Dia Mundial do Meio Ambiente e Oceano 2026
Escrito por Neo Mondo | 5 de junho de 2026
Natureza em estado de conservação: o papagaio-de-peito-roxo, espécie ameaçada da Mata Atlântica, simboliza a importância dos ecossistemas preservados para a manutenção da biodiversidade e dos serviços essenciais que sustentam a vida e a economia - Foto: Jonas Kilpp
POR - CLÓVIS BORGES*
Água, estabilidade climática, solos férteis, biodiversidade e segurança econômica dependem diretamente da manutenção de áreas naturais conservadas. Ignorar essa realidade tem custos cada vez mais altos para a sociedade, enquanto conservar a natureza se torna uma das estratégias mais importantes para garantir prosperidade e qualidade de vida no século XXI
Vivemos uma era em que a palavra “sustentabilidade” está em toda parte. Ela aparece nos discursos de governos, nos relatórios corporativos, nas campanhas publicitárias e nas redes sociais. Nunca se falou tanto sobre a necessidade de proteger a natureza. Ainda assim, persiste uma contradição fundamental: continuamos tratando a conservação como um tema secundário, quando ela representa a infraestrutura que sustenta a economia, a qualidade de vida e as oportunidades de desenvolvimento de qualquer sociedade.
O desafio não é a falta de discursos. Tampouco a ausência de conhecimento técnico ou científico. O problema está na distância que ainda separa boa parte das narrativas ambientais dos resultados concretos que a sociedade precisa alcançar para garantir água, estabilidade climática, biodiversidade, segurança alimentar e qualidade de vida.
Nas últimas décadas, aprendemos a reconhecer a gravidade da crise climática. Ainda que de forma insuficiente, o tema passou a ocupar espaços importantes na agenda pública e empresarial. Os eventos extremos que se multiplicam em diferentes regiões do planeta tornaram seus impactos visíveis e inegáveis. No entanto, existe outra crise de magnitude semelhante que continua recebendo atenção muito menor: a perda da biodiversidade.
Mudanças climáticas e perda de biodiversidade não são problemas separados. São fenômenos interdependentes que se retroalimentam. Quanto maior a degradação dos ecossistemas naturais, menor sua capacidade de regular o clima. Quanto mais o clima se altera, maiores são os impactos sobre a biodiversidade. Ainda assim, seguimos tratando essas agendas de forma fragmentada e atribuindo pesos diferentes a desafios que, na prática, são inseparáveis.
Ao mesmo tempo, observa-se uma crescente valorização de iniciativas apresentadas como soluções ambientais. Muitas delas são relevantes e merecem reconhecimento. Outras, porém, carecem de métricas robustas, monitoramento consistente e evidências capazes de demonstrar sua efetividade. O resultado é uma inflação de discursos verdes que frequentemente dificulta a identificação do que realmente contribui para a conservação da natureza.
A questão central não está em plantar árvores, restaurar áreas degradadas ou promover novas tecnologias. Todas essas ações podem ser extremamente positivas. O ponto fundamental é outro: de que forma elas contribuem para manter ecossistemas funcionais, conservar a biodiversidade e garantir os serviços indispensáveis que a natureza oferece à sociedade? Sem essa conexão, corremos o risco de confundir atividade com resultado.
Conservação precisa de resultados
O Brasil possui uma das maiores riquezas naturais do planeta e também uma extraordinária capacidade de produzir soluções inovadoras. Universidades, organizações da sociedade civil, comunidades locais, movimentos sociais e empresas vêm desenvolvendo iniciativas com enorme potencial para enfrentar os desafios da conservação. Existem experiências bem-sucedidas em praticamente todos os biomas brasileiros.
O problema não é a ausência de soluções. O desafio está em ampliar sua adoção, transformá-las em políticas públicas, incorporá-las às estratégias empresariais e criar condições para que alcancem escala compatível com a dimensão dos problemas que enfrentamos.
Para isso, precisamos fortalecer uma cultura de resultados. Iniciativas que se apresentam como ações de conservação da natureza devem demonstrar, de forma clara e transparente, quais benefícios geram para a biodiversidade, para os ecossistemas e para a sociedade. Conservação efetiva exige indicadores confiáveis, monitoramento contínuo e compromisso com evidências.
Em outras palavras, é necessário aproximar cada vez mais as bases técnico-científicas da tomada de decisão. Não se trata de reduzir a importância da mobilização social ou da sensibilização ambiental, mas de garantir que boas intenções estejam acompanhadas de impactos concretos e mensuráveis.
Produção de natureza
Um dos paradigmas que precisam ser superados é a ideia de que conservar áreas naturais significa abrir mão do desenvolvimento econômico. Essa visão não resiste aos fatos.
Áreas naturais conservadas produzem água, regulam o clima, conservam solos, armazenam carbono, mantêm a biodiversidade e reduzem riscos associados a eventos extremos. São serviços indispensáveis para a agricultura, para a indústria, para as cidades e para a economia como um todo. Sem eles, simplesmente não existe prosperidade duradoura.
É nesse contexto que emerge o conceito de produção de natureza. A proposta é reconhecer que áreas naturais bem conservadas são ativos estratégicos capazes de gerar benefícios mensuráveis para toda a sociedade. Não se trata apenas de proteger o que resta, mas de compreender que a conservação também produz valor econômico, social e ambiental.
A natureza não está fora da economia. Ela sustenta a economia.
Por isso, a conservação precisa deixar de ser vista como um tema periférico ou como um obstáculo ao desenvolvimento. Ela deve ser incorporada ao centro das decisões públicas e privadas, como parte integrante das estratégias de competitividade, segurança e prosperidade.
Uma agenda para o futuro
Uma economia restaurativa, baseada em resultados efetivos de conservação, abre perspectivas para que áreas naturais protegidas sejam reconhecidas como espaços estratégicos de produção de serviços essenciais à sociedade. Da mesma forma que reconhecemos o valor de áreas destinadas à agricultura, à indústria ou à infraestrutura, precisamos reconhecer o valor das áreas que produzem água, estabilidade climática e biodiversidade.
A solução pode parecer simples: manter uma fração suficiente de áreas naturais em condições adequadas para continuar fornecendo os serviços dos quais dependemos. Mas transformar essa evidência em prioridade política, econômica e cultural exige mudanças profundas. Exige inteligência estratégica, capacidade de articulação e disposição para rever modelos que já não respondem aos desafios do século XXI.
Os caminhos existem. O conhecimento existe. As soluções também.
O que ainda falta, em muitos casos, é a decisão de tratar a conservação não como um tema acessório, mas como um dos principais pilares de qualquer projeto sério de futuro.
Este conteúdo integra o especial "O Planeta Fora de Equilíbrio: Da Terra ao Oceano", produzido por Neo Mondo para aprofundar o debate sobre a crise sistêmica do planeta e suas consequências econômicas, geopolíticas e civilizatórias — em parceria com Amanco Wavin e Redemar Brasil.

*Clóvis Borges é diretor-executivo da SPVS (Sociedade de Pesquisa em Vida Selvagem e Educação Ambiental).

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