Dia Mundial do Meio Ambiente e Oceano 2026

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Meio Ambiente e Oceano 2026

A restauração que o mercado vende não é a restauração que a floresta precisa

Escrito por Neo Mondo | 5 de junho de 2026

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Restauração não é voltar ao que existia antes, mas devolver à floresta a capacidade de sustentar a vida, a biodiversidade e os ciclos que mantêm o planeta em equilíbrio - Imagem gerada por IA - Foto: Ilustrativa/Neo Mondo

POR - OSCAR LOPES, PUBLISHER DO NEO MONDO

Há uma Amazônia que aparece nos discursos de cúpula, nas metas climáticas e nos relatórios de sustentabilidade corporativa — vasta, simbólica, negociável. E há a Amazônia que Ima Vieira conhece: a do leste do Pará com 56% do território desmatado, a das comunidades que viram suas florestas arder por três verões consecutivos, a das capoeiras que tentam se reconstituir sobre solos que guardam a memória do fogo. São duas Amazônias que raramente se encontram — e essa distância tem custo mensurável.

Pesquisadora titular do Museu Paraense Emílio Goeldi, doutora em ecologia pela University of Stirling e uma das vozes científicas mais rigorosas sobre regeneração florestal e biodiversidade amazônica, Ima Vieira construiu sua trajetória a partir de dentro do bioma — não das capitais do sul nem dos centros de decisão internacionais. Suas pesquisas com a rede 2ndFOR, consórcio de mais de cem cientistas em dezoito países, produziram alguns dos dados mais incômodos sobre o tempo real de recuperação das florestas tropicais. A conclusão central: a regeneração existe, tem escala e absorve carbono — mas não desfaz o que foi destruído. Floresta secundária não é floresta primária, e confundir as duas é um erro com consequências que vão muito além da taxonomia.

Em 2024, a Amazônia registrou os maiores índices de incêndios florestais já documentados — mais de 16 milhões de hectares queimados, com emissões que superaram em 2,5 vezes as do desmatamento convencional. Na COP30, em Belém, Ima Vieira apresentou uma resposta que a política pública ainda não aprendeu a ouvir: a restauração que funciona não começa com mudas nem com contratos de carbono. Começa com as comunidades que sempre viveram na floresta e que, por isso, são as únicas que sabem como ela se reconstitui.

Florestas secundárias recuperam até 80% das espécies, mas a composição original pode levar séculos. O que esse dado diz sobre a narrativa de que restauração florestal resolve o problema do desmatamento?

Florestas secundárias se destacam por sua capacidade de acumular biomassa e recuperar riqueza de espécies em escala de décadas. Mas riqueza de espécies não é o mesmo que composição. A floresta que voltou (restauração) não é a floresta que foi perdida. As espécies raras, as de ciclo de vida longo, as que dependem de dispersores específicos e de condições microclimáticas construídas ao longo de séculos — essas não voltam em vinte anos, e muitas não voltam nunca se o contexto da paisagem estiver destruído.

Esse dado raramente entra nos acordos de compensação ambiental, nos discursos de política climática ou nas metas de restauração. O que se conta são hectares e, com frequência, árvores. Não se conta o que estava antes, nem o tempo necessário para que algo funcionalmente equivalente se reconstituísse.

Aproximadamente 40% das áreas desmatadas da Amazônia apresentam potencial de regeneração natural de médio a alto — o que torna essa estratégia uma das mais promissoras para a recuperação florestal da região. Mas ela não pode ser usada para licenciar a destruição de florestas primárias sob o argumento de que vão voltar. Isso é cientificamente incorreto e politicamente conveniente para quem tem interesse na conversão de floresta em pasto ou agricultura de larga escala. A regeneração é um processo extraordinário e deve ser incentivada — como complemento à proteção, nunca como substituto.

Em 2024, mais de 16 milhões de hectares queimaram na Amazônia. A degradação passou a ser o maior vetor de emissões do bioma. Por que esse fenômeno ainda é tratado como problema secundário na política ambiental brasileira?

