Dia Mundial do Meio Ambiente e Oceano 2026

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Dia Mundial do
Meio Ambiente e Oceano 2026

Marina Silva sobre o Brasil, a floresta e os limites do poder

Escrito por Neo Mondo | 5 de junho de 2026

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Marina Silva durante audiência no Senado Federal. Para a ex-ministra, a proteção ambiental no Brasil depende, fundamentalmente, da manutenção da democracia — e é sempre vulnerável a quem ocupa o poder - Foto: Geraldo Magela / Agência Senado

POR - OSCAR LOPES, PUBLISHER DO NEO MONDO

Marina Silva não precisa de apresentação — mas precisa de enquadramento. Poucas figuras da política brasileira carregam, simultaneamente, tanto capital simbólico e tanta tensão não resolvida. Duas passagens pelo Ministério do Meio Ambiente, separadas por quinze anos e por uma ruptura que nunca foi inteiramente explicada em público. Uma trajetória que começa na floresta, no seringal do Acre, e chega ao centro das negociações climáticas globais. Uma voz que o mundo reconhece como referência — e que o Brasil, com frequência, trata como inconveniente.

Esta entrevista não é sobre o governo. Não é sobre episódios, nomes ou disputas de bastidor. É sobre o que duas décadas no centro da política ambiental brasileira ensinam a respeito do que funciona, do que falha e por quê — e sobre o que ainda falta para que o Brasil trate o colapso do sistema Terra-Oceano com a seriedade que ele exige.

Marina Silva saiu do Ministério do Meio Ambiente pela segunda vez no início de 2025. O que ficou não é apenas um cargo vago — é uma pergunta sobre os limites estruturais de qualquer política ambiental dentro do modelo político atual. É essa pergunta que esta conversa tenta, com rigor e sem concessões, responder.

O especial que enquadra esta entrevista parte de uma premissa científica: Terra e oceano são um único sistema, e tratá-los separadamente é um erro de leitura que tem custo real. Na sua experiência como ministra — em dois governos, em contextos históricos distintos — essa integração já estava presente nas políticas públicas brasileiras, ou a fragmentação entre agendas sempre foi o padrão?

A compreensão de que terra, água, floresta, oceano, clima e biodiversidade fazem parte de um único sistema sempre esteve presente na melhor ciência e na visão das populações tradicionais e indígenas. Os povos costeiros, os pescadores artesanais, as comunidades ribeirinhas e extrativistas nunca separaram a vida em compartimentos. Essa separação é muito mais uma construção institucional e econômica do que uma leitura verdadeira da natureza.

Nas políticas públicas, infelizmente, a fragmentação foi por muito tempo o padrão. Isso tem custo real, porque os problemas não obedecem às fronteiras administrativas que nós criamos. O desmatamento altera o regime de chuvas, que afeta os rios, que chegam ao mar; a poluição urbana e industrial chega aos oceanos; a crise climática aquece a atmosfera e acidifica as águas. Tudo está interligado.

Desde 2003, buscamos enfrentar essa fragmentação, estabelecendo a política ambiental brasileira como política transversal — não mais meramente setorial. Operamos com instrumentos integrados: planos de prevenção e controle do desmatamento, políticas de enfrentamento ao clima, conservação da biodiversidade, recursos hídricos, gestão territorial. Mas é preciso reconhecer que ainda temos um caminho importante a percorrer. O grande desafio agora é fazer com que essa integração se torne desenho institucional, orçamento, planejamento, licenciamento e investimento. A natureza funciona como sistema. O Estado precisa aprender a funcionar também.

O oceano regula o clima, absorve carbono, gera oxigênio e sustenta cadeias alimentares globais — e ainda é sistematicamente ausente das negociações climáticas mais relevantes. Na COP30, em Belém, houve avanços, mas a assimetria persiste. Por que a governança global do oceano segue tão aquém da sua importância estratégica — e o Brasil, que tem uma das maiores zonas econômicas exclusivas do mundo, está usando esse ativo como deveria?

O oceano é uma das grandes bases de sustentação da vida no planeta. Regula o clima, absorve carbono, influencia o regime de chuvas, abriga biodiversidade imensa e sustenta a segurança alimentar de milhões de pessoas. No entanto, durante muito tempo, foi tratado como periferia das negociações climáticas. Essa é uma contradição grave.

A governança do oceano é complexa — envolve águas nacionais e internacionais, interesses econômicos muito fortes, pesca, transporte, energia, mineração, conservação e soberania. E aquilo que é de todos acaba sendo tratado como se não fosse responsabilidade de ninguém. É a tragédia dos bens comuns em escala planetária.

Na COP30, em Belém, houve avanços ao dar maior centralidade política ao oceano dentro do debate climático. Mas ainda estamos longe de uma governança compatível com sua importância estratégica. O Brasil tem uma responsabilidade enorme. A Amazônia Azul corresponde a cerca de 3,6 milhões de km² somando Zona Econômica Exclusiva e Plataforma Continental. Isso tem de ser visto não apenas como potencial econômico ou geopolítico, mas como responsabilidade ecológica, climática e civilizatória.

