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Escrito por Lígia Camargo | 4 de fevereiro de 2026
Listas organizam o discurso — mas é a persistência nas escolhas diárias que transforma o mundo - Imagem gerada por IA - Foto: Ilustrativa/Neo Mondo
POR - LIGIA CAMARGO
Está aberta a temporada de listas e tendências em Sustentabilidade e ESG. Todo início de ano, em diferentes áreas, esse movimento se repete. E, sinceramente, vejo valor nele. Especialmente no Brasil, após termos sediado uma COP, é natural que o debate sobre sustentabilidade ganhe intensidade. Relatórios, e-books, artigos e análises se multiplicam na tentativa de traduzir decisões, organizar aprendizados e oferecer alguma orientação sobre os próximos passos. O mundo está saindo dos dias de discussão do Fórum Econômico Mundial, em Davos, e este é mais um evento que alimenta essa necessidade de organizar, esclarecer, traduzir, listar o que vem pela frente.
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Esse movimento é legítimo e necessário. Ele ajuda a alinhar agendas, cria uma linguagem comum entre diferentes atores e mantém o tema em evidência no espaço público e corporativo. Participo desse esforço e reconheço seu valor.
Ainda assim, chama atenção a recorrência de um padrão: a proliferação de listas de “tendências”, “prioridades” ou “itens estratégicos” que prometem apontar o futuro da sustentabilidade. O incômodo, ao menos para mim, não está nas listas em si, mas na expectativa que se deposita nelas.
E começo com uma pergunta simples: das listas que você leu recentemente, quantos itens você realmente se lembra agora, neste exato momento?
Listas são ferramentas úteis. Facilitam a comunicação, ajudam a estruturar planos e tornam temas complexos mais acessíveis. Em um campo tão diverso quanto o da sustentabilidade, isso tem um papel prático importante.
O problema surge quando organização passa a ser confundida com transformação. A sucessão de novas “tendências” pode transmitir a sensação de avanço contínuo, mesmo quando muitos dos desafios permanecem essencialmente os mesmos. Mudam os termos, os enquadramentos, os indicadores. Os dilemas estruturais, nem sempre.
Vale lembrar que sustentabilidade não é um conceito recente. A ideia de viver dentro de limites, preservar condições para o futuro e equilibrar uso e regeneração antecede os atuais frameworks, marcos regulatórios e conferências multilaterais. O que se sofisticou ao longo do tempo foi a forma de medir, reportar e institucionalizar essa preocupação — não necessariamente a prática em si.
As COPs ilustram bem essa dinâmica. São conferências anuais organizadas em torno de diferentes temas, sendo a COP do Clima — que recentemente aconteceu no Brasil — a mais conhecida e acompanhada. Cumprem um papel fundamental ao criar espaços de coordenação internacional, dar visibilidade política à agenda climática e estabelecer compromissos comuns. São momentos relevantes de convergência, sinalização e alinhamento. E, invariavelmente, geram novas listas, novos compromissos, novos termos a serem acompanhados.
Ao mesmo tempo, é importante reconhecer seus limites naturais. Conferências globais não operam, por si só, as mudanças necessárias no nível das decisões cotidianas. A sustentabilidade se materializa menos nos grandes anúncios e mais na repetição consistente de escolhas feitas por organizações, lideranças e indivíduos em seus contextos concretos.
Muitas dessas escolhas são silenciosas, pouco visíveis e graduais. Justamente por isso, acabam sendo decisivas.
O debate contemporâneo segue fortemente concentrado em o que precisa ser feito: novas métricas, novos instrumentos financeiros, novas tecnologias, novos arranjos institucionais. Esses elementos são indispensáveis e continuarão evoluindo.
Há, no entanto, um aspecto menos tangível — e talvez mais determinante — que recebe menos atenção: o comportamento humano e organizacional. Não como discurso moral, mas como prática cotidiana.
Sem a pretensão de propor mais uma lista — embora reconheça a ironia de fazê-lo logo após criticá-las — observo que algumas transições se mostram especialmente relevantes neste momento. E arrisco dizer que são compromissos atemporais, não tendências passageiras:
* sair da lógica da conveniência automática e assumir maior responsabilidade nas escolhas;
* reduzir a distância entre compromissos declarados e decisões efetivamente tomadas;
* ampliar o horizonte temporal das decisões, em um contexto ainda dominado por ciclos curtos;
* reconhecer o próprio campo de ação, em vez de transferir continuamente a responsabilidade;
* tratar a sustentabilidade menos como exceção e mais como critério básico de decisão.
Essas mudanças não se resolvem em ciclos anuais, nem se encaixam perfeitamente em frameworks. Elas exigem consistência, tempo e disposição para revisar práticas que já se tornaram habituais.
Talvez o desafio do momento não seja identificar novas tendências, mas criar espaço para aprofundar a implementação daquilo que já conhecemos. Menos esforço em antecipar o futuro e mais atenção ao modo como decidimos no presente.
A sustentabilidade avança não apenas quando ampliamos o debate, mas quando conseguimos traduzir esse debate em escolhas coerentes, repetidas ao longo do tempo. O comportamento humano não é diferente de qualquer outra mudança que buscamos promover em nossas vidas — emagrecer, criar uma rotina de exercícios, parar de fumar, reduzir o açúcar no café. Todas exigem consciência, frequência e consistência.
Esse é um trabalho contínuo — e inevitavelmente humano. Nenhuma lista, por mais bem-intencionada que seja, consegue realizá-lo sozinha. No fim, são as escolhas do dia a dia que constroem, ou não, o futuro discutido nas grandes conferências. Os produtos que consumimos, o transporte que utilizamos, o destino do nosso lixo, as decisões políticas que apoiamos.
Este texto se soma, inevitavelmente, ao volume de reflexões de início de ano. Não pretendo escapar dessa lógica, mas ao menos fazer uma pergunta diferente: e se, em vez de mais tendências, precisássemos de mais persistência?
Ligia Camargo é apaixonada por sustentabilidade e acredita no poder das empresas como agentes de transformação. Como Diretora de Sustentabilidade do Grupo HEINEKEN, atua para unir propósito, impacto positivo e engajamento das pessoas em torno de um futuro mais consciente.

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