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Escrito por Neo Mondo | 15 de junho de 2026
Responsabilidade no cuidado que vai além da técnica: a presença humana permanece essencial mesmo diante dos avanços tecnológicos da medicina - Foto: Ilustrativa/Magnific
ARTIGO
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Por - Anor Sganzerla e Julia Izadora da Silva Martins
A ética da responsabilidade formulada por Hans Jonas (1903–1993), em sua obra O princípio responsabilidade: ensaio de uma ética para a civilização tecnológica (Contraponto/PUC-Rio, 2006), oferece contribuições significativas para pensar as práticas em saúde e os fins da medicina no contexto contemporâneo. Em um panorama marcado por avanços tecnocientíficos, uso crescente de biotecnologias e intensificação do poder humano sobre a vida, a reflexão ética torna-se indispensável para orientar os profissionais da saúde diante de dilemas relacionados ao sofrimento, à vulnerabilidade e à dignidade humana.
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Nas práticas em saúde, o conhecimento técnico e científico, embora essencial, não é suficiente para responder às complexidades do cuidado humano. A técnica responde ao "como fazer", mas é a ética que interroga o "por que" e o "para quê" agir. Nesse sentido, a responsabilidade, em Jonas, adquire um significado central: deixa de ser compreendida apenas como resposta a atos já realizados e passa a representar um dever anterior à própria ação. O ser humano é responsável justamente porque possui poder de agir e de intervir sobre a vida. Assim, o profissional de saúde não é responsável apenas pelos resultados imediatos de suas ações, mas também pelas consequências futuras.
A ética da responsabilidade proposta por Jonas desloca o foco tradicional da liberdade individual para o dever de cuidado — fazendo com que a responsabilidade preceda a própria liberdade e não se reduza a uma questão contratual, de horários ou de remuneração. Desse modo, o profissional da saúde é chamado a agir com prudência, sensibilidade e consciência diante da fragilidade do paciente. Isso significa reconhecer que a relação terapêutica envolve uma assimetria ética: o paciente encontra-se vulnerável diante do poder técnico e decisório do profissional. Por isso, a responsabilidade não pode ser entendida como algo facultativo ou meramente contratual, mas como uma exigência moral inerente ao próprio exercício da medicina e das práticas em saúde.
Outro aspecto relevante da ética jonasiana é a premissa de que a responsabilidade é um correlato do poder. Quanto maior o poder de intervenção sobre a vida humana, maior também deve ser a responsabilidade ética. Nas práticas em saúde, o avanço tecnológico ampliou significativamente a capacidade de diagnóstico, tratamento e prolongamento da vida, mas também aumentou os riscos de desumanização do cuidado. O profissional não pode orientar-se apenas pela eficácia técnica ou pela lógica produtivista. É necessário considerar os efeitos humanos, psicológicos e sociais de cada intervenção, especialmente em situações de terminalidade, sofrimento intenso ou ausência de possibilidades terapêuticas reais.
Nesse quadro, a prudência torna-se uma virtude essencial. Para Jonas, ela constitui o núcleo do agir moral em uma civilização tecnológica. Aplicada à saúde, a prudência exige reconhecer os limites da técnica e compreender que nem tudo o que é tecnicamente possível é eticamente justificável. Em cuidados paliativos, por exemplo, a prudência pode significar evitar procedimentos invasivos que apenas prolongam a dor e o sofrimento sem perspectiva de cura. O verdadeiro progresso ético não reside somente na ampliação das capacidades técnicas, mas na capacidade moral de proteger a vida com dignidade e respeito.

Desse modo, a ética da responsabilidade de Hans Jonas propõe uma mudança de paradigma nas práticas em saúde e nos fins da medicina. Mais do que curar doenças, a medicina deve orientar-se pelo cuidado integral da vida humana, reconhecendo sua fragilidade, sua dignidade e seu valor intrínseco. O profissional da saúde deixa de ser apenas um executor de procedimentos e torna-se o guardião da vida em sua totalidade, chamado a agir com prudência, compaixão e respeito diante do outro.
Anor Sganzerla - Doutor em Filosofia. Professor do Curso de Filosofia e do Programa de Pós-Graduação em Bioética da Pontifícia Universidade Católica do Paraná. Email: anor.sganzerla@gmail.com
Julia Izadora da Silva Martins - Médica Nefrologista. Mestre em Bioética pela Pontifícia Universidade Católica do Paraná. Professora do Curso de Medicina da PUC-PR – campus Londrina e da Universidade Estadual de Londrina. Email: juizamartins@gmail.com
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