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Na Mata do Sossego, Eduarda mostra como o manejo populacional freia a extinção do muriqui-do-norte

Escrito por Neo Mondo | 2 de setembro de 2026

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Mata do Sossego, Simonésia (MG), Eduarda e a filha Emília, nono filhote da fêmea translocada para a reserva em 2006 - Foto: Theo Anderson / Projeto Muriquis do Sossego

POR - OSCAR LOPES, PUBLISHER DO NEO MONDO

Emília tem dias de vida. Nasceu num fragmento de mil hectares cercado por plantações de café, filha de uma fêmea que chegou ali há vinte anos dentro de uma caixa de transporte, e é o nono filhote de Eduarda, a muriqui translocada em 2006 que se tornou a peça central do experimento de conservação mais consequente do complexo de Reservas Particulares do Patrimônio Natural (RPPN) entre Simonésia e Manhuaçu, em Minas Gerais. Junto com ela nasceu um segundo filhote, ainda sem sexo determinado. Uma terceira fêmea está prenhe. O parto deve ocorrer em setembro.

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Sete anos atrás, este grupo parecia caminhar para o desaparecimento. Quando o vírus da febre amarela atravessou a Mata Atlântica mineira entre 2016 e 2017, a população da Mata do Sossego caiu de 38 para 22 indivíduos, segundo o monitoramento conduzido pelo Muriqui Instituto de Biodiversidade. O estudo publicado na revista Primates, que comparou duas populações isoladas durante o surto, registrou perda de 26% no Sossego contra cerca de 10% em Caratinga, população quase dez vezes maior. Em grupos pequenos, cada morte corta fundo na estrutura demográfica e genética.

A população se recuperou. Hoje são 32 indivíduos. O crescimento é lento porque a biologia da espécie é lenta: o muriqui-do-norte (Brachyteles hypoxanthus) só se reproduz a partir dos dez anos, a gestação dura 7,2 meses, o intervalo entre partos passa de trinta meses e uma geração leva cerca de vinte anos para suceder a anterior. Mesmo assim, em seis anos o grupo ganhou oito indivíduos. Com os nascimentos deste ano, serão dez.

A explicação para essa recuperação tem nome. Eduarda.

Translocada em 2006, ela integra um conjunto de nove manejos já realizados com a espécie, operações que os primatólogos passaram a tratar como necessárias diante de uma Mata Atlântica reduzida a mosaicos separados por quilômetros de café, pasto e estrada. Não se trata de reintrodução. Trata-se de mover indivíduos entre fragmentos para repor o fluxo genético que a paisagem interrompeu.

Eduarda teve nove gestações completas na Mata do Sossego. Todos os filhotes sobreviveram. Um levantamento genético feito em 2011 apontou variabilidade muito baixa na população; a repetição recente do estudo, em tese de doutorado ainda não publicada, mostra aumento dessa variabilidade depois da chegada dela. O filhote mais velho de Eduarda já é adulto e se reproduz dentro do grupo. Os genes que ela trouxe de fora circulam agora em duas gerações.

Isso importa porque a população enfrenta dois problemas que operam ao mesmo tempo. O primeiro é a própria biologia do muriqui. Aos cinco ou seis anos, antes da maturidade sexual, as fêmeas deixam o grupo natal e procuram outro bando para acasalar, mecanismo evolutivo que evita a reprodução entre parentes. Numa floresta contínua, funciona. Numa paisagem fragmentada, é sentença. As fêmeas que saem da Mata do Sossego encontram lavoura, rodovia e predadores. Pesquisadores já registraram indivíduos a mais de trinta quilômetros da reserva, identificáveis porque cada muriqui tem um padrão facial próprio, comparável a uma impressão digital.

Fernanda Tabacow, pesquisadora do  Muriqui Instituto de Biodiversidade (MIB) que coordena o monitoramento desde 2011, descreve a perda: "É como se fosse um ralo, uma goteira ali, em que você vai perdendo fêmeas, e o número de nascimentos não é suficiente para o crescimento acontecer com essas perdas". A população se reproduz todos os anos e ainda assim vaza. O nascimento compensa a morte natural, não compensa a fuga.

A resposta técnica é contraintuitiva. Não se restaura a paisagem, o que levaria décadas. Traz-se mais fêmeas. O MIB já retirou duas fêmeas em idade pré-reprodutiva da Mata do Sossego antes que se perdessem na paisagem e as levou para reforçar outro grupo, além de ter recebido Eduarda vinte anos antes. Cada operação exige captura química, protocolo veterinário, equipe treinada e monitoramento pós-soltura. Para o primatólogo Fabiano Rodrigues de Melo, fundador do MIB e professor da Universidade Federal de Viçosa, o manejo deixou de ser opcional: "A trajetória da Eduarda comprova a eficiência do manejo ativo para salvar a espécie. No entanto, por causa do isolamento, a população da Mata do Sossego não é geneticamente viável a longo prazo sem novas intervenções. Precisamos avançar com projetos de translocação que promovam tanto a entrada de novas fêmeas vindas de outras regiões quanto a saída planejada de indivíduos da Mata do Sossego para compor outros grupos no país".

Tabacow calcula que cinco ou seis fêmeas trazidas de outras populações resolveriam o gargalo, com seis filhotes adicionais previstos além dos que já nascem por ano. O monitoramento também identificou oito fêmeas jovens em idade pré-reprodutiva dentro do próprio grupo, candidatas naturais à saída planejada para outras populações isoladas que hoje padecem de falta de fêmeas. A permuta entre grupos é o horizonte de trabalho.

A base territorial dessa operação é um complexo de reservas particulares construído em camadas. A Fundação Biodiversitas criou a RPPN Estação Biológica Mata do Sossego, mantida com apoio da Prefeitura de Simonésia e da Seguros Unimed. Ao lado dela, a RPPN Sossego do Muriqui, de cerca de 350 hectares, foi criada pelo Grupo Curimbaba e é gerida pela Associação Amigos do Meio Ambiente. Uma terceira unidade está em processo de criação e levará o nome de Eduardo Bazem, o conservacionista que mobilizou a região antes da chegada das instituições e cuja articulação rendeu uma reportagem no Globo Ecologia em 1992. Somadas, as áreas protegem aproximadamente mil hectares.

A estrutura da população indica saúde. Machos e fêmeas se dividem em proporção próxima à metade. Há mais jovens do que animais senis, e o intervalo entre nascimentos é menor do que o observado em outras populações da espécie, sinal de potencial reprodutivo acima da média. O habitat também colabora: floresta preservada, diversidade de espécies que compõem a dieta, água em abundância. O que falta não está dentro da reserva.

Falta dinheiro. O Brasil não tem legislação que permita deduzir do imposto de renda doações destinadas à conservação, mecanismo que existe para esporte e cultura e que nos Estados Unidos sustenta boa parte do financiamento ambiental privado. As translocações no Sossego dependem de recursos de fundações, de empresas e, na maior parte, do exterior. Enquanto o financiamento não vem, as fêmeas continuam saindo.

Segundo o ICMBio, quase metade das populações conhecidas de muriqui-do-norte é considerada inviável a longo prazo. A da Mata do Sossego está entre elas.

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