A política ambiental brasileira foi construída, com muito custo e mérito, para combater o desmatamento. O PRODES, o DETER, os sistemas de monitoramento do INPE — tudo foi desenhado em torno de um problema com fronteira visível: o corte raso. E funcionou. A redução do desmatamento no Brasil foi uma conquista real e reconhecida internacionalmente.

Mas a degradação florestal opera de forma diferente. Ela não aparece nas imagens de satélite como uma cicatriz nítida. A floresta continua em pé, mas fica mais seca, mais inflamável, mais pobre ecologicamente. Quase 40% das florestas amazônicas em pé já estão degradadas em algum grau. Esse processo não tem a mesma visibilidade política que o desmatamento — e por isso não gera a mesma pressão.

Os incêndios de 2024 emitiram mais CO₂ do que o desmatamento convencional naquele período. Cada evento de fogo deixa a floresta mais vulnerável ao próximo. É uma retroalimentação que os modelos climáticos globais ainda subestimam. Mudar isso exige ampliar o objeto da política ambiental: não apenas onde a floresta desapareceu, mas onde ela está perdendo função, estrutura e resiliência. Isso demanda sistemas de monitoramento mais sofisticados, marcos legais que reconheçam a degradação como dano, e financiamento adequado para restauração que considere paisagens e territórios. Nenhum desses elementos está ainda onde precisaria estar.

Por que a restauração convencional tende a falhar, e o que torna a abordagem biocultural mais robusta do ponto de vista científico?

A restauração convencional tem um problema estrutural: trata o ecossistema florestal como se fosse um produto a ser manufaturado. Seleciona espécies por disponibilidade em viveiro, não por relevância ecológica e cultural local. Ignora o conhecimento de quem vive naquele território há gerações. E, com frequência, produz plantações de baixa diversidade que não reconstituem a funcionalidade de uma floresta.

A restauração biocultural parte de um princípio diferente: as comunidades que sofreram a perda da floresta são os melhores agentes para a sua recuperação. Elas conhecem as espécies que importam para sua alimentação, sua medicina, sua cosmologia. Elas sabem onde cada planta cresce, em que tipo de solo, em que estação. Esse conhecimento não está em nenhum manual de restauração ecológica.

Do ponto de vista científico, o que torna essa abordagem mais robusta é a integração entre o legado biocultural das florestas manejadas e os processos ecológicos de regeneração natural. Nas pesquisas que desenvolvemos com as comunidades da Resex Tapajós-Arapiuns, documentamos que essas comunidades reconhecem a vulnerabilidade do seu território ao fogo, identificam as espécies prioritárias para a restauração e têm disposição e capacidade para atuar. O que lhes falta é financiamento estruturado, reconhecimento jurídico e continuidade. A ciência que ajuda a construir esse reconhecimento é, para mim, a mais relevante que posso fazer.

Terras Indígenas e Unidades de Conservação têm menor taxa de desmatamento, mas mais de 5 milhões de hectares foram atingidos por incêndios em 2023 e 2024. O que esse dado revela sobre os limites da proteção formal?

A proteção formal foi construída sobre uma lógica de fronteira: a linha que delimita o território protegido separa o que pode ser desmatado do que não pode. Essa lógica funcionou razoavelmente bem para o desmatamento convencional. Mas o fogo não respeita linha no mapa.

O que os dados de 2023 e 2024 mostram é que territórios bem demarcados, com populações comprometidas com a conservação, podem ser devastados por incêndios que se originam fora dos seus limites — em pastagens abandonadas, em áreas de cultivo com manejo inadequado, em contextos de seca extrema. A pressão vem de fora, mas a perda é interna.

