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Escrito por Daniel Medeiros | 2 de fevereiro de 2026
Espelho: quando a violência não pode mais ser atribuída ao “outro”, o que se quebra não é a imagem — é a narrativa - Imagem gerada por IA - Foto: Ilustrativa/Neo Mondo
POR - DANIEL MEDEIROS
O episódio envolvendo a morte do cachorro Orelha , uma morte por eutanásia, visto que o animal foi tão maltratado e seu sofrimento era tão atroz que qualquer tentativa de mante-lo vivo era imprudente, além de cruel, gerou uma espécie de catarse involuntária nas redes sociais. Uma catarse, penso eu, movida por um tipo de luto social, expresso em tons de fúria, na busca por Justiça ou mesmo por vingança contra os rapazes responsáveis pela barbárie.
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O luto é esse momento no qual nos deparamos com o desaparecimento do lugar no qual depositamos nosso desejo e a necessidade de retirar nossa energia emocional deste lugar/objeto que não existe mais. E é evidente que esse movimento não é algo que façamos com bom grado, por isso resistimos, e por isso sofremos. Aceitar que aquilo para o qual dirigimos nossa libido não está mais lá e não estará mais em tempo algum leva tempo e provoca uma queda da nossa energia, da nossa crença no mundo, da nossa simpatia pelas coisas, de nossa, enfim, alegria. Até que vai passando e, aos poucos, vamos recuperando nossa capacidade de investir em novos projetos. Ou não.
O que se perdeu no caso da violência praticada contra o cachorro Orelha foi a ideia de “pessoa de bem” sobre a qual, nos últimos tempos, muitos têm investido fortemente sua atenção e seus esforços, para distinguirem-se dos “bandidos”, dos “marginais”, dos “desocupados”, dos “pervertidos”. A construção da polarização que vem marcando nossa sociedade nos últimos anos e a criação das imensas bolhas digitais nas quais “um lado” preserva-se na medida em que se distancia e se diferencia do “outro lado”, sofreu um baque danado com esse episódio. Como explicar que jovens incluídos, com excelente capital social e cultural, estudantes de uma escola católica, filhos da decente família brasileira, "divertiriam-se" praticando esse tipo de atrocidade contra um animal indefeso?
Não é de espantar que, passado o choque inicial e de reprovação total, começaram a aparecer, mesmo que timidamente, os apelos destacando os “exageros" das críticas aos rapazes. Coisas como: "não se pode aplicar a Lei de Talião, pois isso não é Justiça!" Ou: "a vida desses jovens está destruída e não há provas cabais de que eles fizeram o que estão dizendo". Chegando mesmo ao: "que atire a primeira pedra…"
Há um luto pois esse episódio tira, nesse momento, as “pessoas de bem” do lugar confortável no qual coisas como essas não acontecem nunca, pois essas monstruosidades são coisa de gente que não teve família, educação, legado, berço, fé. Ou seja, os Outros.
Mas o fato ocorreu, é inegável, o corpo dilacerado do cachorro foi exposto infinitas vezes e as redes sociais não parecem ainda cansadas de apregoar essa fissura no mundo de “nós-eles” tão convenientemente desenhado. Aliás, no momento em que escrevo essas palavras, em várias capitais do Brasil há manifestações exigindo uma punição ao crime contra o pobre cachorro. Pessoas nas ruas, agitando faixas, cartazes, querendo que esse crime não fique em vão. Mas que fique claro: esse crime, esse crime específico, e não tantos outros que todos os dias são cometidos contra mulheres, negros, pobres, imigrantes, trans, velhos. E por que esse crime específico? Porque esse crime não pode ser atribuído às próprias vítimas. Daí a confusão especial que ele provoca. Esse crime descortina que essa dicotomia é uma farsa e que somos todos feras nessa arena sem parâmetros morais efetivos, sem preocupação ética séria, sem Sociedade capacitada para garantir paz e segurança nem a um cachorro de rua. Mas, principalmente, porque esse crime evidenciou que agora será preciso remar de novo para recuperar a imagem de “nós e eles” e de voltar a concentrar o medo “neles” liberando simbolicamente as pessoas de bem para continuar a encarnar o papel dos “bons" , dos “melhores”. Para que o mundo volte “ao normal”.
No livro "O Jantar" (Het Diner), do escritor holandês Herman Koch, os personagens Paul Lohman , que é o narrador da história , sua esposa Claire, Serge Lohman (irmão de Paul e candidato a primeiro-ministro) e sua esposa Babette, reunem-se em um restaurante caro e refinado para discutir o crime terrível cometido por seus filhos adolescentes, Michel (filho de Paul) e Rick (filho de Serge). Os meninos agrediram e causaram a morte de uma mulher em um caixa eletrônico, e imagens de segurança (embora borradas) foram exibidas na TV. Ao longo da refeição, os dois casais discutem se a violência dos filhos é um acidente isolado, um fruto do privilégio ou algo hereditário. Ao final, observamos como pessoas "comuns" e "civilizadas" podem descartar a ética em nome de seus interesses pessoais e familiares. O difícil , porém, é recompor-se e reconstruir a imagem de íntegros e inatacáveis. O espelho está quebrado e as imagens refletidas nos seus fragmentos não permitem mais distinguir com facilidade os bons e os maus.
Esse é o efeito da morte bárbara do cachorro Orelha.
Que seu sacrifício não seja em vão.
Daniel Medeiros - Advogado e especialista em Filosofia Contemporânea pela PUCPR. Mestre e Doutor em Educação Histórica pela UFPR. Pós doutorando em Bioética pela PUCPR. Professor da Especialização em Filosofia do Direito, da Escola de Direito, e Especialização em Neurociência e Educação, da Escola de Educação e Humanidades da PUCPR. Autor da Coluna Cuidados Humanos, da revista Humanitas. Conselheiro e colunista do portal Neo Mondo.
E-mail: danielhortenciodemedeiros@gmail.com
Instagram: @profdanielmedeiros

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