Amazônia Biodiversidade Destaques

Sem a Moratória da Soja, a Amazônia pode perder mais 1,4 milhão de hectares em dez anos, estima o WWF-Brasil

Escrito por Neo Mondo | 8 de outubro de 2026

Compartilhe:

Moratória da Soja perdeu as maiores tradings em janeiro de 2026, numa Amazônia em que estradas como a BR-364 já cortam extensas áreas desmatadas para monoculturas, como neste trecho com fila de caminhões em Alto Paraíso, Rondônia - Foto: Divulgação/WWF

POR - OSCAR LOPES, PUBLISHER DO NEO MONDO

O Brasil respondeu por quase 60% das atualizações e inclusões de dados na nova edição do Índice Planeta Vivo. Foram cerca de mil linhas entre populações novas e revisadas, enviadas por uma equipe da qual faz parte Helga Correa, especialista em Conservação do WWF-Brasil. Mesmo assim, o volume cobre uma fração pequena da fauna do país, e o resultado não traz alívio. Segundo o Relatório Planeta Vivo 2026, divulgado pelo WWF na quarta-feira (7), a América Latina e o Caribe tiveram a queda mais rápida do planeta: 95% nas populações monitoradas de animais silvestres desde 1970.

Leia também: Populações de animais silvestres caem 73% em 52 anos, e a América Latina lidera a perda com 95%

Leia também: 790 espécies sob risco: o Brasil publica seu retrato mais detalhado da fauna ameaçada

Nesta entrevista ao Neo Mondo, Helga traz um número que não está no relatório. O WWF-Brasil estima que o fim da Moratória da Soja pode somar 1,4 milhão de hectares de desmatamento na Amazônia em dez anos e deixar até 28,7 milhões de hectares de florestas públicas sob pressão de especulação fundiária. Ela também comenta a decisão do Supremo Tribunal Federal que, em agosto, reconheceu a moratória como constitucional, mas manteve as leis estaduais que punem empresas com regras ambientais mais rígidas. E explica por que o enquadramento de esperança adotado pelo WWF não deve ser lido como alívio. A conversa acontece a poucos dias da COP17 da Biodiversidade, em Yerevan, na Armênia.

Helga Correa - Foto: Jacqueline Lisboa/WWF-Brasil

O Relatório Planeta Vivo 2026 mostra que a América Latina e o Caribe tiveram a queda mais rápida entre todas as regiões do mundo: 95% desde 1970. Você trabalhou nos dados brasileiros do relatório. Quanto do Brasil existe dentro desse número, e quais grupos de espécies puxam essa queda?

O relatório Planeta Vivo não mostra uma tendência favorável para a biodiversidade e para o planeta como um todo. No caso do Brasil, temos ampliado cada vez mais a nossa colaboração para o índice. Somente na última edição, contribuímos com cerca de mil linhas entre atualizações e inclusão de novas populações. Isso é bastante, quase 60% das atualizações e inclusões ao banco de dados do LPI. Apesar de ser um acréscimo expressivo quando comparado com os outros países, sabemos que ainda é um número pequeno quando pensamos no número de espécies da biodiversidade brasileira, o que mostra o quanto é importante investirmos em monitoramento e pesquisa da nossa biodiversidade. Essa limitação, entretanto, não nos impede de compreender o alerta que esse número traz: estamos perdendo biodiversidade, as nossas populações naturais estão diminuindo. Principalmente nos locais onde ocorre desmatamento e degradação de hábitats, populações estão desaparecendo totalmente, pois não têm onde encontrar alimento, abrigo e água. Não realizamos, contudo, uma avaliação específica para os grupos de espécies que estão influenciando os resultados para o Brasil.

As populações de água doce caíram 85% no índice global. No Nordeste, os recifes de Pernambuco e Alagoas perderam 66% da cobertura de coral entre 2019 e 2024. O que esses dois dados revelam sobre o estado dos rios e do mar no Brasil?

