Ciência e Tecnologia Destaques Meio Ambiente Oceano Política Saúde

10.726 substâncias que nenhum governo avaliou, e uma negociação que tirou o assunto da mesa

Escrito por Neo Mondo | 4 de setembro de 2026

Compartilhe:

Foto: Ilustrativa/Freepik

POR - OSCRA LOPES, PUBLISHER DO NEO MONDO

A Escola São Paulo de Ciência Avançada em Microplásticos reúne em Campinas, até 11 de setembro, 125 estudantes de 31 países. Em 27 de setembro, os chefes de delegação do tratado global voltam a se encontrar em Bangcoc com as substâncias químicas fora da pauta formal

Martin Wagner, da Universidade Norueguesa de Ciência e Tecnologia, abriu nesta terça-feira,01/09, em Campinas, a Escola São Paulo de Ciência Avançada em Microplásticos com um número que não descreve o plástico no oceano. Descreve o plástico antes de virar resíduo. Das 16.325 substâncias químicas já inventariadas em materiais plásticos, mais de 4.200 foram classificadas como perigosas por serem persistentes, bioacumulativas, móveis ou tóxicas. Para 10.726 delas não existe informação alguma. "Nenhum governo avaliou essas substâncias e, portanto, não tem como garantir a segurança de materiais que utilizamos cotidianamente", disse o pesquisador.

Leia também: O plástico não é um problema de lixo. É um problema de petróleo

Leia também: Nenhum ponto intocado: 2.315 amostras revelam 248 compostos humanos dissolvidos no oceano

Vinte e seis dias depois dessa aula, entre 27 e 30 de setembro, os chefes de delegação do comitê que negocia o tratado global contra a poluição plástica se reúnem em Bangcoc. Substâncias químicas e produção não estão entre os blocos formais de trabalho definidos pelo presidente do comitê, o diplomata chileno Julio Cordano. Observadores da sociedade civil ficaram de fora da sala no encontro anterior, em Nairóbi, no início de julho, e a estrutura se repete agora. Em 10 de agosto, quando Cordano divulgou o documento de referência que apelidou de "sem surpresas", o Centro de Direito Ambiental Internacional respondeu que o texto fixa o menor denominador comum e não reflete o que a ciência diz ser necessário. A sessão formal decisiva, a INC-5.4, está marcada para março de 2027. A negociação está parada desde 15 de agosto de 2025, quando a rodada de Genebra terminou sem consenso entre cerca de 180 países.

É contra esse pano de fundo que a escola funciona. A ESPCA em Microplásticos segue até 11 de setembro e reúne 125 estudantes de 31 países e de 19 estados brasileiros. A organização é uma parceria entre a Unicamp e a UFSCar, com financiamento da FAPESP, conduzida pelo Laboratório de Química Ambiental da Unicamp e pelo Grupo de Pesquisa em Poluição Plástica da UFSCar. "O principal objetivo da escola é empoderar a próxima geração de cientistas, promover a colaboração com lideranças globais e apoiar os esforços governamentais e diplomáticos no enfrentamento da poluição plástica", afirmou a coordenadora Cassiana Montagner, docente do Instituto de Química da Unicamp.

Wagner coordenou o PlastChem, projeto que consolidou o conhecimento disperso sobre substâncias químicas em plásticos. Em julho de 2025, a equipe publicou na Nature o inventário que sustenta o número da abertura. São 5.776 aditivos, 3.498 auxiliares de processamento, 1.975 substâncias de partida e 1.788 compostos que ninguém adicionou de propósito, resultado de impurezas e de reações durante a produção. O grupo determinou 15 conjuntos prioritários nos quais mais de 40% dos membros são de preocupação. O relatório anterior, de 2024, registrou o dado que explica a arquitetura do problema: apenas 6% das substâncias presentes em plásticos são reguladas internacionalmente.

Metade das substâncias identificadas cumpre alguma função no produto final, como corantes e aditivos que dão maleabilidade e elasticidade. A outra metade existe só para facilitar a fabricação. "A indústria não é obrigada a indicar a composição e, por isso, os recursos públicos são gastos para que nós passemos anos fazendo pesquisa e engenharia reversa para descobrir as substâncias presentes nos plásticos", relatou Wagner. Cada produto plástico é quase único, e essa singularidade química funciona como barreira regulatória. Micro e nanoplásticos, lembrou ele, são apenas um dos cinco tipos de poluição plástica, e o problema atravessa todo o ciclo produtivo. Dois trechos desse ciclo recebem pouca atenção: a emissão de gases de efeito estufa na fabricação e a poluição atmosférica gerada pela queima dos resíduos.

O custo já foi contabilizado. Wagner assina o Lancet Countdown on Health and Plastics, lançado em agosto de 2025, que estima perdas econômicas relacionadas à saúde acima de US$ 1,5 trilhão por ano, número calculado sobre apenas 38 países. A produção saiu de 2 megatoneladas em 1950 para 475 megatoneladas em 2022, com projeção de 1.200 megatoneladas em 2060. Oito mil megatoneladas de resíduo plástico já poluem o planeta e menos de 10% do material é reciclado. As emissões de material particulado fino da produção responderam por cerca de 158 mil mortes prematuras em 2015. Um único composto, o ftalato DEHP, foi associado a 356.238 mortes cardiovasculares em 2018, segundo estudo publicado na eBioMedicine em abril de 2025. O bisfenol A foi associado a 237 mil mortes por doença isquêmica do coração no mesmo levantamento do Lancet. Na conferência, Wagner listou transtornos reprodutivos e metabólicos, malformações congênitas e alguns tipos de câncer entre os efeitos documentados. "Estamos pagando com a nossa saúde pelo desenvolvimento dessa configuração econômica, e só conhecemos a ponta do iceberg."

