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QUANDO A LINGUAGEM OCULTA A NEGAÇÃO DO HUMANO

Escrito por Neo Mondo | 24 de novembro de 2025

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Um humano nunca elimina outro humano sem, simultaneamente, desumanizá-lo e desumanizar-se - Foto: Bruno Itan (corpos estendidos na Praça São Lucas)

ARTIGO

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Por - Mário Antonio Sanches*, especial para Neo Mondo

A convivência harmoniosa exige de cada pessoa o respeito e o reconhecimento da dignidade de todos os humanos envolvidos na interação social. Desse modo, ressalta-se a necessidade de reconhecer e valorizar a dignidade humana, que exige uma posição relacional: reconhecer no outro o valor que alguém atribui a si próprio. Negar a humanidade no outro exigiria, coerentemente, desvalorizar a própria.

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Quando, após uma operação policial em uma comunidade pobre, a sociedade se depara com a imagem inegável de mais de uma centena de pessoas assassinadas, restam duas opções: a) a negação ou diminuição da dignidade humana como um todo – a vida humana vale pouco e pode ser manipulada ao bel-prazer de quem detém o poder de comando na sociedade. Essa opção é muito difícil de ser aceita, pois o agressor teria que se reconhecer também pouco importante; b) afirmar que o agressor tem o verdadeiro status de humano e que o eliminado se encontra em uma categoria inferior – assim, desumaniza-se a vítima, para que o assassino possa acalentar a ilusão de que não matou um ser humano e de que a morte do outro não ameaça sua própria dignidade. Ao longo da história, esta tem sido a opção, recorrendo-se à manipulação da linguagem.

Nos idos anos de mil e seiscentos, quando os espanhóis sacrificavam os povos nativos da atual América Central, estabeleceu-se um debate entre representantes da coroa e os defensores dos povos originários: como podiam nobres cristãos espanhóis ir às terras alheias e matar outras pessoas? Um simples exercício de consciência aponta que quem faz isso não é nobre nem cristão. Essa questão, aparentemente lúcida e inequívoca, foi revertida a favor dos agressores quando se definiu que os povos das Américas não eram humanos, mas “homúnculos”. É relevante esclarecer que esse termo, para a ciência da época, equivaleria a dizer que os nativos eram “projetos de humanos”, quase equiparados ao sêmen, visto que então imperava a teoria da pré-formação. Assim, os espanhóis manipulavam a linguagem e podiam continuar vendo-se como “humanos” com a nobre missão de eliminar “não humanos”.

Esse esquema se repete em muitos outros momentos: os romanos não exterminavam pessoas, mas “bárbaros”; a Inquisição, na Idade Moderna, não matava mulheres, mas “bruxas”. E assim a história vai sendo contada pelos assassinos que, para poder cultuar sua própria imagem nos salões nobres das sociedades e serem sepultados em lugares sagrados, nunca evidenciam que mataram humanos, mas que eliminaram seres de alguma outra categoria.

No século XX, há dois momentos em que esses esquemas mentais se repetem de maneira grosseira, cruel e inequívoca. Os adeptos do nazismo, em sua propaganda nefasta, conseguiram equiparar os judeus a “ratos”. Os hutus conseguiram convencer a sociedade de Ruanda, em 1994, de que os tutsis eram “baratas”. Com esse recurso – a manipulação da linguagem – a Alemanha assistiu ao holocausto dos judeus, aceitando que os nazistas tinham o dever de exterminar “ratos”. Por sua vez, Ruanda foi palco do holocausto dos tutsis, pois, em cem dias, os hutus exterminaram 800 mil “baratas”.

Nota-se que o argumento é recorrente e serve para anestesiar a consciência dos assassinos, e a notícia publicizada soa agradável aos ouvidos de uma sociedade que quer ser cúmplice sem parecer vil: na Alemanha, “cidadãos do bem”, cristãos, de “raça” nobre, limparam a sociedade dos “ratos”. Em Ruanda, os detentores do poder dedetizaram “baratas”. Seria muito desagradável se a notícia fosse outra: “humanos que estão no poder matam humanos que não detêm o poder”.

Assim, em 2025, vemos parte da sociedade brasileira aplaudir as mortes em uma comunidade pobre do Rio de Janeiro, usando o mesmo recurso de linguagem. Basta uma rápida olhada nos comentários das redes sociais para ver que as manchetes se alinham a esse argumento: “Foi feita uma faxina na favela”. Observa-se que tal fala é veiculada a partir de espaço público, com a legitimidade do Legislativo: “A maior faxina da história do Rio de Janeiro”. Os que morrem deixam de ser humanos e tornam-se “lixo”.

imagem de uma silhueta humana se desfazendo, remete ao artigo QUANDO A LINGUAGEM OCULTA A NEGAÇÃO DO HUMANO
Imagem gerada por IA - Foto: Ilustrativa/Divulgação

Sabe-se da complexidade da questão da violência e do combate à criminalidade, e há uma linguagem apropriada para relatar conflitos no âmbito da segurança pública, quando se dá na esfera do direito estabelecido. Mas quando a violência não ocorre de modo legítimo e a força do Estado extrapola os limites da legalidade, a linguagem precisa ser sarcasticamente refinada para mascarar chacinas e permitir que os agressores continuem a frequentar os salões nobres da sociedade e os templos sagrados.

Não é moralmente elegante que uma “pessoa de bem” seja apresentada à sociedade como promotora de holocausto, instigadora de genocídios ou agente de extermínio em comunidades pobres. Mas soa legal – até arranca aplausos de outros arrogantes, incautos e grosseiros – caçar “ratos”, eliminar “baratas” e “fazer faxina”. Desse modo, conclui-se: um humano nunca elimina outro humano sem, simultaneamente, desumanizá-lo e desumanizar-se.

*Mário Antônio Sanches é professor titular da PUCPR. Fez pós-doutorado em Bioética na Cátedra de Bioética da Universidad Pontificia Comillas, em Madrid, com bolsa da CAPES/Fundação Carolina. É Doutor em Teologia, pela EST/IEPG, de São Leopoldo, RS.Sua tese de doutorado, na área de bioética, foi fruto de pesquisa - com apoio da Capes - no Instituto Kennedy de Ética na Universidade Georgetown, Washington, DC. É mestre em Antropologia Social, pela UFPR, especialista em Bioética e licenciado em Filosofia. Hoje é professor no Programa de Pós-graduação em Teologia e no Programa de Pós-graduação em Bioética da PUCPR, líder do Grupo de Pesquisa Teologia e Bioética e membro do Comitê de Bioética do Hospital Pequeno Príncipe. Pesquisa em bioética e teologia com relação aos temas de família, parentalidade e sexualidade.

E-mail:m.sanches@pucpr.br

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