O Brasil tem uma posição geopolítica singular: a maior floresta tropical do planeta, o maior sistema de água doce continental, uma costa de mais de 7 mil quilômetros e a Amazônia Azul. Mas a narrativa brasileira sobre meio ambiente ainda é dominantemente terrestre — floresta, desmatamento, agronegócio. O que explica essa cegueira em relação ao oceano como ativo estratégico nacional?

Essa cegueira tem raízes históricas, culturais, políticas e econômicas. O Brasil nasceu olhando para o litoral, mas se constituiu politicamente como um país voltado para a ocupação do território terrestre. A fronteira agrícola, a mineração, a disputa pela terra — tudo isso passou a organizar grande parte da nossa agenda ambiental.

O oceano foi menos incorporado ao imaginário nacional e às prioridades de Estado. Muitas vezes aparece como paisagem, lazer ou rota de comércio — mas não como sistema vivo, regulador climático, território de biodiversidade e espaço de direitos para povos e comunidades costeiras. A força da agenda amazônica é legítima e necessária. O erro está em colocar a Amazônia terrestre e a Amazônia Azul em campos separados. Elas fazem parte de um mesmo projeto de país.

O Brasil precisa construir uma narrativa ambiental à altura de sua geografia. Somos país-floresta, país-água, país-biodiversidade e também país-oceano. Incorporar a Amazônia Azul à estratégia nacional é uma questão de soberania, segurança climática, proteção da biodiversidade e justiça social para as populações costeiras.

As ciências do sistema Terra acumularam nas últimas décadas um volume de evidências que deveria ser suficiente para reorganizar prioridades de governo, investimento e regulação. Mas a distância entre o que a ciência já sabe e o que a política implementa continua enorme. Na sua leitura, esse gap é um problema de comunicação, de vontade política ou de arquitetura institucional?

Esta lacuna decorre, sobretudo em governos autoritários e negacionistas, da falta de compromisso ético. A ciência é enfática e há anos aponta o caminho: para que o mundo atinja a neutralidade climática até 2050, precisamos urgentemente do fim do desmatamento e de uma transição justa para o fim do uso de combustíveis fósseis. No entanto, muitas lideranças políticas e do setor privado continuam assistindo mais do que agindo, se omitindo mais do que se comprometendo — como se estivessem acometidas pela síndrome do espectador climático.

Já temos praticamente todas as respostas técnicas para enfrentar a mudança do clima, a perda de biodiversidade e a crise hídrica. O que nos falta é o compromisso ético para colocar a técnica a serviço de acelerar nossas decisões políticas. Na COP30, o presidente Lula propôs mapas do caminho para superar a dependência dos combustíveis fósseis e acabar com o desmatamento. As propostas não foram contempladas nos documentos finais, mas o tema angariou o apoio de mais de 80 países que seguem mobilizados. É um exemplo de como a dimensão ética pode dar suporte às decisões políticas com base nas soluções técnicas de que já dispomos.

A transição energética é apresentada como solução — mas ela tem contradições internas que raramente entram no debate público: mineração de fundos marinhos para extração de minerais críticos, energia eólica offshore com impacto sobre ecossistemas costeiros, expansão de monoculturas para biocombustíveis. Como uma política ambiental séria lida com as tensões internas da própria agenda da descarbonização?

Por muito tempo, a agenda ambiental foi encarada como proibitiva. Minha missão foi mostrar que isso é uma falácia. Em alguns casos em que o empreendimento é totalmente incompatível à proteção ambiental, os órgãos ambientais se colocarão do lado da proteção — para evitar a repetição de tragédias como Mariana e Brumadinho. Mas na maior parte das situações, o papel da política ambiental não é dizer que determinadas obras não podem ser feitas. É apontar como fazê-las.

Um exemplo recente é a criação do Parque Nacional do Albardão, no Rio Grande do Sul — o maior fora da Amazônia. A partir de um processo de consulta à sociedade, aos setores produtivos e ao governo estadual, criamos um desenho que respeitou áreas com potencial de produção de energia eólica. Foi possível atender a uma demanda histórica pela proteção de um hotspot de biodiversidade no Atlântico Sul sem prejudicar o desenvolvimento econômico. O caminho para integrar desenvolvimento e proteção ambiental precisa ser construído com escuta e diálogo constante. Essa é a saída para superar as contradições — não a escolha entre um e outro.

Há um argumento crescente entre economistas e gestores de risco de que a crise ambiental — clima, perda de biodiversidade, colapso dos oceanos — já é risco sistêmico precificável, não externalidade futura. Você vê, na classe política e no empresariado brasileiro, uma compreensão real dessa mudança de natureza do problema — ou ainda estamos tratando o colapso ecológico como pauta de imagem?

