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Escrito por Neo Mondo | 19 de julho de 2019
O que mais preocupa é que o perigo vem desde a infância, algo que ficou evidenciado no estudo Global Burden of Disease (GBD), feito em quase 200 países, entre outros levantamentos mundiais. Em junho deste ano, o Ministério da Saúde brasileiro também informou que está realizando o Estudo Nacional de Alimentação e Nutrição Infantil (ENANI), em 15 mil domicílios de 123 municípios que abrigam crianças menores de 5 anos. A meta é buscar mapear a situação de saúde e nutrição de crianças em todo o país, com informações detalhadas sobre hábitos alimentares, crescimento e desenvolvimento, tendo como um dos focos o combate à obesidade. A adesão das famílias é voluntária.
Em alguns países, como nos EUA, Espanha, Canadá, Escócia e Inglaterra, a obesidade infantil já é considerada, inclusive, um ato de maus tratos e negligência e que isso pode gerar até a perda da guarda do filho, como destaca o professor de direito Thiago Felipe Avanci, no trabalho “Obesidade, Saúde e Direitos Fundamentais da Criança e Adolescente”.
Devido ao tamanho da relevância deste tema, a Doutora em Endocrinologia Maria Angela Zaccarelli Marino, professora e pesquisadora da Faculdade de Medicina do ABC e neuroendocrinologista do Instituto Neurológico de São Paulo, fala a respeito da obesidade especialmente na infância e adolescência, contribuindo com constatações em pesquisas feitas sob sua coordenação, nos últimos anos, em entrevista especial ao Blog Cidadãos do Mundo – jornalista Sucena Shkrada Resk.
Doutora em Endocrinologia Maria Angela Zaccarelli Marino - Foto: Divulgação
Blog Cidadãos do Mundo - Como os ambientes escolar e familiar podem contribuir para inibir o aumento progressivo da obesidade em crianças e adolescentes?
Maria Angela Zaccarelli Marino - A obesidade é caracterizada como multifatorial, sendo que interações entre fatores ambientais, comportamentais, culturais, genéticos, fisiológicos e psicológicos são a principal causa e acredita-se que estes fatores são mais relevantes em sua incidência do que os fatores genéticos. Estas considerações vêm ao encontro com os resultados deste trabalho, pois os hábitos alimentares orientados pelas nutricionistas dentro das escolas tiveram influência, possivelmente, no menor número de estudantes com obesidade nas escolas em período integral. A qualidade de vida reflete diretamente na saúde das pessoas, e pode ser promovida pela alimentação e estilo de vida adequados, revelando a grande importância da nutrição na saúde.
Nas escolas onde os estudantes permaneciam apenas meio período, observamos um maior número de estudantes com obesidade. A permanência destes alunos em ambiente domiciliar, sem orientação alimentar, pode ter contribuído para este aumento. Pais com obesidade geralmente refletem seu estado nutricional nos filhos, os quais podem desenvolver algum grau de excesso de peso.
Blog Cidadãos do Mundo - Pode-se dizer que a obesidade é tão perigosa quanto à subnutrição relacionada à fome? Qual é o panorama do Brasil hoje, tendo em vista que ambas são consideradas os dois grandes males que atingem a América Latina e Caribe, de acordo com informe publicado recentemente pela Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) e pela FAO, afetando um quarto da população regional?
Maria Angela Zaccarelli Marino - O consumo alimentar, tanto nos adolescentes como nas crianças, é estabelecido por valores socioculturais, alimentos consumidos com influência da mídia, sedentarismo, imagem corporal e conveniências sociais. No Brasil, a prevalência de obesidade nos adolescentes aumentou de 4,1% para 13,9% e a prevalência de desnutrição infantil diminuiu de 19,8% para 7,6%.
Quanto ao câncer, os estudos estão sendo realizados, e atualmente sabemos que o maior órgão endócrino é o tecido adiposo, com a secreção de hormônios e suas consequências, como a puberdade adiantada em meninas.
Blog Cidadãos do Mundo – Quais são as orientações alimentares e de mudanças de hábitos para se evitar o risco da obesidade em uma sociedade de consumo imediatista?
Maria Angela Zaccarelli Marino - O estímulo à vida sedentária, com os avanços tecnológicos nos dias de hoje, como DVDs, computadores, vídeo-games, televisão, internet, automóveis, não orienta a população adulta e infantil para o hábito de caminhadas, corridas e outras formas de exercícios. Em conjunto com os erros alimentares, o ambiente vem se tornando obesogênico.
Algumas ações de promoção da saúde, estimulando implementação de programas de educação alimentar e atividade física nas escolas e incentivo para mudanças na qualidade dos alimentos oferecidos nas cantinas escolares, são estratégias para a profilaxia dos maus hábitos alimentares, já iniciados na infância.
Também é de extrema importância a orientação alimentar compartilhada com todos os membros da família, mesmo com os que não são portadores de sobrepeso ou obesidade. Os hábitos alimentares saudáveis, ensinados nas escolas, podem e devem corrigir os erros alimentares dos adultos que foram mal informados a respeito da alimentação em geral, e assim são os filhos que vão ensinar aos pais, os corretos novos hábitos.
Veja também no Blog Cidadãos do Mundo (desde 2007, voltado às áreas de cidadania, socioambientalismo e sustentabilidade) artigos referentes a esse e outros temas, ao longo dos últimos anos. É só consultar na busca.
*Sucena Shkrada Resk é jornalista, formada há 27 anos, pela PUC-SP, com especializações lato sensu em Meio Ambiente e Sociedade e em Política Internacional, pela FESPSP, e autora do Blog Cidadãos do Mundo.
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