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Almoço de domingo

Escrito por Daniel Medeiros | 3 de novembro de 2026

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Almoço de domingo interrompido pela intolerância: quando a polarização ocupa a mesa, os afetos pagam a conta - Imagem gerada por IA - Ilustrativa/Neo Mondo

POR - DANIEL MEDEIROS*

Tudo mudou de 2018 para cá. A polarização saiu das ruas e invadiu o cotidiano familiar. Primeiro, mediada pelos grupos de WhatsApp, depois no face a face mesmo. Gritos, ameaças, diatribes, perdigotos, diante do silêncio compungido dos isentões, diante dos olhos marejados da matriarca entristecida por ver seu macarrão à bolonhesa, feito com tanto esmero, esfriar nos pratos inacabados.

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Tudo se intensificou em 2022. Já não há almoços de domingo. Os membros da família desenvolvem logísticas complexas, definindo quem vai e quem não pode ir. Os almoços semanais viraram o almoço do mês, dividido em turnos por convicção partidária, para garantir que, pelo menos, a comida seja servida. Mas não há tranquilidade, porque coisas são ditas sobre os ausentes, coisas pesadas, que não se esvanecem facilmente. E os comentários sempre acabam chegando aos ouvidos do “outro grupo”, que realimenta a intriga na sua vez de almoçar, diante do olhar cada vez mais sorumbático da matriarca.

E, embora pareça, não se trata de uma briga partidária. Em meio ao desassossego de quem sempre quer ter a última palavra indelicada, ninguém sabe explicar por que vale a pena romper uma amizade de décadas ou um amor familiar da vida inteira por conta de Flávios ou Janjas. Então, por quê? O que está em jogo, sob as camadas de argumentos fracos e bordões insossos, é a exigência de uma declaração de fidelidade ao grupo, um atestado de pertencimento em defesa dos interesses que podem ser prejudicados se um ou outro lado triunfar. É o brado da tribo que explica a fratura. Afinal, como se interessar por quem não é da nossa família? Como escolher quem pode prejudicar nosso negócio ou nosso emprego ou a bolsa da nossa pesquisa ou as pessoas da nossa cor ou do nosso gênero? Como defender quem é contra a nossa religião? Como ficar ao lado de quem age contra a nossa visão ética do mundo? E por aí vai, sem que ninguém se importe em magoar, ofender, ameaçar amores cultivados ao longo de uma vida inteira, para preservar, proteger, garantir… o que mesmo? Ah, a sua ideia de futuro. Como se o país fosse mesmo o caminho de pedras e árvores do condomínio, como se o destino de milhões de brasileiros coubesse na ansiedade de um plano pessoal ameaçado ou no rendimento de um fundo especulativo.

Esse é o preço do esgotamento das forças utópicas dos anos oitenta, o paradoxo do sucesso das políticas sociais e econômicas que levaram para a classe média popular milhões de pobres que agora se horrorizam com a ideia de retroceder. E, se é a Democracia que tem de pagar por isso, que pague. Logo ela, que resgatou parte da gigantesca dívida social de séculos de descaso com os mais humildes. Mas agora, ora, quem se importa com a dívida dos outros? E as nossas dívidas, como ficam? Nossos planos, nosso sonho de futuro, imaginado como nos comerciais de carros novos que percorrem ruas desertas de grandes cidades, com todo o conforto e toda a liberdade que nenhuma cidade de verdade oferece.

Em 2026, a coisa chegou ao paroxismo. “Demitam! Parem de ajudar! Se querem esse governo, que se virem!” E agora não haverá nascimento de Jesus que dê jeito. Nada de ceia, nada de almoço. As famílias, tão lembradas nos discursos dos candidatos, agora pagam a conta de quem não entendeu que perder faz parte do jogo. E sofremos todos nós, que só queremos um abraço de filho, um carinho na mãe. Quem sabe, lá pelo Carnaval, a coisa melhore. Tomara.

*Daniel Medeiros - Advogado e especialista em Filosofia Contemporânea pela PUCPR. Mestre e Doutor em Educação Histórica pela UFPR. Pós doutorando em Bioética pela PUCPR. Professor da Especialização em Filosofia do Direito, da Escola de Direito, e Especialização em Neurociência e Educação, da Escola de Educação e Humanidades da PUCPR. Autor da Coluna Cuidados Humanos, da revista Humanitas. Conselheiro e colunista do portal Neo Mondo.

foto de daniel medeiros, autor do artigo almoço de domingo
Daniel Medeiros- Foto: Divulgação

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