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Escrito por Neo Mondo | 8 de junho de 2026
Memória de um planeta que guarda no gelo a história do clima da Terra. Na imagem, um fragmento de geleira antártica simboliza os sinais registrados ao longo de milhões de anos e os alertas deixados pela própria natureza sobre os limites que não podem ser ultrapassados - Foto: Ilustrativa/Magnific
POR - OSCAR LOPES, PUBLISHER DO NEO MONDO
Há certas perguntas que a ciência evita formular com clareza demais, não por falta de coragem, mas porque a resposta pode ser grande demais para caber numa manchete. Uma dessas perguntas é: existe um ponto a partir do qual a Antártida passa a cair de vez?
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A resposta, segundo dois estudos publicados em 2026 nas revistas Nature Geoscience e Nature Climate Change, é sim. E o que torna essa descoberta diferente de tudo que veio antes não é apenas a confirmação do risco — é que os pesquisadores encontraram o número. Não uma estimativa, não um intervalo de probabilidade: um valor concreto de CO₂ atmosférico abaixo do qual a calota antártica muda de comportamento de forma permanente e, em certa medida, irreversível.
A pesquisa liderada por Kyung-Sook Yun e Axel Timmermann, do Centro IBS para Física do Clima da Universidade Nacional de Pusan, na Coreia do Sul, rastreou a evolução da calota glacial antártica ao longo dos últimos três milhões de anos usando modelos computacionais de alta resolução. Dentro desse registro geológico estava enterrado um limiar: quando a concentração de dióxido de carbono na atmosfera caiu abaixo de aproximadamente 240 partes por milhão, há cerca de um milhão de anos, o gelo parou de responder suavemente às variações climáticas e passou a oscilar de forma abrupta e amplificada. Não foi uma transição gradual. Foi uma mudança de caráter.
"Após essa transição, a calota antártica reage muito mais fortemente a mudanças no forçamento climático", escreveu Yun. "O sistema não evolui gradualmente — ele atravessa um limiar e adquire um comportamento novo." A descoberta tem uma implicação que poucos comentaristas climáticos ousaram articular com precisão: se o gelo antártico já cruzou um ponto de inflexão no passado em resposta a uma queda no CO₂, a pergunta pertinente no presente não é se ele pode cruzar outro — mas em que nível de aquecimento esse cruzamento se torna inevitável.
A resposta para essa segunda pergunta veio de outro estudo, esse conduzido pelo Instituto Potsdam de Pesquisa sobre o Impacto Climático e pelo Instituto Max Planck de Geoantropologia. O trabalho, publicado em fevereiro de 2026 na Nature Climate Change, mapeou não a calota como um bloco único, mas como um conjunto de bacias com limiares diferentes — uma distinção que muda radicalmente a forma como o risco deve ser comunicado.
A imagem que emergiu é perturbadora na sua precisão. As bacias do Mar de Amundsen, que abrigam as geleiras Thwaites e Pine Island, e a bacia de Ronne, ambas no oeste da Antártida, têm os limiares mais baixos de todos — e podem já ter cruzado seu ponto de inflexão ao nível atual de aquecimento global, em torno de 1,3°C acima dos níveis pré-industriais. Não é uma previsão de colapso imediato: cruzar um ponto de inflexão não significa que o gelo desaparece amanhã. Significa que o processo tornou-se autossustentado. Significa que parar de emitir CO₂ hoje não impede mais a perda desse gelo específico.
"Na Antártida Oriental, setores marinhos que representam até cinco metros de elevação potencial do nível do mar estão em risco de perder estabilidade entre 2 e 5°C de aquecimento", afirma o estudo do Potsdam. A calota oriental, muito maior e historicamente considerada mais estável, deixou de ser sinônimo de segurança. O mapa dos limiares revelou que ela também tem pontos de ruptura — apenas mais altos, não inexistentes.
Esses metros de elevação do nível do mar têm endereço. Bangladesh. Tuvalu. O delta do Nilo. Miami. Recife e Belém. O leste de Xangai. A relação entre uma bacia glacial específica no continente mais remoto do planeta e a linha de costa de uma cidade específica não é uma abstração científica: é o que os modelos de elevação marinha calculam com crescente precisão.
A geleira Thwaites merece atenção especial. Chamada de "geleira do apocalipse" por uma imprensa que raramente precisa de apelidos para tornar um fenômeno mais assustador, ela perdeu essa característica de exagero jornalístico há alguns anos. Tem a largura de toda a Flórida, sustenta partes significativas da calota oeste e já está em processo de recuo acelerado. Segundo o estudo do Potsdam, ela pode estar entre as bacias que já cruzaram seu limiar. Isso não aparece em nenhuma projeção oficial do IPCC com essa clareza — em parte porque os modelos de gelo marinho ainda carregam incertezas consideráveis, em parte porque as consequências são difíceis de comunicar sem soar alarmista.
O paradoxo da comunicação climática aparece aqui com toda sua força. Os cientistas que produziram esses estudos são cuidadosos ao ponto de parecerem cautelosos demais. Ricarda Winkelmann, diretora do MPI-GEA e autora principal do estudo do Potsdam, resume: "Cruzar um ponto de inflexão não significa colapso imediato. Significa que o processo se torna autossustentado em escalas de tempo de séculos a milênios." Essa frase é tecnicamente precisa e, ao mesmo tempo, difícil de usar como instrumento de mobilização política. Séculos parecem distantes. Milênios, absurdamente remotos.
Mas há uma assimetria que os próprios pesquisadores apontam: o gelo que se perde em escalas de séculos não pode ser recuperado em escalas humanas. Uma decisão tomada hoje — ou evitada hoje — sobre emissões de CO₂ pode determinar o nível do mar que as civilizações costeiras encontrarão daqui a trezentos anos. Não é uma previsão do fim do mundo. É uma conta que já começou a ser aberta e cujo extrato chega em parcelas.
O Brasil raramente aparece nessa conversa como protagonista da parte física do problema — mas deveria. A Amazônia, os rios voadores que ela gera e o papel que o desmatamento desempenha no balanço hídrico e energético do planeta fazem do Brasil um nó na mesma rede climática que aquece os oceanos do sul e acelera o recuo das geleiras. Belém, sede da COP30, foi palco no ano passado de debates sobre como frear esse processo. Os dois estudos publicados em 2026 mostram que frear pode não ser suficiente para algumas bacias — mas que frear ainda é o que separa uma perda limitada de uma catástrofe em cascata.

A memória geológica da Antártida, lida pelos modelos de Pusan e Potsdam, oferece um diagnóstico que nenhuma campanha climática conseguiu formular com tanta eficiência: o planeta já passou por isso antes. O gelo já aprendeu a cair. E uma vez que aprende, não desaprende facilmente.
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