Especial Plástico, Sociedade e Natureza 2026
Escrito por Neo Mondo | 14 de setembro de 2026
Nafta entra no forno petroquímico e sai como a matéria-prima que alimenta a produção mundial de plástico. - Imagem gerada por IA - Ilustrativa/Neo Mondo
POR - REDAÇÃO NEO MONDO
Petróleo, gás, petroquímica, resinas, bioplásticos e os novos modelos que tentam fechar o ciclo do material
Uma refinaria produz gasolina, diesel e nafta a partir do mesmo barril de petróleo. É a nafta, e não o combustível, que carrega o destino menos visível do óleo bruto. Aquecida a temperaturas que passam de 800 graus dentro de um forno de craqueamento a vapor, a nafta se quebra em moléculas menores. Surgem o eteno e o propeno, os dois blocos de construção mais básicos da indústria química mundial. É a partir deles que nascem o polietileno das sacolas, o polipropileno dos potes e boa parte de tudo que se chama plástico.
Essa cadeia tem geografia própria. Quase metade da capacidade petroquímica do planeta ainda depende da nafta, sobretudo na Ásia e na Europa. América do Norte e Oriente Médio preferem o gás natural, porque têm reservas abundantes de etano a custo baixo. A escolha do insumo não é detalhe técnico. Ela decide quem lucra quando o petróleo sobe e quem sofre quando falta insumo. Em março de 2026, uma crise de escassez de nafta, agravada por tensões geopolíticas no Oriente Médio e por paradas de manutenção na Índia, forçou complexos petroquímicos inteiros a interromper produção na Coreia do Sul e reduziu em 75 mil toneladas a produção de paraxileno de uma única refinaria indiana. A Agência Internacional de Energia calcula que o petróleo destinado à petroquímica já responde por 12% da demanda mundial de óleo, fatia que só deve crescer puxada pelo apetite por plástico e fertilizante. Entre 2022 e 2028, esse consumo vai sozinho compensar a queda projetada no uso de petróleo pelo transporte rodoviário, à medida que carros elétricos avançam.
A geopolítica desse mercado também mudou de eixo. A China expande capacidade petroquímica num ritmo sem precedente histórico, segundo a própria Agência Internacional de Energia, substituindo por produção doméstica o que antes importava dos Estados Unidos. A capacidade mundial de produzir eteno deve crescer 46% entre 2022 e 2030, puxada por China e Oriente Médio. O consumo per capita de plástico, porém, segue desigual: países da OCDE consomem 156 quilos por pessoa ao ano, contra 39 quilos nos países fora do bloco. É essa desigualdade que sustenta a aposta da indústria em cima da demanda dos países em desenvolvimento como próxima fronteira de crescimento.
Do eteno e do propeno em diante, a cadeia se ramifica em resinas com nome técnico e uso cotidiano. Polietileno vira sacola e filme plástico. Polipropileno vira pote de margarina e para-choque de carro. PET vira garrafa de refrigerante. PVC vira tubo e fiação. Cada uma dessas resinas nasce numa planta de polimerização, onde as pequenas moléculas de eteno ou propeno se encadeiam em longas cadeias poliméricas. É essa cadeia longa que dá ao plástico a propriedade que o tornou indispensável e, ao mesmo tempo, difícil de descartar: a resistência à quebra.
O Brasil tentou furar essa dependência do petróleo pela porta do etanol. Em setembro de 2010, a Braskem inaugurou em Triunfo, no Rio Grande do Sul, a maior planta do mundo dedicada a transformar etanol de cana-de-açúcar em eteno, e o eteno em polietileno. A empresa batizou o produto de plástico verde. Ele retira até 2,5 toneladas de carbono da atmosfera para cada tonelada produzida, porque a cana usada como insumo já capturou esse carbono durante a fotossíntese. A planta nasceu com capacidade de 200 mil toneladas anuais, ampliada para 260 mil a partir de 2022 depois que a demanda internacional passou a superar em três vezes a oferta disponível. O produto tem as mesmas propriedades do polietileno comum e hoje é usado por marcas como Natura, Tetra Pak e Johnson & Johnson. Mas o plástico verde compartilha o problema geral da categoria: depois de descartado, ele se comporta como qualquer polietileno tradicional. Não biodegrada. Precisa da mesma coleta e da mesma reciclagem que falta ao plástico de origem fóssil.
