Bioética Ampla Destaques Economia e Negócios Política Saúde Segurança Sustentabilidade
Escrito por Neo Mondo | 11 de novembro de 2025
Foto: Ilustrativa/Freepik
ARTIGO
Os artigos não representam necessariamente a posição de NEO MONDO e são de total responsabilidade de seus autores. Proibido reproduzir o conteúdo sem prévia autorização
Por - Caroline Filla Rosaneli*, especial para Neo Mondo
No mundo onde cenas diárias de carências ou privações, de fomes, abandonos, violências, guerras, são validadas com naturalidades, como podemos alimentar nosso apetite para algo menos ácido, amargo e indigesto? É tão desafiador quanto preparar uma nova receita, sem ingredientes à disposição.
Leia também: Vulnerado
Leia também: Quando o humano se torna editável
No novo tempo estamos cotidianamente intimidados a olhar as fomes contemporâneas, assim no plural, porque são inúmeras ameaças e inconstantes desafios e dilemas dentro das nossas realidades, que nos alimentam não só pela boca, mas inundam nossos desejos, sonhos e futuro, por vezes escassos de esperança, e por outras, fartos de inquietações.
Nosso novo e necessário alimento não entra só pela boca, daqueles que essa possibilidade tem. Mas a necessidade de digerirmos informações, que nem sempre são seguras, consumir produtos, engolir desafios e mastigar tudo isso junto ao tempo inseguro, é um roteiro sobre fomes contemporâneas.
A fome de alimentos mata, silenciosamente os que dele compadecem, mas também mata toda uma sociedade inerte aos desafios nada contemporâneos, vividos na história desde sempre para a sobrevivência humana. Desta forma, precisamos nos alimentar buscando estratégias seguras, e ampliar a capacidade de inovar o consumo. Porém, o desperdício de alimentos mundial, e a fartura gastronômica dos banquetes de alguns, transforma a fome de alimentos em fome das desigualdades, e na permanência da escassez de sonhos, potenciais, afetos, comida, água e outros direitos humanos.
Os contrastes e contradições contemporâneos precisam ser alimentados de uma nova receita, onde os ingredientes mesmo em pequenas quantidades transformariam a realidade em um sabor, mais doce, suave e leve. Os ingredientes? Ternura, alteridade, tolerância, precaução, proteção, presença, tempo...
Embriagados por imagens de causar indignação, teríamos perdido a capacidade de reagir? Estamos neutralizados aos excessos de informações?
Separe um tempo para saborear de ingredientes que contaminam a vida. Ao contrário disso, as fomes contemporâneas são armas que matam silenciosamente de várias formas.
A educação para cidadania e emancipação para a vida é a única arma poderosa para deter o poder neste desequilíbrio de liberdades.
Faz-se necessário muita lucidez para enfrentar o tempo contemporâneo alimentado no seu cotidiano por incertezas e indiferenças. Dentro de cada um de nós há fomes específicas. Sendo assim, que delas possamos nos alimentar para crescer, permanecer e pertencer. Que cada fome possa ser alimentada e saciada de uma vida justa, e que homens e mulheres possam ter a consciência livre e alimentada de esperanças. E você? Tem fome de quê?

Para saber mais, leia em acesso livre Fomes Contemporâneas. Editora PUCPress, 2020. https://www.pucpress.com.br/publicacoes/fomes-contemporaneas/
*Caroline Filla Rosaneli
Nutricionista. Mestre em Alimentos e Nutrição pela Unicamp. Doutora em Ciências da Saúde pela PUCPR. Pós-doutorado em Bioética pela UnB. Docente e coordenadora do Programa de Pós-graduação em Bioética da PUCPR. Pesquisa na área de saúde pública, bioética e proteção de vulneráveis.
Inteligência Artificial na medicina: o que muda com a nova resolução do CFM?
Justiça climática e direitos humanos: os novos rotos da ética do século XXI
Sofrimento moral na Saúde 5.0: entre algoritmos e consciência