Isso coloca uma questão de responsabilidade que o ordenamento ambiental brasileiro ainda não resolveu. Quando um incêndio que começa em propriedade privada avança para uma Terra Indígena e destrói floresta manejada por comunidades que vivem ali há séculos, quem responde por isso? A cadeia de causalidade entre a ignição externa e o dano interno raramente é perseguida com a seriedade que o dano merece. Áreas protegidas precisam de planos de manejo de fogo, brigadas comunitárias treinadas e equipadas, e sistemas de alerta precoce. Isso custa dinheiro e exige vontade política — e deve ser prioridade na gestão ambiental da Amazônia.

O debate sobre o ponto de não retorno divide a comunidade científica. Como você se posiciona nesse debate, e o que os dados de campo acrescentam ao que os modelos climáticos ainda não capturam?

O ponto de não retorno não deve ser entendido como um limiar único e abrupto que a Amazônia ou ultrapassou ou não ultrapassou. É um processo heterogêneo no espaço e no tempo. Algumas partes do bioma já estão em trajetórias de degradação muito difíceis de reverter. Outras ainda têm capacidade de recuperação significativa se as pressões forem removidas.

O que os modelos climáticos globais capturam com dificuldade é a dimensão funcional da degradação. Um modelo pode estimar cobertura florestal, mas não captura que uma floresta com a mesma área pode ter perdido os dispersores que garantem sua renovação, que o banco de sementes foi destruído por incêndios recorrentes, que as espécies de ciclo longo foram removidas pela exploração seletiva. Esses são processos subvisuais na escala dos satélites, mas determinantes para a trajetória futura do ecossistema.

Florestas que perderam espécies funcionalmente importantes, que têm sub-bosque empobrecido, que sofreram episódios repetidos de fogo — essas florestas são muito mais vulneráveis ao próximo evento climático extremo do que as métricas de cobertura sugerem. A questão relevante para a política não é se o ponto de não retorno foi ou não atingido em termos abstratos. É o que precisa ser feito agora, sabendo que cada ano de inação restringe as opções futuras.

Existe uma tensão real entre escala e integridade ecológica na bioeconomia amazônica. Existe um modelo que resolve essa equação?

A bioeconomia amazônica é uma ideia correta e necessária — e por isso mesmo não pode ser tratada com romantismo. O caso do açaí é o mais documentado. A alta demanda global intensificou o manejo dos açaizeiros na várzea estuarina a ponto de reduzir diversidade taxonômica e eliminar espécies tolerantes à sombra do sub-bosque. Em algumas áreas, o que era floresta diversa está se tornando açaizal monodominante. O produto que abastece mercados nacionais e internacionais está sendo obtido à custa da biodiversidade que deveria ser o fundamento da sua sustentabilidade.

O mesmo risco existe em outras cadeias: dendê em áreas que o discurso oficial chama de degradadas, mas que incluem florestas secundárias; castanha em territórios onde a pressão por produtividade começa a alterar práticas de manejo; óleos e resinas com demanda crescente e cadeia de custódia frágil. A escala industrial tende a homogeneizar o que a diversidade de práticas locais mantinha heterogêneo.

O modelo que a ciência apoia não é uma bioeconomia industrial transplantada para o território, mas uma bioeconomia de escala territorial — organizada em torno da diversidade de produtos e práticas de cada região, com cadeias de valor que remuneram adequadamente quem produz com integridade ecológica. Isso exige políticas de compras públicas, certificação com rastreabilidade real e financiamento que chegue às comunidades. É mais complexo do que montar uma fábrica. Mas é o único modelo que não repete o problema que quer superar.

Os rios voadores regulam o ciclo hidrológico de boa parte da América do Sul, mas esse serviço ecossistêmico ainda não está precificado nem protegido como deveria. Por que?

Os rios voadores transportam volumes de vapor d'água comparáveis ao Rio Amazonas e alimentam as chuvas que sustentam a agricultura, a geração hidroelétrica e o abastecimento hídrico do Centro-Oeste, do Sudeste e do Sul do Brasil. Essa dependência está documentada em décadas de pesquisa hidrológica e climática.

