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Tempos do desassossego

Escrito por Daniel Medeiros | 23 de março de 2026

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Tempos em que o mundo corre lá fora, enquanto a alma tenta, em silêncio, acompanhar o que já não consegue compreender - Imagem gerada por IA - Foto: Ilustrativa/Neo Mondo

POR - DANIEL MEDEIROS

Fernando Pessoa descrevia Bernardo Soares, seu “semi" heterônomo,  como uma "mutilação" de sua própria personalidade. Bernardo aparecia quando o poeta português estava cansado ou sonhador., porque Soares era o mestre da abstenção. Ele acreditava que agir era uma forma de erro, pois a realidade nunca corresponde ao sonho. A inconsciência é o fundamento da vida. O coração, se pudesse pensar, pararia”.

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No entanto ele observava tudo. Era um esteta. Não buscava tirar conclusões lógicas nem construir teorias totalizantes sobre o mundo. Mas apenas estar ali. Tenho consciência de que ignoro. Repouso no mundo como num tapete que não sei quem teceu.

Ler e “escutar" Bernardo Soares, no Livro do Desassossego  - publicado pela primeira vez apenas em 1982, coligido entre os mais de 25.000 papéis e fragmentos encontrados em um baú na casa do autor, que faleceu em 1935. -.faz-me lembrar , mas com o signo trocado, dos jovens dessa era de hiperconectividade e de pressão por produtividade chamados de geração Z., paralisados pelo excesso de exterioridade e não pela escolha voluntária pela vida interior. Fernando Pessoa, pela voz de seu alter ego ( mais um, entre tantos) valida a melancolia e a observação passiva, transformando o isolamento em uma forma de arte e resistência intelectual. Diferentemente dos jovens da geração Z,  que observam obsessivamente  a vida alheia (o "feed") provocando uma sensação de que a vida real é inadequada ou sem brilho.

Bernardo tinha consciência da brevidade e da falta de propósitos claros da vida. Mas não deixava de admira-la, em seus detalhes fugidios aos dos grandes projetos. Pela janela do escritório onde trabalhava, observava a rua dos Douradores e seu fluxo cotidiano com olhos de antiquário. E fazia dessas observações uma escrita minuciosa de sensações.

Hoje, a ação de muitos jovens traduz-se em um "scroll" infinito e no escapismo em mundos virtuais. Horas e horas vendo a performance mentirosa dos bem sucedidos, os espetáculos de violência ou de exibicionismo dos red pills, ou a placidez de milhares de vídeos repetidos de gatinhos e cãezinhos, sem se importar nem mesmo que sejam feitos por Inteligência artificial. Ao contrário da escolha estética e intelectual e da prática em se sentir "estrangeiro em toda a parte” de Bernardo Soares, produzindo dessa opção reflexões que sustentam o edifício de sua existência, muitos jovens da Geração Z agem como os fumadores de ópio do final do século XIX: escapismo total, fuga deliberada, de um mundo onde não encontram encaixe nem propósito.

Há um ponto em comum na leitura que faço da obra de Pessoa e do olhar que pouso sobre a geração Z: hoje, a saúde mental dos jovens é fortemente afetada pela necessidade de performar múltiplas identidades. No Instagram, é-ser feliz; no Linkedin, bem-sucedido; no X, cheio de opinião; no Tik Tok, alegre e jovial. Essa fragmentação deve gerar um absurdo cansaço identitário que também aparece em Soares . Ele descreveu-o como o cansaço de ser, de ter que manter uma fachada de existência.

Porém, ao contrário de outro personagem inesquecível da literatura mundial, o copista Bartleby ( 1856) , de Herman Melville, que simplesmente para, desiste ( Eu preferiria não fazer) , Soares continua agindo, mesmo que com a  sua mente em outro lugar.

Os jovens da geração Z não desistem, mas também não estetizam. Sofrem os choques cotidianos da profusão de imagens e sons e mensagens que são seguidas de um comando subliminar que diz: "e você, o que está fazendo que não está aqui?

Tempos de angústia em querer ser tantas coisas e não dar conta em performa tantas personas. Sensação constante em estar sendo deixado para trás enquanto “merecia" estar no topo, sendo objeto da admiração e não um mero expectador passivo do mundo bombando lá fora. E tudo isso vai formando um bolo de ressentimento, de raiva, de ódio.

Soares não tem raiva, não tem ódio. Soares cultiva a sua situação como se fosse uma obra de arte. Ele sente um prazer melancólico em ser “invisível". Quanto menos "espaço" ele ocupa no mundo social, mais espaço ele tem no seu mundo interior. O tédio do escritório é o silêncio necessário para que a sua alma possa "falar" nos fragmentos que escreve.

A saída de Soares é a arte. A de parte da geração Z, a “machosfera”.

Tempos de desassossego.

Daniel Medeiros - Advogado e especialista em Filosofia Contemporânea pela PUCPR. Mestre e Doutor em Educação Histórica pela UFPR. Pós doutorando em Bioética pela PUCPR. Professor da Especialização em Filosofia do Direito, da Escola de Direito, e Especialização em Neurociência e Educação, da Escola de Educação e Humanidades da PUCPR. Autor da Coluna Cuidados Humanos, da revista Humanitas. Conselheiro e colunista do portal Neo Mondo.

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Daniel Medeiros, autor do artigo "Tempos do desassossego" - Foto: Divulgação

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