Nós não temos um número desagregado, ou seja, calculado de forma separada, para a biodiversidade aquática do Brasil. Entretanto, os números globais, associados ao que observamos em relação à degradação dos ambientes fluviais e marinhos no país, podem nos ajudar a construir um quadro nacional. A tendência de redução mais acentuada de populações de água doce em comparação aos demais grupos é uma possibilidade real para o Brasil, considerando o ritmo de degradação e poluição dos sistemas de água doce, que também são alvo das mudanças climáticas no país. Além disso, várias populações de peixes são base da alimentação humana e apresentam eventos de mortalidade em massa, como vimos em 2024 em regiões como Tefé e Santarém, na Amazônia brasileira. Assim, a biodiversidade sinaliza que não está bem, refletindo que ainda temos uma atitude negligente em relação aos rios e mares no Brasil.

O WWF-Brasil cita a recuperação das onças-pintadas na região de Iguaçu, de 11 indivíduos em 2019 para 42 em 2025. A que área e a que levantamento se referem esses números?

Esses números referem-se à população de onças-pintadas monitorada no Parque Nacional do Iguaçu. O levantamento é realizado pelo Projeto Onças do Iguaçu, iniciativa dedicada ao monitoramento e à conservação da espécie na região, com uso de armadilhas fotográficas para identificar e acompanhar os indivíduos ao longo do tempo. O trabalho é liderado pelo Instituto Pró-Carnívoros, em parceria com o WWF-Brasil e outras instituições envolvidas na conservação da biodiversidade da região.

O censo do Corredor Verde, divulgado em 2025, estimou 23 onças no lado brasileiro do parque em 2024. O que explica a diferença em relação aos 42 indivíduos de 2025?

A metodologia do censo considera um recorte de determinado período para a realização das análises estatísticas. Já o monitoramento no Parque Nacional do Iguaçu é contínuo, o que permite obter dados mais detalhados e refinados.

O relatório dedica um quadro à Moratória da Soja, que derrubou de quase 30% para 2% a fatia da expansão da soja sobre floresta na Amazônia. Em janeiro de 2026, as tradings ligadas à Abiove deixaram o acordo, depois que uma lei de Mato Grosso passou a punir com corte de incentivos fiscais quem adota critérios ambientais além da legislação. O que muda para a Amazônia, e que recado isso dá para outros acordos voluntários, como os da cadeia da carne?

O que muda é que a Amazônia perde uma das principais barreiras de mercado contra o desmatamento para a produção de soja. A Moratória funcionava porque era coletiva: praticamente todo o mercado comprador aplicava a mesma regra, com a mesma data de corte e monitoramento independente. Quem desmatava sabia que não teria para quem vender. Sem isso, o desmatamento volta a ter mercado, inclusive quando legalmente autorizado, e abrir floresta para especular com a chegada da soja volta a ser um bom negócio. O WWF-Brasil estima que o fim do acordo pode gerar 1,4 milhão de hectares de desmatamento adicional na Amazônia em dez anos. Além disso, até 28,7 milhões de hectares de florestas públicas ficam sob maior pressão de especulação fundiária e de desmatamento especulativo.

Esse efeito não aparece de um ano para o outro. A queda recente do desmatamento reflete, sobretudo, a fiscalização, e a decisão de desmatar responde a expectativas de longo prazo. Compromissos individuais das empresas também não substituem o acordo: sem regra comum e transparência, o produtor recusado por uma trading vende para outra.

O recado para outros acordos é duplo. Em agosto, o STF reconheceu que a Moratória é constitucional, mas validou as leis estaduais que retiram incentivos de quem adota regras ambientais mais rigorosas. Ou seja, o compromisso voluntário é legítimo, mas pode ser punido, seja na cadeia da soja, da carne, do couro, do milho, do algodão, do café ou de qualquer outra commodity. Isso expõe os acordos da pecuária e os compromissos no Cerrado à mesma estratégia: basta um estado copiar a lei. A lição é que acordos voluntários, mesmo os mais bem-sucedidos, são frágeis quando ficam sozinhos. Eles precisam estar ancorados em políticas públicas, rastreabilidade e exigências do setor financeiro e dos mercados compradores. E o risco não desaparece com a saída do acordo: ele volta para as empresas, na forma de risco reputacional, comercial e climático.