Há uma terceira via em construção, e ela não parte nem do petróleo nem da cana: parte do próprio lixo. A reciclagem química, também chamada de reciclagem avançada, usa calor para quebrar moléculas de plástico pós-consumo de volta aos seus blocos originais, um processo batizado de pirólise. O resultado é um óleo, chamado óleo de pirólise ou óleo circular, que pode alimentar de novo um craqueador petroquímico, como se fosse nafta. Diferente da reciclagem mecânica, que apenas derrete e remolda o plástico existente, a rota química processa materiais multicamada e resíduos misturados que a reciclagem convencional não consegue aproveitar. Uma revisão publicada em 2025 no periódico ChemSusChem, assinada por pesquisadores da Universidade Tohoku, no Japão, descreve pesquisa em pirólise desde os anos 1970, mas reconhece uma lacuna prática: ainda existe distância entre o que funciona em escala de laboratório e o que roda de fato numa planta industrial.
A Braskem opera desde 2020 pesquisa própria de reciclagem química em parceria com a Fábrica Carioca de Catalisadores, o SENAI CETIQT e a COPPE, da Universidade Federal do Rio de Janeiro. Em 2023, associou-se à empresa Valoren para erguer em Indaiatuba, no interior paulista, a primeira planta de reciclagem avançada do país, com investimento de R$ 44 milhões e capacidade de processar seis mil toneladas de material por ano. Em fevereiro do mesmo ano, a Anvisa reconheceu a segurança da pirólise para produzir plástico com contato direto a alimentos, abrindo caminho para uso em embalagem alimentícia. A meta declarada da companhia é comercializar 1 milhão de toneladas de resinas e produtos químicos com conteúdo reciclado até 2030.
A conta que sustenta esse tipo de investimento no Brasil ganhou um capítulo novo em 2026. A Lei 15.394 corrigiu uma distorção tributária que travava havia anos o setor: passou a permitir o uso de créditos de PIS/Cofins na compra de resíduos plásticos, equiparando o custo fiscal da matéria-prima reciclada ao da resina virgem. Até então, comprar plástico reciclado custava, na prática, mais caro em imposto do que comprar plástico novo direto da petroquímica. Era um desincentivo silencioso, embutido na estrutura tributária, que competia contra qualquer meta ambiental publicada em relatório de sustentabilidade.
Enquanto a reciclagem química ainda busca escala industrial e o plástico verde segue restrito a nichos de mercado disposto a pagar mais, a cadeia majoritária do plástico continua começando onde sempre começou: no forno de um craqueador, com a nafta ou o etano entrando quente e o eteno saindo do outro lado. A Agência Internacional de Energia projeta que, num cenário de zero emissão líquida, 70% da demanda de petróleo em 2050 virá de usos que não envolvem queima de combustível, como plástico e asfalto. O barril de petróleo, nesse horizonte, deixa de ser primeiro sobre gasolina e passa a ser, cada vez mais, sobre polímero.
Este conteúdo integra o especial Economia do Plástico 2026 — Plástico, sociedade e natureza: uma relação que precisa ser reinventada, produzido pelo Neo Mondo para inaugurar a Coleção Neo Mondo, série bimestral dedicada aos grandes sistemas que definem o século.

A cadeia que ninguém quis fechar
Rumo à nova economia do plástico e a um ambiente e uma sociedade saudáveis
Índice + A cadeia que moldou o mundo + Vozes deste Especial