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Escrito por Daniel Medeiros | 9 de fevereiro de 2026
Eclipse da verdade: quando fatos e narrativas se confundem - Imagem gerada por IA - Foto: Ilustrativa/Neo Mondo
POR - DANIEL MEDEIROS
Almocei estes dias com meu pai, um militar aposentado de 85 anos e de ideias muito conservadoras, que se nutre de informações sobre tudo nos grupos de mensagens e nos programas de internet. Já tivemos algumas discussões sobre fontes de notícias e sobre a importância de não disseminar fake news, mas sua posição é bastante inflexível em defesa do que ele considera a verdade, que quase sempre é tudo o que corrobora sua opinião sobre as coisas.
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No entanto, essa semana descobri que até as posições mais rígidas podem sofrer abalos. Ele me perguntou para que servia a Inteligência Artificial. Eu comecei a dar exemplos dos benefícios na Medicina, na organização de dados, na forma como acessamos informações e economizamos tempo e dinheiro com procedimentos protocoláveis, quando ele me atalhou com o seguinte comentário: "com a Inteligência artificial não podemos mais saber se o que uma pessoa está falando é o que ela está falando mesmo ou se é mesmo uma pessoa. Como vai ser possível acreditar em alguma coisa na internet daqui pra frente?"
Percebi que, finalmente, o muro de certezas que meu pai alimentava com suas convicções pessoais estava rachando, porque agora havia uma novidade tecnológica sobre a qual ele não tem nenhuma ideia ou controle, colocando diante dele imagens e personagens dizendo coisas como se fossem a verdade testemunhal que ele tanto preza. Tentei acalma-lo, repetindo o que sempre dissera: diante de qualquer notícia é preciso verificar a fonte e saber se a grande imprensa, nacional ou internacional ,repercute ou não o fato. Se um “depoimento" ou uma “narrativa" aparece só no grupo de WhatsApp dele ou só e comentado pelo influencer que ele acompanha, há uma grande chance de ser notícia inventada. Também é necessário usar o bom senso, quando se vê, por exemplo, o vídeo no qual aparece o presidente Trump comentando sobre o filme brasileiro “O agente secreto”. Mas eu sei que foi exatamente a falta de bom sendo que nos trouxe até aqui e me calei, sem mais argumentos.
A Política deveria ser o espaço do debate sobre o que faremos com o futuro. No entanto, nesses últimos anos, tem ocorrido uma alteração perigosa: o debate deixou de ser sobre as direções que queremos tomar e passou a ser sobre a existência ou não do chão sob nossos pés. E o maior risco da mentira moderna não é o engano passageiro, fruto de uma verdade escondida, mas a destruição da nossa capacidade cognitiva de perceber a realidade que nos cerca. Essa foi a lâmpada que acendeu na cabeça do meu pai.
A pensadora alemã Hannah Arendt afirma que existe uma diferença fundamental entre a mentira tradicional e a mentira organizada. O mentiroso clássico, digamos assim, era um estrategista que ocultava um segredo para obter vantagem; ele respeitava a realidade o suficiente para saber que precisava escondê-la. Já a mentira moderna, que vemos diariamente nas redes sociais, não quer esconder, ela quer substituir. Ela constrói um mundo paralelo, logicamente coerente, mas factualmente vazio, onde o dado concreto é sacrificado em nome de uma narrativa.
O perigo é ainda maior quando lembramos que a verdade factual, diferente de uma verdade matemática (como 2 + 2 = 4 ,que se sustenta por si só), depende da memória e do testemunho. Imaginem: se todos decidirem que um evento não ocorreu, ele deixa de existir para o mundo comum. Assim, quando as mentiras políticas tornam-se sistêmicas, elas corroem os "fatos teimosos" que deveriam servir de limite para a disputa de opiniões. Sem esse solo comum, a política deixa de ser persuasão sobre o que fazer ou como agir diante de um fato inconteste e passa a ser apenas manipulação de imagens sobre coisa alguma. Como meu pai, enfim, percebeu. E lembrar que Hannah Arendt teceu essas reflexões no final dos anos sessenta, preocupada com a televisão, o rádio, a imprensa escrita. O que teria pensado se conhecesse os recursos atuais da IA?
O diagnóstico mais sombrio de Arendt sobre como a mentira sistemática e coletiva são prejudiciais ao mundo comum não é apenas sobre a eficácia da mentira em convencer as massas. O verdadeiro desastre ocorre quando a distinção entre o verdadeiro e o falso é borrada. Isto é: em um cenário de mentira total, as pessoas não passam a acreditar no erro, mas perdem o sentido de orientação que nos permite distinguir o real da ficção. Nesse ambiente, qualquer afirmação torna-se "apenas uma opinião", e a verdade deixa de ter qualquer relação com os fatos. Aí sobram as escolhas feitas por convicção, crença, afeto, ou seja, um verdadeiro jogo de dados. Por exemplo: houve tentativa de golpe ou foram somente velhinhas protestando com bíblias nas mãos? Há imagens, fotos, testemunhos oculares sobre a destruição do oito de janeiro. Mas quem pode garantir para mim que são reais? Também é possível inserir na internet imagens mostrando que quem destruiu o palácio do planalto foi o pessoal do MST ou a turma do PSOL disfarçada. As imagens serão tão críveis quanto as outras.
Fiquei muito feliz com a conversa que tive com meu pai, embora eu não o tenha convencido de nada, principalmente da importância de defender a verdade factual como um imperativo democrático. O fim da fronteira entre a Verdade ,como aquilo que corresponde aos fatos, e a Mentira, que é aquilo que ignora os fatos até o ponto no qual os próprios fatos deixam de ser relevantes como referência do real, implica na possibilidade de destruição do próprio espaço onde a Política acontece, onde as pessoas agem e, agindo, têm a chance de construir algo novo. E isso, sem dúvida, deveria nos importar a todos.
Daniel Medeiros - Advogado e especialista em Filosofia Contemporânea pela PUCPR. Mestre e Doutor em Educação Histórica pela UFPR. Pós doutorando em Bioética pela PUCPR. Professor da Especialização em Filosofia do Direito, da Escola de Direito, e Especialização em Neurociência e Educação, da Escola de Educação e Humanidades da PUCPR. Autor da Coluna Cuidados Humanos, da revista Humanitas. Conselheiro e colunista do portal Neo Mondo.
E-mail: danielhortenciodemedeiros@gmail.com
Instagram: @profdanielmedeiros

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