Ciência e Tecnologia CLIMA Destaques Emergência Climática Meio Ambiente Saúde Segurança
Escrito por Neo Mondo | 27 de agosto de 2026
Sismógrafo a 12 quilômetros do vale registrou a avalanche que produziu esta paisagem em Nuwakot, no Nepal, sem que aviso algum chegasse aos moradores antes da lama. Foto ANI via Reuters
POR - OSCAR LOPES, PUBLISHER DO NEO MONDO
Não chovia em Rasuwa na manhã de 26 de agosto. Às 8h40, no horário local, uma parede de água, lama e blocos de rocha desceu o vale do Lhende Khola, na fronteira entre o Nepal e o Tibete, engoliu vilarejos e destruiu ao menos 19 pontes e cerca de 40 quilômetros de estradas. A origem estava a 5.200 metros de altitude: imagens de satélite mostraram que uma seção considerável da parte inferior de uma geleira se desprendeu e despencou cerca de 1.200 metros até o fundo do vale, arrastando rocha e sedimento na queda. A avalanche de gelo e rocha atingiu o rio Lhende, no Tibete, a cerca de 20 quilômetros a nordeste da travessia fronteiriça, e bloqueou o curso d'água antes que a barragem natural cedesse.
Leia também: Aquecimento global ameaça volume das geleiras do Himalaia
Leia também: A memória do gelo: o que um milhão de anos revelam sobre o colapso antártico
O que veio depois foi rápido demais para qualquer reação humana. Segundo o Centro Internacional para o Desenvolvimento Integrado de Montanhas (ICIMOD), o nível do rio Trishuli subiu até nove metros em trinta minutos na estação de Galchchi, e sete metros em Malekhu no mesmo intervalo. Várias estações de monitoramento hidrológico ao longo do Trishuli foram danificadas ou levadas pela água. O sistema que deveria medir a enchente virou parte dela.
Manoj Mishra, professor, contou à Al Jazeera ter visto cerca de nove caminhões sendo arrastados pela correnteza, com pessoas dentro. O comerciante Raju Bhadel recebeu o telefonema de um parente na mesma manhã: a casa inteira havia sido levada. "Eles estavam chorando", disse. Entre a origem do fenômeno e esse telefonema não houve nenhum aviso oficial.
A primeira leitura sismológica também errou. Relatos iniciais atribuíram o colapso a um terremoto de magnitude 4,4, mas o Serviço Geológico dos Estados Unidos revisou a avaliação e concluiu que o sinal sísmico foi gerado pelo próprio deslizamento, registrado depois como um evento de magnitude 5,2. O ICIMOD havia identificado sinais anômalos em um sismômetro em Jilong, a aproximadamente 12 quilômetros da área atingida, e em uma segunda estação em Zhangmu. A física do evento, portanto, foi detectada. O que não existia era o caminho institucional entre um sensor que registra um deslizamento na alta montanha e um aviso que chega ao mercado de Timure minutos depois.
Até a manhã de quinta-feira, 27, a polícia nepalesa havia recuperado ao menos 157 corpos, e as autoridades chinesas confirmavam três mortes no condado de Gyirong. O número de desaparecidos beirava 1.500 nos dois lados da fronteira, incluindo ao menos 800 estrangeiros. No Nepal, 826 pessoas eram procuradas, quase 600 delas estrangeiras, entre as quais 177 indianos, 63 norte-americanos, 34 australianos, 33 britânicos e 25 canadenses. Boa parte seguia em direção a Kailash Mansarovar, no Tibete, pela principal rota terrestre de peregrinação da região.
O corredor atingido concentra a infraestrutura que o Nepal construiu na última década. A Autoridade de Eletricidade do Nepal informou que seis grandes instalações de geração e transmissão foram danificadas, entre elas Rasuwagadhi, Chilime, Trishuli 3A, a subestação de 220 kV do Trishuli 3B, a usina de Trishuli e a de Devighat. O Ministério de Energia listou oito projetos afetados em Rasuwa, incluindo Upper Trishuli-1 (216 MW), Rasuwagadhi (111 MW) e Rasuwa Bhotekoshi (120 MW), além de seis em Nuwakot, quatro deles em operação, somando 123 MW. As estimativas divergem entre os órgãos oficiais e mudam a cada boletim, o que diz menos sobre descuido e mais sobre a extensão do que ainda não foi alcançado por equipe alguma.
