Amazônia Biodiversidade CLIMA Destaques
Escrito por Neo Mondo | 28 de outubro de 2026
Vegetação nativa fragmentada entre pastagens e lavouras perde conectividade, comprometendo a biodiversidade e a capacidade de recuperação dos ecossistemas. - Imagem gerada por IA - Ilustrativa/Neo Mondo
POR - OSCAR LOPES, PUBLISHER DO NEO MONDO
O MapBiomas divulga nesta quarta-feira (28), a partir das 22h, que a vegetação nativa do Brasil está dividida em 3,41 milhões de fragmentos, e que quase metade deles (49%) fica em apenas cinco estados: Minas Gerais, Bahia, Goiás, São Paulo e Paraná. Os números vêm do módulo de Degradação da rede, atualizado com a Coleção 11 e cobrindo o período de 1986 a 2024. Chegam no dia em que a COP17 da Convenção sobre Diversidade Biológica, em Yerevan, na Armênia, dedica sua programação à restauração.
Leia também: Mata Atlântica tem um quarto da vegetação nativa em mata nova, e 60% do desmatamento recente caiu sobre ela
Leia também: Um quarto da vegetação perdida no Cerrado ficava a menos de 500 metros de um rio
A concentração não indica mais mata, cerrado ou campo preservado nesses estados. Indica o contrário. Onde havia manchas grandes e contínuas, hoje há pedaços pequenos cercados por pasto, lavoura e cidade. Em 1986, o país somava 2,35 milhões de fragmentos, com área média de 287 hectares. Em 2024, eram 3,41 milhões, com 163 hectares em média. O número cresceu 45%. O tamanho encolheu 43%.
Os extremos estão nos municípios. São João de Meriti, na Baixada Fluminense, lidera a lista dos menores, com 1,9 hectare de área média por fragmento. Dos 20 municípios com fragmentos mais miúdos, 12 ficam no Sudeste, 5 no Nordeste e 3 no Sul. Do outro lado, 19 dos 20 com as maiores áreas médias estão no Norte, encabeçados por Itamarati (AM), com 65,6 mil hectares. A única exceção é Barra D’Alcântara, no Piauí, com 26 mil. O Amazonas tem a maior média estadual, 4 mil hectares por fragmento. Já 46% dos municípios brasileiros têm média abaixo de 25 hectares, a maioria no Sul e no Sudeste.
A Mata Atlântica reúne 1,38 milhão de fragmentos, com média de 25 hectares. O Cerrado tem 957 mil, com 105 hectares. O Pampa fica em 81. A Amazônia ainda guarda as maiores áreas contínuas, mas é onde a curva mais se moveu: o número de fragmentos saltou 260% desde 1986, de 144 mil para 519 mil, e a área média despencou 76%, de 2,7 mil para 662 hectares. A tendência já aparecia em escala global. Em 2015, uma equipe liderada por Nick Haddad, da Universidade Estadual da Carolina do Norte, estimou que a fatia da floresta amazônica brasileira a mais de 1 km de uma borda tinha caído de 90%, no registro histórico, para 75%. wisc
“Essa redução da conectividade afeta diretamente a capacidade de dispersão e reprodução das espécies nativas que vivem nesses fragmentos, reduzindo o fluxo gênico e aumentando o risco de extinções locais”, diz Dhemerson Conciani, pesquisador do IPAM e coordenador técnico do grupo de Degradação do MapBiomas. “Quanto mais fragmentada fica a paisagem, menor é a área média de seus fragmentos, e isso é muito ruim em termos ambientais porque aumenta drasticamente a exposição aos efeitos de borda e ao fogo, especialmente em anos de eventos climáticos extremos.”
O módulo cruza oito vetores de degradação: borda, tamanho, isolamento e forma dos fragmentos, fogo, idade da vegetação secundária, distúrbio de dossel e corte seletivo. O usuário escolhe quantos combinar. Na leitura mais restritiva, 53,3 milhões de hectares de vegetação nativa estavam expostos a pelo menos um vetor em 2024, ou 10% do total. Na mais abrangente, 134,8 milhões, ou 24%. Em 1986, os números eram 41 milhões (6%) e 95,5 milhões (14%). A Mata Atlântica é o bioma proporcionalmente mais exposto, com 33% a 70% do que resta nessa condição. Em área absoluta, o Cerrado lidera, com 17,7 a 42,1 milhões de hectares.
