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Oceano ganhou destaque na COP30, mas ainda está longe do protagonismo necessário

Escrito por Laclima | 26 de janeiro de 2026

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Oceano: não existe agenda climática séria sem o oceano no centro da mesa - Foto: Divulgação

Por - Carollina Arbex* e Gabriel Ralile*

Ao longo da história das Conferências das Partes (COP) — reuniões anuais do órgão decisório da Convenção-Quadro das Nações Unidas sobre a Mudança do Clima (UNFCCC) — ainda que gigante pela própria natureza e pelas suas notáveis implicações para a regulação climática, o oceano foi mantido às margens das negociações multilaterais.

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Tradicionalmente, o oceano não constitui tema de destaque nas negociações dentro da UNFCCC. No entanto, a COP30, pela primeira vez sediada em Belém, no Brasil, marcou uma mudança de rumo ao reposicionar a agenda oceânica no centro do debate climático global. Com forte protagonismo brasileiro, a conferência conseguiu – mesmo com passos não tão largos – priorizar o tema e jogar luz sobre soluções que podem responder por até 35% da redução global de emissões até 2050, abrindo uma nova fase para a integração entre oceano e clima.

foto de carollina arbex, autora do artigo Oceano ganhou destaque na COP30, mas ainda está longe do protagonismo necessário
Carollina Arbex - Foto: Divulgação

Dentre as principais iniciativas, destaca-se a criação da Força Tarefa Oceânica. Liderada pelo Brasil e pela França, a medida integra o oceano a um mecanismo global que acelera a adoção de soluções marinhas nos planos climáticos nacionais. Inspirada nos “Desafios das Contribuições Nacionalmente Determinadas” (NDC) Azuis, lançados durante a Conferência dos Oceanos das Nações Unidas (UNOC3), em junho, a medida busca incentivar países a estabelecer metas de proteção do ambiente marinho ao atualizar seus objetivos climáticos.

Além disso, foi divulgada a Agenda de Ação do Pacote Azul: iniciativa que representa um avanço sem precedentes na integração estrutural do oceano à agenda climática. O Pacote reúne ações voltadas à conservação marinha, à transição energética, ao uso sustentável dos recursos oceânicos e à ampliação de mecanismos de financiamento baseados no oceano. A proposta faz parte de uma estrutura coordenada pela Presidência da COP30, pelo governo brasileiro e pelos chamados “Campeões Climáticos de Alto Nível”, que conecta atores não governamentais para acelerar a implementação dessas soluções, no âmbito do Eixo 2, Objetivo 7 da Agenda de Ação Climática Global, voltado a florestas, oceanos e biodiversidade.

Tais medidas, lançadas na COP30, dão continuidade à caminhada iniciada em 2021, em Glasgow, quando a COP26 consolidou o oceano como componente essencial das estratégias de adaptação e mitigação. Naquele momento, o tema passou a integrar, pela primeira vez, tanto as discussões quanto o texto final das negociações da ONU, por meio do Pacto Climático de Glasgow.

A partir da COP30, essa trajetória foi aprofundada com a incorporação do oceano como prioridade transversal, catalisando iniciativas como o Pacote de Belém — resultado da conferência —, além do Pacote Azul e da Força-Tarefa Oceânica. Esses avanços indicam um esforço crescente para consolidar o oceano como pilar das estratégias de mitigação, adaptação e desenvolvimento sustentável, cuja efetividade dependerá de sua consolidação nos próximos ciclos da UNFCCC.

Nesse contexto, é inegável que a Conferência marcou progressos relevantes, contando, inclusive, com uma Enviada Especial para os Oceanos, a bióloga brasileira Marinez Scherer, que levantou a bandeira dos mares e foi responsável por organizar os debates sobre o tema em eventos da conferência. Ademais, dezessete países aderiram ao Desafio Azul das NDCs, comprometendo-se a integrar ações oceânicas em seus planos climáticos nacionais. O Pacote de Belém estabeleceu um marco ao alinhar financiamento para conservação marinha, energia oceânica, transporte de baixo carbono, alimentos aquáticos e turismo sustentável. Já o Pacote Azul definiu um roteiro concreto para acelerar soluções baseadas no oceano, estabelecendo-se um “Ocean Breakthroughs Dashboard” como mecanismo inovador de monitoramento.

Ainda assim, temas centrais para o futuro do oceano ficaram ausentes de decisões-chave do processo multilateral. Questões como o avanço acelerado da acidificação e do aquecimento dos mares, que comprometem ecossistemas essenciais e retroalimentam a crise climática, não foram acompanhadas de compromissos concretos. De igual modo, a proteção de comunidades costeiras vulneráveis, já profundamente afetadas por eventos extremos e pela elevação do nível do mar, permaneceu à margem das resoluções principais, assim como as discussões sobre a crise global do plástico, cuja produção deve quase dobrar até 2050 caso nenhuma medida seja adotada.

foto de Gabriel Ralile, autor do artigo Oceano ganhou destaque na COP30, mas ainda está longe do protagonismo necessário
Gabriel Ralile - Foto: Divulgação

O desfecho da conferência evidenciou essa assimetria: na decisão final, o chamado “mutirão”, a palavra “oceano” foi mencionada apenas uma única vez, em um parágrafo breve. Mais uma vez, o bioma - crucial para o equilíbrio climático global- foi reduzido a um espaço que não condiz com a sua importância. Essas lacunas revelam que, embora o discurso avance, a distância entre ambição e abrangência persiste, e o nexo oceano-clima continua subdimensionado nas negociações multilaterais.

É evidente, portanto, que a COP30 ofereceu um ponto de inflexão, mas ainda não logrou um ponto de chegada. Para que o oceano se torne, de fato, um pilar das estratégias climáticas, será essencial acelerar essa trajetória e integrar a pauta oceânica de forma consistente em todos os espaços de negociação internacional. Espera-se que os avanços semeados em Belém ganhem novo fôlego na COP31, ainda em 2026, ampliando a ambição e a abrangência da ação climática global. Em um contexto de urgência planetária, manter o oceano na periferia do debate não é mais uma opção, é um risco global que simplesmente não se pode mais correr.

*Carollina Arbex

Advogada formada pela Universidade Presbiteriana Mackenzie e sócia do escritório Arbex & Gonzalez, Advogadas Associadas. Redatora de sustentabilidade com atuação no Brasil e na América Latina e coordenadora do GT Oceano e Clima da Rede LACLIMA.

*Gabriel Ralile

Advogado, internacionalista e pesquisador. É doutorando em Estudos Marítimos pela Escola de Guerra Naval (EGN), membro do Grupo Economia do Mar (GEM) e mentor do GT Oceano e Clima da Rede LACLIMA.

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