E ainda assim, quando se pergunta quanto isso vale para a economia brasileira, a resposta é difícil — e politicamente inconveniente para setores que se beneficiam de tratar a Amazônia como reserva de recursos a serem convertidos em renda, sem contabilizar o que se perde na conversão.

O Brasil tem instrumentos jurídicos para avançar nisso, mas falta uma arquitetura institucional que conecte esses instrumentos a metas concretas de manutenção da função hidrológica da floresta — não apenas de cobertura florestal. Há também um problema de escala política: os estados que mais dependem dos rios voadores raramente reconhecem publicamente essa dependência como razão para defender a Amazônia. É mais fácil falar em soberania nacional do que admitir que a chuva que irrigou a soja do Mato Grosso passou primeiro pela floresta amazônica. Enquanto essa dependência não se traduzir em corresponsabilidade política e financeira, o serviço continuará sendo consumido sem ser remunerado.

Você construiu sua carreira na Amazônia, a partir de dentro. O que essa posição te permite ver que quem olha de fora frequentemente não consegue enxergar?

A primeira coisa é a escala. A Amazônia não é um lugar — é uma região com diversidade ecológica, cultural e histórica enormes. Pesquisadores que chegam com hipóteses formuladas em outros contextos frequentemente tratam o bioma como homogêneo porque seus dados foram coletados em alguns sítios durante alguns meses. Os padrões que encontram são reais, mas parciais.

A segunda é a relação entre floresta e gente. Quando comecei no Museu Goeldi, a ecologia tropical ainda tratava as populações humanas como variável a ser eliminada da equação. Décadas de pesquisa com comunidades tradicionais nos ensinaram o contrário: a floresta que hoje chamamos de primária é, em grande medida, produto de milênios de manejo humano. As castanheiras não se espalham sozinhas da forma como estão distribuídas. As palmeiras que dominam certas áreas têm a mão de gerações de coletores.

A terceira é mais difícil de articular: estar aqui me dá responsabilidade para discordar. Quando vejo políticas desenhadas em Brasília ou em centros internacionais que não correspondem à realidade do território, tenho dados e história para dizer isso. Quem pesquisa a Amazônia de dentro sabe que o debate não é entre quem quer proteger e quem quer destruir. É muito mais complexo — e a solução exige essa complexidade, não a simplificação conveniente. Nasci no Pará, construí minha vida profissional aqui e continuo aqui por escolha. Essa escolha é afetiva, mas também epistemológica.

foto de ima vieira, remete a entrevista A restauração que o mercado vende não é a restauração que a floresta precisa
Ima Vieira dedica sua trajetória científica a demonstrar que a restauração da Amazônia não depende apenas de árvores plantadas, mas do conhecimento, da permanência e do protagonismo das comunidades que vivem na floresta - Foto: Divulgação

Ima Vieira não oferece consolo. Seus dados sobre regeneração florestal são, ao mesmo tempo, uma evidência de resiliência e um alerta sobre os limites dessa resiliência — e ela recusa a tentação de transformar um no outro. A floresta pode se recuperar, mas não no ritmo que o desmatamento impõe, não na escala que os mercados de carbono prometem e não sem as comunidades que sempre foram sua memória viva. Essa distinção, aparentemente técnica, é na verdade política: ela define quem lucra com a narrativa da restauração e quem de fato restaura.

O especial O Planeta Fora de Equilíbrio continua. Da Amazônia e seus rios voadores que alimentam o clima do continente, a conversa se move agora para onde esses rios chegam — o oceano, sistema que regula o planeta e que, como a floresta, acumula dívidas que nenhum relatório ainda sabe precificar inteiramente.

Este conteúdo integra o especial “O Planeta Fora de Equilíbrio: Da Terra ao Oceano”, produzido pelo Neo Mondo para aprofundar o debate sobre a crise sistêmica do planeta e suas consequências econômicas, geopolíticas e civilizatórias. Um especial Neo Mondo em parceria com a Amanco Wavin e Redemar Brasil.

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