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Escrito por Neo Mondo | 8 de junho de 2026
80% dos sistemas fluviais do planeta estão perdendo oxigênio. Na imagem, o lago Tefé, no coração da Amazônia, cenário de uma crise que já deixou marcas profundas na biodiversidade regional e que antecipa os desafios de um mundo mais quente, onde rios essenciais para a vida, a pesca e a segurança alimentar passam a operar cada vez mais próximos de seus limites ecológicos - Enseada do Papucu, Tefé - AM - Foto - Jacqueline Lisboa/WWF-Brasil
POR - OSCAR LOPES, PUBLISHER DE NEO MONDO
Em setembro de 2023, os pescadores do lago Tefé, no coração do Amazonas, começaram a encontrar botos — os raros golfinhos-rosa de água doce — boiando mortos pela superfície. Em dias, 209 carcaças foram recolhidas. A temperatura da água havia alcançado 39 graus Celsius, mais de dez graus acima da média histórica para o período. O oxigênio dissolvido havia despencado a níveis letais. Milhares de peixes morreram ao mesmo tempo. O lago Tefé, que em condições normais abrigava uma das maiores concentrações de vida fluvial da Amazônia, havia se tornado, temporariamente, uma zona morta.
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O que aconteceu em Tefé não foi uma anomalia. Foi uma prévia.
Um estudo publicado em 15 de maio de 2026 na revista Science Advances, conduzido por pesquisadores do Instituto de Geografia e Limnologia de Nanjing, da Academia Chinesa de Ciências, analisou os níveis de oxigênio dissolvido em 21.439 trechos de rios ao redor do planeta, usando algoritmos de aprendizado de máquina alimentados por dados de satélite coletados entre 1985 e 2023. É o levantamento mais abrangente já realizado sobre o tema. O que ele encontrou reorganiza a maneira como a ciência entende a saúde dos rios do mundo.
Quase 80% dos sistemas fluviais analisados apresentam desoxigenação contínua. O oxigênio dissolvido — o elemento que sustenta peixes, invertebrados e toda a cadeia de vida de água doce — caiu a uma taxa média de 0,045 miligramas por litro por década. Em números absolutos, os rios perderam em média 2,1% de seu oxigênio desde 1985. A cifra parece pequena. Não é.
A química da água é implacável: quanto mais quente, menos oxigênio ela retém. Água aquecida libera o gás para a atmosfera. O mecanismo que explica 62,7% da desoxigenação global observada é precisamente esse: o aquecimento climático está roubando dos rios o elemento que os mantém vivos. Ondas de calor, que se tornaram mais frequentes e intensas, respondem por outros 22,7% da perda — acelerando a taxa de desoxigenação em 0,01 mg por litro por década nas regiões onde incidem.
A descoberta que mais surpreendeu os pesquisadores foi a distribuição geográfica do problema. Esperava-se que os rios das regiões polares, onde o aquecimento é mais acelerado, fossem os mais vulneráveis. Os dados mostraram o oposto: os rios tropicais, localizados entre 20 graus sul e 20 graus norte, são os que perdem oxigênio mais rapidamente e os que já partem de concentrações mais baixas. A combinação de temperaturas naturalmente elevadas com a queda induzida pelo aquecimento climático cria uma equação de esgotamento que os cientistas chamam de hipoxia — o estado em que o oxigênio torna-se escasso demais para sustentar a maioria das formas de vida aquática.
O Amazonas está no centro geométrico dessa crise. Desde 1980, o número de dias com zonas mortas registradas no rio aumentou cerca de 16 dias por década. Esse número, publicado em estudo do ano anterior e referenciado pela pesquisa de 2026, não traduz apenas uma estatística ambiental: traduz noites em que famílias ribeirinhas acordam com o cheiro de peixe morto, semanas em que pescadores não têm o que pescar, meses em que comunidades inteiras perdem a principal fonte de proteína e renda.
A seca histórica de 2023 — seguida por outra seca severa em 2024 — tornou visível o que os dados de satélite vinham registrando em silêncio por quatro décadas. No lago Tefé, a superfície encolheu para menos de um quarto do tamanho habitual. A coluna d'água ficou com cerca de dois metros de profundidade, igualmente quente da superfície ao fundo. As águas mais frias do fundo, que funcionavam como refúgio para golfinhos e peixes durante as secas normais, simplesmente desapareceram. Não havia onde escapar.
"Em condições normais, as águas mais profundas são mais frias e funcionam como refúgio para os animais escaparem das altas temperaturas", explicou Ayan Fleischmann, pesquisador sênior do Instituto Mamirauá, em análise publicada pela Universidade da Califórnia em Santa Bárbara. "Na seca extrema de 2023, esse refúgio simplesmente não existia." A frase define, com precisão científica, o que as imagens de 209 botos mortos comunicavam de forma visceral.
O estudo de 2026 projeta o que acontecerá se as emissões de carbono continuarem nos patamares atuais. Em cenários de emissões moderadas a altas, rios no leste dos Estados Unidos, no Ártico, na Índia e em grande parte da América do Sul devem perder cerca de 10% de seu oxigênio até o fim do século. Em média global, a perda adicional projetada é de 4%, chegando a 5% em algumas regiões. O número não é alto o suficiente para parecer catastrófico em uma manchete. É alto o suficiente para acabar com a pesca em rios que já estão no limite.
Karl Flessa, geocientista da Universidade do Arizona que não participou do estudo mas analisou os resultados, foi direto: "Alguns rios estão em condições tão ruins que uma pequena mudança pode empurrá-los para a zona de perigo. Se o seu lugar favorito de pesca ficar quente demais, os níveis de oxigênio vão cair e não haverá mais peixes para pescar." A observação encapsula o que a linguagem técnica dos papers tende a diluir: a desoxigenação dos rios não é um problema de ecossistema abstrato. É o desaparecimento progressivo de uma fonte de alimentação de bilhões de pessoas.
Há um dado adicional que o estudo revelou e que merece atenção específica: represas e barragens influenciam a desoxigenação de maneiras que dependem da profundidade dos reservatórios. Reservatórios rasos aceleram a perda de oxigênio. Os mais profundos podem reduzi-la localmente, na área represada, mas não alteram a tendência global. Para um país como o Brasil, que depende de hidroelétricas para mais de 60% de sua geração de energia e que continua expandindo a capacidade instalada em rios amazônicos, essa variável entra diretamente no cálculo das consequências não contabilizadas da matriz energética nacional.
O Amazonas é o maior rio do mundo em volume de água. Abriga cerca de 3 mil espécies de peixes — mais de dez vezes o número encontrado em toda a Europa. É a espinha dorsal econômica de populações que dependem da pesca artesanal, do turismo de natureza e dos ciclos naturais de cheias e vazantes para plantar, colher e circular. Quando a ciência diz que os rios tropicais são os mais vulneráveis do planeta à desoxigenação, está dizendo que o coração do Brasil está na linha de frente de um processo que nenhuma política pública brasileira ainda trata com a seriedade que os dados exigem.
Os golfinhos-rosa do lago Tefé morreram em silêncio, em águas que pareciam rio mas que se comportavam como caldeirão. O estudo publicado em maio de 2026 revelou que esse silêncio é global — e que ele está ficando mais fundo.
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