanto para a mental.

Pessoas com índice de massa corporal normal ou com sobrepeso leve buscam a medicação para “secar”. Esse uso, chamado jocosamente de “recreacional”, pode até superar em número a utilização por pacientes com diabetes e obesidade, e parece não conhecer limites nem riscos.

Os análogos de GLP-1 não são um tratamento “simples”: exigem avaliação metabólica e nutricional prévia, definição de uma meta e ajuste individualizado de doses, para que se monitorem os efeitos benéficos e se controlem os efeitos colaterais.

Alguns desses efeitos podem decorrer da própria perda rápida de peso, fenômeno até agora estudado principalmente em pacientes submetidos à cirurgia bariátrica. Há ainda reações adversas que exigem avaliação criteriosa, como sintomas gastrintestinais (dor abdominal, diarreia), colecistite, pancreatite e neuropatia óptica isquêmica. Por isso, a indicação precisa e o acompanhamento médico, muitas vezes multidisciplinar, são tão importantes.

A venda desses medicamentos passou a exigir receita médica, mas produtos clandestinos ganham espaço pelo preço e pela facilidade de acesso. Muitas vezes, eles nem contêm a substância na concentração correta e trazem outras drogas, como anorexígenos, laxantes e diuréticos, em doses desconhecidas. O resultado são reações adversas de todo tipo, além de desnutrição, problemas renais e até risco de vida.

A medicina sempre procurou aliviar o sofrimento humano. Isso inclui tratar a obesidade, reduzir riscos metabólicos e melhorar a qualidade de vida. Não há contradição entre buscar saúde e desejar sentir-se melhor com a própria aparência.

Contudo, em nossa sociedade hedonista e fascinada pelas aparências, acredito que os problemas começam quando um corpo que se afasta de um “ideal estético” passa a ser encarado como defeito, e quando o acesso às possibilidades terapêuticas é buscado a qualquer custo, em detrimento da saúde e da segurança.

Como médica dermatologista, tenho recebido pacientes com carências importantes de proteínas e vitaminas, aspecto envelhecido e perda acentuada de massa muscular, em sua imensa maioria sem acompanhamento médico especializado.

Os análogos de GLP-1 trouxeram uma revolução à medicina e à sociedade e, como toda revolução, podem gerar novos dilemas sociais e até de políticas públicas. Precisamos nos preparar, como médicos e como cidadãos.

*Flavia Addor - Médica dermatologista mestre em dermatologia (FMUSP) pós graduada em Ciências dermocosméticas e Segurança em cosméticos (Univ. Vrije-Brussels) , nutrologia (ABRAN) e marketing (FGV). Membro do conselho deliberativo da Sociedade brasileira de dermatologia e do conselho cientifico da Associação Brasileira da Industria de  produtos de higiene pessoal, perfumaria e cosméticos. Diretora cientifica do Grupo MEDCIN -Centro de Pesquisa Clinica e pré-clínica- empresa do GBA Group e colunista do portal Neo Mondo.

foto de flavia addor, autora do artigo Reflexões sobre a revolução do GLP-1
Flavia Addor - Foto: Arquivo pessoal

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