A borda é a face mais visível do problema. Entre 37 e 102 milhões de hectares de vegetação nativa estão a até 150 metros de uma área já convertida, faixa onde vento, sol direto, deriva de agrotóxicos e incêndios atravessam a mata com facilidade. Isso equivale a 7% a 18% da vegetação nativa do país. O Cerrado tem a maior área absoluta em borda, de 11 a 32 milhões de hectares. A Mata Atlântica tem a maior proporção, de 29% a 66%. E a borda envelhece: 69 milhões de hectares, ou 12% da vegetação nativa, estão em bordas que existem desde 1986. Das áreas hoje sob efeito de borda, 67% já estavam nessa condição no início da série.
A ciência internacional mede há anos o que isso custa. O trabalho de Haddad, publicado na Science Advances, concluiu que quase 20% das florestas remanescentes do mundo estão a menos de 100 metros de uma borda, e mais de 70% a menos de 1 km. A síntese de experimentos de fragmentação em cinco continentes, alguns com 35 anos de duração, mostrou que a fragmentação reduz a biodiversidade entre 13% e 75%, com efeitos maiores nos fragmentos menores e mais isolados, e que se agravam com o tempo. Na Mata Atlântica, o padrão se aprofundou. Em 2009, Milton Cezar Ribeiro e colegas da Unesp mostraram que só 11% a 16% da cobertura florestal restava em 2005, com 83% concentrados em fragmentos isolados menores que 50 hectares. Em 2024, uma nova análise do mesmo grupo, assinada por Mauricio Vancine e Ribeiro na Biological Conservation, encontrou 97% dos fragmentos abaixo de 50 hectares, com área média entre 16,3 e 25,5 hectares, e metade a 60% da vegetação a menos de 90 metros das bordas. haddad et al science advances 2015 +3
Mais fragmentos nem sempre significam só perda. Em maio, quando o MapBiomas apresentou a versão anterior do módulo, Conciani explicou à Rádio Nacional que a Mata Atlântica registrou um fenômeno diferente: parte dos fragmentos que surgiram corresponde a áreas em recuperação. Mata nova brotando no meio do pasto também conta como pedaço isolado até se ligar a outro. ebc
É essa ligação que entra em pauta em Yerevan. O Dia da Restauração da COP17, organizado por PNUMA, FAO e o secretariado da Convenção, lança o primeiro Relatório de Progresso da Restauração, que avalia onde o mundo está na meta de restaurar 30% dos ecossistemas degradados e no compromisso de 1 bilhão de hectares. A conferência, que termina nesta sexta-feira (30), faz o primeiro balanço global da implementação do Marco Global de Biodiversidade Kunming-Montreal. Na abertura do encontro, o secretário-geral da ONU, António Guterres, afirmou que menos da metade das metas nacionais de biodiversidade está sendo cumprida. Restoration Day at CBD COP 17 +2
O Brasil chega com o Planaveg, que estabelece a meta de restaurar 12 milhões de hectares de vegetação nativa até 2030. Na COP30, em Belém, em novembro de 2025, o Ministério do Meio Ambiente informou que 3,4 milhões de hectares estavam em processo de recuperação, a maior parte vegetação secundária regenerando de forma espontânea. jornaldebrasiliaocafezinho
“As informações inéditas disponibilizadas e atualizadas sobre a fragmentação da vegetação nativa no Brasil são estratégicas para entender a dimensão do problema, evitar seu agravamento e inclusive orientar ações de restauração na busca de maior conectividade ecológica”, diz Eduardo Vélez, pesquisador da GeoKarten e membro do grupo de Degradação do MapBiomas.
A análise de forma dos fragmentos mostra quanto falta. Pelo critério do módulo, com faixa de borda de 30 metros, 91% da vegetação nativa está na porção interior dos fragmentos. Outros 6,7%, ou 36,9 milhões de hectares, aparecem em formas associadas à degradação, como bordas e perfurações, quando uma área desmatada fica inteiramente cercada pela mata. Corredores e ramificações, as formas que ligam um fragmento a outro, somam 9,4 milhões de hectares. É 1,7% da vegetação nativa do país.
Licença Social para Operar: quando a licença legal já não é suficiente
Quem cuida da costa brasileira? Pela primeira vez, um levantamento nacional vai responder