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A maior andada do ano no Amapá aconteceu 130 dias depois do fim do defeso

Escrito por Neo Mondo | 10 de setembro de 2026

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Foto: Divulgação/Projeto Costamar

POR - OSCAR LOPES, PUBLISHER DO NEO MONDO

Na madrugada de 30 de agosto de 2026, a equipe do Projeto Costamar percorreu os seis pontos de monitoramento da Estação Ecológica de Maracá-Jipioca, no litoral do Amapá, e encontrou caranguejo-uçá andando em todos eles. Foi a maior andada reprodutiva registrada pelo projeto no ano. Foi também a mais distante da norma que deveria protegê-la: o último período de defeso previsto para o estado em 2026 terminou em 22 de abril, cento e trinta dias antes.

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A conta é simples de fazer e difícil de ignorar. A Portaria Interministerial MPA/MMA nº 45, publicada em 13 de janeiro de 2026, estabeleceu sete janelas de defeso do caranguejo-uçá para onze estados. O Amapá aparece em seis delas: 1º a 6 de fevereiro, 17 a 22 de fevereiro, 3 a 8 de março, 18 a 23 de março, 1º a 6 de abril e, condicionada à continuidade da temporada de andadas, 17 a 22 de abril. Nenhuma alcança agosto. Nenhuma se aproxima. GOV.BR

"Essa foi a maior andada que vimos no ano até o momento. Tivemos registro de caranguejos andando em todos os pontos monitorados à noite", afirma Thiago Couto, coordenador técnico-científico do Costamar e diretor de Biodiversidade do Instituto Redemar Brasil.

O projeto nasceu exatamente dessa suspeita. Iniciativa do Instituto Redemar Brasil em parceria com a Petrobras, por meio do Programa Petrobras Socioambiental, o Costamar monitora as andadas em Maracá-Jipioca e no Parque Nacional do Cabo Orange ao longo de três anos, com a hipótese de que os manguezais amapaenses, parte deles acima da linha do Equador, seguem um calendário reprodutivo próprio. Em março deste ano, a equipe percorreu os mesmos seis pontos e não viu uma única andada. Cinco meses depois, viu caranguejos em todos.

Couto trabalha com a variação natural entre anos e evita fechar a questão. "O que a gente sabe, minimamente, neste momento é que o período de defeso não está abrangendo todo o período reprodutivo. No ano passado tivemos registros de andada no mesmo período desse ano, o que não bate o período de defeso estabelecido. Ainda precisamos de um monitoramento de longo prazo para entender esses ciclos e chegar a uma conclusão com maior segurança", diz.

A cautela é metodológica, não empírica. Existe literatura anterior apontando na mesma direção. Um estudo publicado na Acta Amazonica em 2014, conduzido por pesquisadores da Embrapa Amapá, do IEPA e da Universidade do Estado do Amapá, analisou 859 caranguejos coletados em seis áreas nos municípios de Amapá, Calçoene e Oiapoque entre dezembro de 2008 e janeiro de 2010. Os picos de fêmeas maduras ocorreram em maio e agosto. Todas as fêmeas ovígeras da amostragem apareceram em agosto. Os autores concluíram que o período reprodutivo no Amapá difere daquele descrito para os demais estados brasileiros e registraram, na própria discussão, que a falta de estudos faz com que o defeso legalmente estabelecido muitas vezes não coincida com o tempo real da reprodução.O mesmo trabalho observou algo que delimita bem o que o Costamar acrescenta: a migração reprodutiva não foi observada durante aquela amostragem.

Ali se mediram gônadas, de dia. Aqui se observa o comportamento, de madrugada. A distinção não é técnica apenas. A portaria não regula maturação ovariana. Regula a andada, o momento em que os animais deixam as tocas e ficam expostos à captura manual. É esse dado, e só ele, que fecha a distância entre a biologia da espécie e o texto da norma.

A base de registro depende também de tecnologia e de quem opera o manguezal. O aplicativo REMAR Cidadão, que permite a pescadores e catadores lançarem ocorrências georreferenciadas de andada sem acesso à internet, ficou fora do ar e teve o sistema reestabelecido em 20 de julho de 2026, voltando ao download em Android e iOS, cinco semanas antes da noite de 30 de agosto. redemar

A escala do território explica por que o descompasso pesa. A Estação Ecológica de Maracá-Jipioca tem 58.756,95 hectares, criada pelo Decreto nº 86.061, de 2 de junho de 1981, classificada pelo ICMBio como bioma marinho costeiro. O Amapá soma 598 quilômetros de litoral e cerca de 2.785 quilômetros quadrados de manguezal, o equivalente a 1,94% do território estadual, distribuídos em faixa quase contínua da foz do Oiapoque ao estuário amazônico. O Mapeamento dos Manguezais Brasileiros de 2024, lançado pelo Ibama e pelo Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima, identificou 1.229.644 hectares no país, em 11.142 fragmentos, com 82% da área dentro de unidades de conservação e cerca de 78% da cobertura nacional concentrada em Amapá, Pará e Maranhão. O caranguejo-uçá entrou na lista nacional de espécies aquáticas sobreexplotadas ou ameaçadas de sobreexplotação pela Instrução Normativa nº 5 do Ibama, de 2004. GOV.BRPortal Amazônia

Há um detalhe institucional que muda a natureza do problema. O calendário do defeso não está em lei. Sai por portaria interministerial, refeita a cada ano. Corrigi-lo não exige tramitação no Congresso, exige evidência. E o desencontro corta nos dois sentidos: fecha a captura em semanas nas quais os animais podem não estar reproduzindo, e a mantém aberta na madrugada em que eles saem das tocas em todos os pontos monitorados.

Na amostragem de 2009 no litoral amapaense, 100% das fêmeas ovígeras coletadas apareceram em agosto.

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