O enfrentamento à mudança do clima não caminha com a urgência necessária. Mas a vantagem de estar nesta luta há tantos anos é reconhecer os avanços reais, mesmo em meio às resistências. Há cada vez mais quadros políticos comprometidos com a agenda ambiental. E vejo crescer no setor privado a percepção de que proteger a biodiversidade e enfrentar o clima não é apenas uma necessidade para a sobrevivência humana — é uma oportunidade de negócios.

O Fundo Clima alavancou R$ 34,6 bilhões em 2025 para transição energética, indústria verde e florestas nativas. O programa Eco Invest Brasil já realizou cinco leilões para atrair investimentos internacionais em recuperação de terras degradadas e bioeconomia. Somados o Fundo Amazônia, o Fundo Clima, o TFFF e o Eco Invest Brasil, já são mais de R$ 350 bilhões sendo aplicados nas agendas de transformação ecológica do país. Esses números mostram que o setor privado tem apetite real por iniciativas que promovem desenvolvimento sustentável. O desafio é manter a consistência política que torna esse apetite produtivo.

O Brasil construiu, ao longo de décadas, um aparato regulatório ambiental que é referência mundial — Ibama, legislação florestal, sistemas de monitoramento por satélite. E ainda assim as taxas de degradação seguem altas. O problema é de enforcement, de financiamento, de vontade política — ou há algo estrutural no modelo de Estado brasileiro que torna a proteção ambiental sempre vulnerável à próxima mudança de governo?

O avanço da agenda ambiental depende, fundamentalmente, da manutenção da democracia. O que pode comprometer a implementação da legislação ambiental são governos que negam a mudança do clima, atacam Terras Indígenas e Unidades de Conservação e desmontam os órgãos responsáveis pela proteção ambiental. Isso ocorreu pelas mãos do presidente Bolsonaro — e refazer essa governança foi um trabalho hercúleo a partir de janeiro de 2023.

A atuação do Congresso Nacional também é decisiva. A aprovação da lei que enfraqueceu o licenciamento ambiental e do pacote que praticamente inviabilizou os embargos remotos são exemplos de como outros atores podem minar a estratégia do governo federal. Esse é o limite estrutural mais difícil de resolver dentro da democracia — e também o mais urgente de enfrentar.

Você acaba de sair do Ministério e se prepara para uma nova fase política. O que duas décadas no centro da política ambiental brasileira — com todas as suas vitórias e seus limites — te ensinaram sobre o que o Brasil precisaria mudar, não na margem, mas na estrutura, para tratar o colapso do sistema Terra-Oceano com a seriedade que ele exige?

Duas décadas me ensinaram algumas coisas que não mudam. A primeira: em um governo democrático, as soluções são mais criativas, mais duradouras e eficazes — porque se faz política pública com base na experiência dos entes federados, na ciência e nos conhecimentos trazidos pelos diferentes segmentos da sociedade.

A segunda: quando a política ambiental deixa de ser setorial e passa a ser transversal, isso faz toda a diferença. Promovem-se inflexões em áreas estratégicas que nenhuma política isolada alcança.

A terceira: políticas públicas bem desenhadas e instituições fortalecidas são o que garante continuidade além de uma gestão. Não basta dizer o que não pode — é preciso criar o como pode. Precisamos caminhar na direção de um novo ciclo de prosperidade capaz de respeitar nossa diversidade, combater desigualdades e unir democracia e sustentabilidade. Isso só acontece em um ambiente de cooperação — interna, regional e global. É assim que vamos conseguir fazer a diferença.

Marina Silva não oferece certezas — e essa é, talvez, a marca mais honesta de quem passou duas décadas tentando mover estruturas que resistem a ser movidas. O que ela oferece é diagnóstico: preciso, historicamente fundado e, por isso mesmo, desconfortável. A dissociação entre o discurso ambiental brasileiro e a prática não é acidente nem falha de gestão. É um produto de escolhas — políticas, econômicas, institucionais — que se repetem porque quem as faz raramente arca com as consequências.

O especial O Planeta Fora de Equilíbrio continua. Da política e de seus limites, a conversa se move agora para a ciência — para quem, longe dos palácios e das cúpulas, acumula há décadas os dados que deveriam orientar as decisões que a política adia. A floresta que arde, a espécie que desaparece, o oceano que aquece: esses fenômenos têm nomes, têm métricas e têm pesquisadores que os documentam com uma paciência que o tempo já não permite dar ao luxo de ignorar.

Este conteúdo integra o especial “O Planeta Fora de Equilíbrio: Da Terra ao Oceano”, produzido pelo Neo Mondo para aprofundar o debate sobre a crise sistêmica do planeta e suas consequências econômicas, geopolíticas e civilizatórias. Um especial Neo Mondo em parceria com a Amanco Wavin e Redemar Brasil.

régua dos patrocinadores do especial, remete a matéria Marina Silva Sobre o Brasil, a Floresta e os Limites do Poder

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