Cultura Destaques Economia e Negócios Emergência Climática Meio Ambiente Saúde Segurança Sustentabilidade

Desperdício de alimentos: por que as empresas precisam sair do discurso e entrar na prática

Escrito por Neo Mondo | 16 de março de 2026

Compartilhe:

Desperdício de alimentos revela falhas no sistema alimentar e o custo social de perder comida ainda própria para consumo - Foto: Felipe Rau/Estadão

ARTIGO

Os artigos não representam necessariamente a posição de NEO MONDO e são de total responsabilidade de seus autores. Proibido reproduzir o conteúdo sem prévia autorização

Por - Daniela Teston* e Lúcio Vicente*, especial para Neo Mondo

O desperdício de alimentos no Brasil é um problema conhecido, mas ainda pouco priorizado. Embora quase 60% dos brasileiros afirmam se preocupar muito com o tema, apenas 1% vê este assunto como um dos grandes problemas nacionais. Essa contradição, evidenciada por uma recente pesquisa elaborada para o programa Brasil Sem Desperdício, encomendada pelo WWF-Brasil e a ONG Global WRAP e realizada pelo Instituto Akatu e Market Analysis com consumidores brasileiros, revela um desafio central: o desperdício é percebido como errado, mas ainda não como urgente.

Leia também: 3 mulheres que criaram soluções para problemas sociais e ambientais no Brasil

Leia também: Fomes contemporâneas

Esse paradoxo não é apenas individual. Ele reflete uma cultura que condena o desperdício no plano moral, mas o tolera no cotidiano. Pequenas perdas ─ alimentos esquecidos na geladeira, frutas passadas na fruteira, sobras no prato ─ são naturalizadas como parte da rotina. Ao mesmo tempo, a responsabilidade pelo enfrentamento do problema é atribuída majoritariamente ao governo, seguida por supermercados, indústrias e, só então, pelos consumidores.

foto de daniela teston, autora do artigo Desperdício de alimentos: por que as empresas precisam sair do discurso e entrar na prática
Daniela Teston - Foto: Divulgação

A pesquisa mostra que 93,9% dos brasileiros associam o desperdício de alimentos à perda de dinheiro, muito mais do que a impactos ambientais ou sociais. Esse dado é revelador. Ele indica que o argumento econômico é hoje a principal porta de entrada para a mudança de comportamento. E as empresas, que influenciam decisões de compra, padrões de consumo e práticas domésticas diariamente, têm enorme poder de ativar essa consciência de forma prática e concreta.

É nesse ponto que o papel destas companhias se torna imprescindível.

No varejo alimentar, por exemplo, a lógica da fartura, das embalagens padronizadas e das promoções que incentivam compras em excesso contribui diretamente para o desperdício dentro dos lares. A pesquisa aponta que quase metade dos consumidores compra mais do que precisa por conta de promoções e que muitos não encontram embalagens adequadas ao tamanho de suas famílias. Rever estratégias comerciais, oferecer porções menores, estimular a compra fracionada e valorizar alimentos fora do padrão estético são ações simples, mas com muitos resultados positivos.

Na indústria, há espaço para avançar na rotulagem clara, especialmente sobre validade e conservação, além de investir em campanhas educativas integradas aos produtos. Mas informar melhor não basta: é preciso ajudar o consumidor a agir no dia a dia. Receitas de reaproveitamento, dicas de armazenamento e orientações práticas precisam estar onde as pessoas já estão: nas embalagens, nas redes sociais, nos aplicativos de compra e nos canais digitais de grande alcance.

A comunicação, aliás, é um dos grandes gargalos identificados pela pesquisa. Embora 82% dos brasileiros afirmam querer saber mais sobre como evitar o desperdício, apenas 27% buscam esse tipo de informação ativamente. O interesse existe, mas a informação não chega de forma acessível, contínua e relevante. As empresas podem ─ e devem ─ preencher essa lacuna, levando conteúdos confiáveis, práticos e adaptados à realidade das pessoas, especialmente dos públicos mais desengajados e vulneráveis.

Outro dado importante diz respeito à diversidade de perfis de consumidores. Não existe uma única mensagem capaz de mobilizar a todos. Há quem se mova pelo argumento econômico, quem responda melhor à pauta ambiental e quem enxergue o desperdício como um problema coletivo, o que exige que empresas criem estratégias segmentadas que dialoguem com diferentes motivações e estilos de vida. Tratar o desperdício de alimentos como um tema transversal ─ e não apenas como uma pauta de sustentabilidade isolada ─ é fundamental.

Por fim, é preciso reforçar que combater o desperdício não é apenas uma questão de responsabilidade social, mas também de eficiência econômica, inovação e competitividade. Empresas que lideram esse movimento fortalecem sua reputação, reduzem perdas, constroem relações de confiança com consumidores e contribuem para sistemas alimentares mais justos e resilientes.

foto de lucio vicente, autor do artigo Desperdício de alimentos: por que as empresas precisam sair do discurso e entrar na prática
Lúcio Vicente - Foto: Divulgação

O desperdício de alimentos não será resolvido apenas com boa vontade individual. Ele exige um pacto real entre governo, empresas e sociedade. Iniciativas como o Brasil Sem Desperdício mostram que essa articulação é possível. Cabe agora ao setor privado assumir seu papel de protagonista, sair do discurso e transformar influência em ação. Porque desperdiçar alimentos custa caro ─ para o bolso, para o planeta e para o futuro de todos nós.

*Daniela Teston é diretora de Relações Corporativas do WWF-Brasil *Lúcio Vicente é diretor-executivo do Instituto Akatu.

Compartilhe:


Artigos anteriores:

Embalagens mal identificadas chegam a 40% nas cooperativas

Tecnologia sustentável criada por estudantes paranaenses propõe despoluição de lagos

O fator Erika Hilton


Artigos relacionados