Nada disso é inédito naquele vale. Qianggong Zhang, chefe de Riscos Climáticos e Ambientais do ICIMOD, observou que a mesma área devastada pela enchente do ano anterior voltou a ficar sob ameaça. Em 8 de julho de 2025, o Departamento de Hidrologia e Meteorologia do Nepal concluiu que o transbordamento de um lago supraglacial situado a cerca de 36 quilômetros ao norte da fronteira, a 5.150 metros de altitude, havia provocado a enchente do Lhende. Aquele evento matou pelo menos nove pessoas, levou a ponte Miteri que liga o Nepal à China e danificou o porto seco de Rasuwagadhi. Saswata Sanyal, especialista em redução de risco de desastres do ICIMOD, resumiu o padrão em uma frase: "O Lhende Khola transbordou duas vezes em catorze meses." São riscos em cascata, segundo ele: um evento de alta altitude vira enchente dentro de um povoado em poucas horas.
Aqui está a parte que os registros de risco ainda não absorveram. O estudo de Caroline Taylor e colegas, publicado na Nature Communications em 2023, calculou que 15 milhões de pessoas no mundo estão expostas a enchentes por rompimento de lagos glaciais, com a Alta Montanha Asiática no topo da lista e Índia, Paquistão, Peru e China respondendo por mais da metade dessa população. A metodologia parte de um inventário de lagos. O evento de 26 de agosto não começou em um lago, e sim em uma língua de gelo instável que virou avalanche e depois barragem improvisada. É uma classe de ameaça que escapa dos mapas construídos para outra coisa.
Esse detalhe metodológico é o que torna o caso legível para quem gere ativos no Brasil. Nenhuma carteira brasileira tem exposição direta ao Trishuli, mas quase toda carteira de infraestrutura no país é precificada por séries históricas de chuva e vazão. O gatilho de Rasuwa não estava em série nenhuma: não houve precipitação anômala do lado nepalês, e o dano veio de um processo geológico deflagrado a 5.200 metros, em outro país. Modelos calibrados por hidrologia não enxergam eventos cuja origem é criosférica ou geotécnica, e contratos de seguro escritos sobre esses modelos tendem a não cobrir o que o inventário não previu. O mesmo estudo da Nature Communications aponta os Andes como região de preocupação comparável à asiática e com muito menos pesquisa publicada. A Organização Meteorológica Mundial registra que as geleiras dos Andes tropicais perderam 30% ou mais de sua área desde os anos 1980, com algumas geleiras peruanas ultrapassando 50%. Marcos Buckeridge, do Instituto de Biociências da USP e um dos autores do capítulo do IPCC sobre América do Sul e Central, disse à Agência FAPESP que os principais efeitos climáticos previstos para as duas regiões estão relacionados com a água, incluindo geração hidrelétrica e confiabilidade sistêmica. Brasil, Peru, Chile e Argentina compartilham bacias, linhas de transmissão e capital investido. O inventário andino de risco criosférico ainda é rarefeito.
O contexto climático é sólido; a atribuição do evento específico, não. As geleiras do Hindu Kush Himalaia perderam gelo 65% mais rápido entre 2011 e 2020 do que na década anterior, e as geleiras nepalesas perderam perto de um terço de seu volume em cerca de três décadas. Observações de satélite mostraram condições anormalmente quentes ao redor da geleira afetada antes do colapso, com redução expressiva da cobertura de neve e exposição de gelo nu. Ainda assim, os cientistas do ICIMOD foram explícitos ao afirmar que é cedo para determinar o papel da mudança climática neste episódio, e essa reserva não enfraquece o argumento: enfraquece apenas quem precisa de uma manchete pronta.
O que o desastre expõe com precisão é a arquitetura de governança. O gatilho ocorreu na alta montanha, em território de fronteira. Os mortos estão no Nepal. O alerta desceu até Bihar, na Índia, onde o Trishuli, já convertido em Narayani, atravessa a fronteira com o nome de Gandak. Mohd. Farooq Azam, especialista sênior em criosfera do ICIMOD, afirmou que a frequência dos riscos ligados à criosfera está mais visível do que nunca e que o ritmo da mudança supera a capacidade de resposta atual, o que exige ação conjunta dos governos diante de ameaças que cruzam fronteiras. O bloqueio continua encaixado no leito, rio acima, na divisa entre o Nepal e a China. As autoridades avisaram que uma segunda enchente é iminente e emitiram ordem de evacuação para o porto de Jilong.
O protetor solar mineral perdeu o véu branco, e a descoberta começou por uma frustração pessoal
Protetor solar mineral ou químico: a confusão que as marcas não têm interesse em desfazer