Diante de uma plateia de jovens pesquisadores, ele fez a autocrítica da própria comunidade. "Nós estamos perdendo tempo", afirmou, ao mostrar materiais que a ciência levou décadas para classificar como problemáticos. "Ficamos paralisados pela análise, entramos em ciclos de repetição e refinamento de experimentos, geramos uma 'névoa informacional' e demoramos para transformar esse conhecimento em mudança. Enquanto isso, vidas são perdidas." E completou: "Não é culpa da ciência, há vários fatores, como a pressão da indústria, mas somos parte do problema. Ficamos focados em compreender o problema e prestamos menos atenção à solução." Como saída, propôs compartilhar dados e práticas entre grupos de países diferentes, extrair conclusões mais consequentes do volume de informação já produzido e melhorar a conversão de evidência em regulação. Relatou também a criação da Coalizão de Cientistas por um Tratado Efetivo contra a Poluição Plástica, que hoje reúne mais de 450 membros de mais de 70 países e leva especialistas aos espaços de negociação. Faltam latino-americanos, ressalvou.

O Brasil chega a essa discussão com um instrumento novo e ainda parado. A Lei 15.022, sancionada em 13 de novembro de 2024, criou o Inventário Nacional de Substâncias Químicas. Até então o país era o único entre os treze maiores produtores químicos do mundo sem marco regulatório de segurança química, ocupando a sexta posição nessa lista. A lei obriga fabricantes e importadores a cadastrar substâncias a partir de uma tonelada por ano e prevê três anos para a formação do inventário depois que o sistema entrar no ar. O decreto que regulamenta a norma foi a consulta pública pelo Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima em maio de 2025, teve o processo suspenso, reabriu, e recebeu contribuições no âmbito da Comissão Nacional de Segurança Química até setembro daquele ano. Fora do contato com alimentos, onde a ANVISA trabalha por listas positivas de monômeros e aditivos, atualizadas em fevereiro de 2025, não existe lista química equivalente para têxteis, brinquedos, construção civil ou filme agrícola.

A evidência brasileira, essa, já chegou. Em setembro de 2024, pesquisadores da Faculdade de Medicina da USP liderados por Luís Fernando Amato-Lourenço e Thais Mauad publicaram no JAMA Network Open a detecção de microplásticos no bulbo olfatório de moradores de São Paulo, em oito de quinze autópsias analisadas. O polímero mais encontrado foi o polipropileno. O material que a política pública brasileira ainda trata como resíduo entrou na literatura médica internacional antes de entrar no cadastro nacional.

Walter Waldman, professor associado da UFSCar em Sorocaba e vice-coordenador da escola, colaborou com a delegação brasileira enviada a Genebra e estuda microplásticos em solo desde a bolsa Capes-Humboldt de 2020. Foi membro afiliado da Divisão de Química e Meio Ambiente da IUPAC entre 2023 e 2025 e representou a Sociedade Brasileira de Química na Comissão Nacional de Segurança Química no mesmo período. Com Montagner e Evaldo Espíndola, da USP, coordena o projeto temático Plast-Agrotox. Ele concedeu entrevista exclusiva ao Volume I da Coleção Neo Mondo, o dossiê Plástico, sociedade e natureza: uma relação que precisa ser reinventada, que vai ao ar em 14 de setembro com 33 peças editoriais originais e 24 especialistas convidados, sob curadoria científica de Alexander Turra.

foto dos conferencistas do evento Escola São Paulo de Ciência Avançada em Microplásticos, remete a matéria 10.726 substâncias que nenhum governo avaliou, e uma negociação que tirou o assunto da mesa
Conferencistas estrangeiros apresentados ao público da ESPCA, em Campinas, onde as substâncias químicas dos plásticos abriram a programação - Foto: Michele Fernandes

Coube a Waldman fechar o primeiro dia. Ele tratou das lacunas metodológicas da pesquisa em microplásticos e da desigualdade entre o que se produz no Norte e no Sul do planeta, que deixa regiões inteiras sem dado nenhum e enviesa qualquer regulação construída sobre esse vazio. Citando outros especialistas, disse que a ciência precisa ser global para que as políticas públicas não sejam. E deixou a pergunta na sala: o mundo precisa de "publicações melhores do Norte Global ou de mais dados do Sul Global?".

Compartilhe:


Artigos anteriores:

A 1.100 metros de profundidade, uma enzima brasileira acende luz azul a 2 °C

Seca no El Niño 2024 atingiu 2 mil localidades da Amazônia, aponta MapBiomas

ENGIE Brasil automatiza gestão tributária de mais de 400 CNPJs e reduz o tempo de entregas fiscais 


Artigos relacionados