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Indígenas guardam um terço do carbono do planeta

Escrito por Neo Mondo | 16 de junho de 2026

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Indígenas Maasai em aldeia no Serengeti, Tanzânia - Foto: Leslie Russel

POR - OSCAR LOPES, PUBLISHER DO NEO MONDO

Por um momento, considere o que a ciência levou décadas para nomear e os anciãos Pokot, no Quênia, nunca precisaram escrever: que a terra tem memória, que ela responde ao modo como é tratada, e que essa resposta atravessa gerações. Na assembleia tradicional conhecida como Kokwo, decisões sobre o uso do solo são tomadas por meio de histórias e cantos que carregam, embutidos na melodia, séculos de observação ecológica. Nenhum modelo computacional foi necessário. Nenhuma política pública as patrocinou. E, ainda assim, os ecossistemas sob sua custódia seguem entre os mais íntegros do planeta.

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Um estudo publicado na revista Humanities and Social Sciences Communications quantificou, pela primeira vez com essa abrangência, o que está em jogo quando essa custódia é ignorada. Conduzida pela Conservation International com a participação de pesquisadores que se identificam como indígenas, a pesquisa ouviu membros de 43 comunidades distribuídas por seis continentes — da Amazônia brasileira às montanhas da Indonésia, das estepes da Tanzânia às florestas de Papua-Nova Guiné. O resultado não é uma celebração do exótico. É uma auditoria do que o mundo perde quando trata o conhecimento indígena como folclore em vez de infraestrutura.

Os territórios sob gestão de povos indígenas armazenam mais de um terço do chamado carbono irrecuperável do planeta — aquele que, uma vez liberado para a atmosfera, não pode ser reabsorvido em tempo hábil para evitar um colapso climático. A mesma extensão abriga mais de 60% dos mamíferos terrestres em pelo menos 10% de sua distribuição geográfica. Esses números não resultam de políticas de conservação desenhadas em conferências internacionais. Resultam de normas consuetudinári­as, transmitidas oralmente, que regulam desde a época do corte do capim até o silêncio obrigatório nas margens dos rios durante a desova do salmão — como praticam os Yukaghir, na Rússia.

"O alto armazenamento de carbono e a biodiversidade presentes nesses territórios não são coincidência", afirma Sushma Shrestha, diretora de ciência indígena da Conservation International e autora principal do estudo. "Eles existem graças à presença contínua dos povos indígenas, e não apesar dela." A distinção é mais do que semântica. Ela inverte a lógica predominante nas políticas ambientais globais, que historicamente tratou a proteção da natureza como algo a ser feito *para* as comunidades locais — ou, pior, *apesar* delas.

A pesquisa mapeou práticas que desafiam a fronteira entre cultura e ciência. No Brasil, o povo Mamoadate protege árvores frutíferas silvestres e palmeiras essenciais para a fauna local — não como política ambiental, mas como parte de uma cosmologia em que a floresta é sujeito, não recurso. No Equador, comunidades Kichwa proíbem a caça de fêmeas de anta e onça-pintada durante períodos específicos, uma forma de manejo populacional que a biologia da conservação só recentemente passou a recomendar formalmente. Na Indonésia, famílias Batak Toba vedam o desmatamento nas margens dos rios para proteger as fontes de água doce — uma regra que coincide, ponto a ponto, com o que os manuais de hidrologia prescrevem como zona de amortecimento ripária.

A sobreposição não é acidental. É o resultado de milênios de observação sistemática, não escrita, mas não menos rigorosa. "O que vocês chamam de gestão do uso da terra já foi planejado desde a origem", disse um entrevistado do povo Uitoto, na Colômbia. "Nossos avós conhecem a terra e a administram de acordo com a lei de origem. Já existe um ordenamento." A frase sintetiza uma epistemologia que o debate climático global ainda não sabe como incorporar — e que o estudo argumenta ser, hoje, uma das ferramentas de conservação mais efetivas disponíveis.

O paradoxo documentado pelo estudo é tanto ecológico quanto político. Enquanto os territórios indígenas funcionam como reservatórios de carbono e abrigo de biodiversidade em escala equivalente ou superior às áreas protegidas pelos Estados nacionais, esses mesmos territórios enfrentam pressões crescentes. Entre 2018 e 2024, perderam 2 bilhões de toneladas métricas de carbono irrecuperável — equivalente às emissões anuais de aproximadamente 1,7 bilhão de automóveis movidos a gasolina — devido à mineração, à expansão agropecuária e aos incêndios. Mais de 60% das pessoas ouvidas na pesquisa relataram interferência direta de indústrias extrativas ou projetos de infraestrutura em suas terras.

A dimensão jurídica agrava o quadro. Pesquisas anteriores estimam que os povos indígenas e comunidades locais administram pelo menos metade das terras naturais do planeta, mas seus direitos estão formalmente reconhecidos em apenas 19% desses territórios. Sem titulação legal, não há capacidade de investimento na gestão territorial, nem proteção efetiva contra a grilagem. A conservação mais eficaz do mundo opera, portanto, em grande parte, sem respaldo do Estado que deveria garanti-la.

O financiamento segue a mesma lógica perversa. Embora representem cerca de 5% da população global e sejam responsáveis pela proteção de 80% da biodiversidade remanescente do planeta, segundo dados da ONU, os povos indígenas recebem menos de 1% do financiamento climático internacional. O dinheiro existe — ou ao menos foi prometido. Na COP16, realizada em Cali em outubro de 2024, países desenvolvidos reafirmaram compromissos de aportar US$ 20 bilhões anuais até 2025 para a proteção da biodiversidade. Até o encerramento da conferência, o valor efetivamente mobilizado não chegava a 2% desse total. O mecanismo de financiamento direto às organizações indígenas, reivindicado há décadas, saiu da COP16 sem garantias concretas de implementação.

"O conhecimento indígena sustenta alguns dos esforços de conservação mais eficazes do mundo e, ainda assim, por muito tempo foi ignorado, minimizado ou relegado ao segundo plano", disse Johnson Cerda, coautor do estudo e responsável pelo trabalho da Conservation International com povos indígenas e comunidades locais. "Em um momento em que as crises do clima e da biodiversidade se intensificam, ouvir as comunidades indígenas é uma questão de sobrevivência."

O estudo registra também uma erosão que não é apenas material. A mudança climática corrói, antes de tudo, o substrato sobre o qual o conhecimento indígena opera: os padrões. "Havia pequenos sinais, como observar as formigas para saber quando iria chover, mas as pessoas já não podem confiar no conhecimento tradicional porque ele se baseava em padrões", disse um entrevistado do povo Wapichan, na Guiana. "Agora esses padrões desapareceram." Um conhecimento construído durante séculos de estabilidade climática relativa está sendo desatualizado pela instabilidade que ele mesmo ajudava a conter — e que as políticas que o ignoraram contribuíram para acelerar.

Todos os 100% das pessoas ouvidas na pesquisa afirmaram ter observado mudanças no clima e nas condições meteorológicas de seus territórios. A unanimidade não é retórica. É o dado mais perturbador do estudo: a linha de frente da crise climática não está nos modelos de projeção dos centros de pesquisa. Está nas comunidades que nunca foram adequadamente incluídas na construção das respostas.

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