Em 2025, o desmatamento caiu em todos os biomas brasileiros, mas o índice do relatório vai só até 2022. Quanto tempo leva para uma queda no desmatamento aparecer como recuperação das populações de animais?

Parar o desmatamento influencia a perda de populações, mas, para vermos a recuperação dessas populações, temos não só de interromper as pressões que as reduzem, mas de investir em restauração e regeneração da vegetação nativa, para que elas tenham mais hábitat, alimento e todas as demais condições para crescer. A meta do Planaveg, de recuperar 12 milhões de hectares, é um compromisso que colabora para isso.

O WWF batizou esta edição de "A Ciência da Esperança". Com uma queda de 95% na região, esse enquadramento não corre o risco de suavizar a mensagem para quem toma decisões?

A ciência da esperança é um elemento-chave para que consigamos atingir as mudanças necessárias para reduzir o ritmo das crises climática e ambiental. O índice referente à América Latina permanece negativo, mas é exatamente a nossa capacidade de agir de forma coordenada, com objetivos e caminhos definidos, que vai permitir a mudança necessária. A esperança, conforme é apresentada no relatório, não é um suavizador da realidade, mas um estímulo em relação ao compromisso e à resiliência necessários. Assim, aprender com as experiências exitosas e persistir nas ações, nas negociações e na resistência é a única forma de construirmos um futuro sustentável para as pessoas e para a biodiversidade, em um planeta vivo.

A COP17 da Biodiversidade começa em 19 de outubro, em Yerevan. O relatório mostra que, em 2023, US$ 7,3 trilhões financiaram atividades que prejudicam a natureza, contra US$ 220 bilhões para proteção e restauração. O que o Brasil precisa levar para a conferência, e onde o país pode começar a mudar essa proporção?

A redução dos subsídios perversos, prevista nas Metas 18 e 19, é fundamental. É um contrassenso destinarmos tantos recursos públicos a atividades que aumentam nossa dívida com o planeta e, ao mesmo tempo, financiarmos tão pouco as ações que podem enfrentar e reverter as crises de biodiversidade e climática.

O Brasil ainda tem muito a fazer internamente. Ao assumir e internalizar essas metas, porém, o país também assumiu o compromisso de avançar rapidamente na identificação e redução dos incentivos que prejudicam a natureza. Isso exige um plano claro, com metas, prazos e instrumentos capazes de mudar gradualmente essa lógica de financiamento.

Mas esse esforço não pode acontecer de forma isolada. Não adianta um país reduzir subsídios perversos enquanto outros continuam incentivando atividades que degradam a natureza. Precisamos, ao mesmo tempo, ampliar e fortalecer mecanismos inovadores de financiamento da conservação, como o TFFF e o ARPA, criando condições para que os recursos sejam direcionados a atividades que mantêm a floresta em pé, protegem a biodiversidade e nós, seres humanos, e contribuem para enfrentar as crises climática e da natureza.

A COP17 acontece de 19 a 30 de outubro, em Yerevan. Na mesa estarão as Metas 18 e 19 do Marco Global da Biodiversidade de Kunming-Montreal. Elas preveem reduzir em pelo menos US$ 500 bilhões por ano, até 2030, os incentivos que prejudicam a natureza e mobilizar ao menos US$ 200 bilhões anuais para a biodiversidade. Em 2023, segundo o Relatório Planeta Vivo, o mundo ainda destinou US$ 7,3 trilhões a atividades que prejudicam a natureza.

Compartilhe:


Artigos anteriores:

positiv.a lança linha para bebês sem petroquímicos, formulada com mães

Um quarto da vegetação perdida no Cerrado ficava a menos de 500 metros de um rio

Populações de animais silvestres caem 73% em 52 anos, e a América Latina lidera a perda com 95%


Artigos relacionados