Amazônia Ciência e Tecnologia CLIMA Destaques Emergência Climática Meio Ambiente Saúde Segurança

Seca no El Niño 2024 atingiu 2 mil localidades da Amazônia, aponta MapBiomas

Escrito por Neo Mondo | 4 de setembro de 2026

Compartilhe:

Seca histórica no Rio Negro expõe bancos de areia e revela o nível de água mais baixo em 121 anos de medições contínuas realizadas em Manaus. A redução drástica dos rios amazônicos durante o El Niño 2024 isolou comunidades, comprometeu a pesca e acelerou a mortalidade de espécies aquáticas - Foto Jacqueline Lisboa / WWF-Brasil

POR - OSCAR LOPES, PUBLISHER DO NEO MONDO

Entre setembro e novembro de 2024, quando o El Niño atingia sua intensidade máxima sobre o Brasil, 2.172 das 5.673 localidades registradas pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) na Amazônia enfrentaram alta exposição à seca. O levantamento realizado pela rede MapBiomas, que cruzou dados de redução da superfície de água com anomalias de precipitação, mostra que 38% das localidades do bioma, incluindo cidades, vilas, núcleos urbanos, povos indígenas e quilombolas, sofreram com a estiagem naquele trimestre. O cenário foi particularmente grave porque coincidiu com a fase de transição entre as estações seca e chuvosa, momento em que as comunidades esperariam pela chegada das chuvas.

Leia também: Secas mais longas e mudanças nas chuvas já ocorrem na Amazônia, apontam pesquisas

Leia também: Brasil perde 14 pontos de vegetação nativa em 41 anos e fica mais exposto ao El Niño

A proximidade a áreas com perda acentuada de água dimensiona a extensão real da exposição. Em 2024, 93% das localidades analisadas ficavam a menos de cinco quilômetros de regiões com redução significativa de superfície de água, multiplicando a vulnerabilidade mesmo em núcleos urbanos maiores. Nas áreas agropecuárias da Amazônia, o déficit foi de 178 milímetros de precipitação em relação à média climatológica durante aquele período. A temperatura máxima, por sua vez, ficou 2,6 graus Celsius acima da média histórica.

Os números gerais amplificam o quadro: entre setembro e novembro de 2024, a superfície de água da Amazônia estava 1,9 milhão de hectares abaixo da média registrada entre 1985 e 2025. Esses dados não são abstratos. Enquanto os rios encolhem e os índices pluviométricos desabam, comunidades ribeirinhas ficam isoladas. Botos e peixes morrem em igarapés que viram poças d'água. Pescadores perdem acesso ao trabalho que historicamente sustenta suas vidas.

O contexto de fundo explica por que essa seca foi tão devastadora. A Amazônia perdeu 53,9 milhões de hectares de vegetação nativa entre 1985 e 2025, redução equivalente a 14% da cobertura original do bioma. A floresta passou de 381,4 milhões de hectares em 1985 para 328,1 milhões em 2025. Ao mesmo tempo, a agropecuária expandiu-se de forma agressiva: ocupava 12,1 milhões de hectares em 1985 e atingiu 65,3 milhões em 2025, aumento de 438%. Essa conversão em massa de floresta para pasto altera a dinâmica hidrológica regional. Menos vegetação significa menos evapotranspiração, menos umidade volante na atmosfera e, portanto, menos chuva.

A combinação é tóxica. Redução da precipitação associada a temperaturas elevadas provoca o que pesquisadores chamam de stress hídrico extremo. As plantas reduzem a fotossíntese, absorvem menos dióxido de carbono da atmosfera e sofrem danos fisiológicos que frequentemente não se recuperam nem após a normalização do regime de chuvas. O espaço entre vegetação remanescente fica mais exposto ao calor, criando microclimas ainda mais secos.

Bruno Ferreira, pesquisador do Instituto do Homem e Meio Ambiente da Amazônia (Imazon) que integra a equipe MapBiomas para o bioma, comenta que a redução da disponibilidade de água não é um efeito isolado. "Menos chuva e temperaturas mais elevadas aumentam a demanda evaporativa na atmosfera, favorecendo a perda de água do solo e o stress hídrico da vegetação. A seca também se manifesta na redução dos níveis dos rios, com consequências para o transporte, o acesso à água, a pesca e outras atividades que dependem dos sistemas fluviais." Os dados do MapBiomas Água (Coleção 5) permitem rastrear com precisão de 30 metros onde essa perda de água foi mais severa.

Luciana Rizzo, professora da Universidade de São Paulo e coordenadora da iniciativa MapBiomas Atmosfera, já antecipa o próximo capítulo dessa história. "Frente à perspectiva de um El Niño intenso, diversos modelos climáticos preveem chuva abaixo da média para o bioma Amazônia no trimestre de setembro a novembro de 2026, com temperaturas até 1 grau Celsius acima do normal." As previsões de centros nacionais e internacionais de meteorologia indicam alta probabilidade de o fenômeno atingir a categoria muito forte no último trimestre de 2026. O Centro Europeu de Previsão Meteorológica de Médio Prazo sugere que esse episódio pode vir a ser o mais intenso em 140 anos.

Uma nota técnica do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), divulgada em agosto de 2026, mostra que a vulnerabilidade está se cristalizando. Estudos liderados por cientistas do instituto indicam prolongamento da estação seca na Amazônia de quatro para até seis meses, com aumento de déficit hídrico superior a 150 milímetros. Publicações em periódicos de alto impacto, como a revista Nature, documentam que os eventos de seca extrema estão se tornando não apenas mais frequentes, mas também mais duradouros e mais intensos. Estudos recentes no PNAS (Proceedings of the National Academy of Sciences) destacam que a seca de 2023 e 2024 foi mais intensa que qualquer outra já registrada na história da observação climática moderna.

O que distingue a situação atual é que o El Niño não chega a um planeta estável. Chega a um planeta que atravessou os três anos mais quentes já registrados, com 2024 fechando 1,55 graus Celsius acima da média pré-industrial. A seca de 2023 e 2024 foi a mais extensa e intensa das últimas sete décadas no Brasil, atingindo mais de 80% dos municípios em algum grau. Muitos dos reservatórios, solos e ecossistemas que sofreram com ela ainda não se recuperaram plenamente.

El niño e exposição à seca na Amazônia - Infográfico - MapBiomas - 02092026 - 1

Nas áreas preservadas, a resiliência é maior. O MapBiomas Atmosfera mostrou que áreas de floresta intacta sofrem menos com os extremos climáticos associados ao El Niño do que regiões onde predominam a agropecuária ou o desmatamento. A vegetação nativa ainda cobre 81,3% da Amazônia, o percentual mais alto entre todos os biomas brasileiros. Mesmo assim, cada ciclo de seca intensa, combinado com desmatamento contínuo, reduz a margem de segurança. Os rios mais rasos, a floresta mais fragmentada, as localidades mais vulneráveis. Tasso Azevedo, coordenador-geral do MapBiomas, resumiu o cenário em uma frase direta: não há crescimento de floresta em curso. Há fratura.

Compartilhe:


Artigos anteriores:

A 1.100 metros de profundidade, uma enzima brasileira acende luz azul a 2 °C

10.726 substâncias que nenhum governo avaliou, e uma negociação que tirou o assunto da mesa

Na Mata do Sossego, Eduarda mostra como o manejo populacional freia a extinção do muriqui-do-norte


Artigos relacionados