Dia Mundial do Meio Ambiente e Oceano 2026

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Dia Mundial do
Meio Ambiente e Oceano 2026

O clima perdeu a previsibilidade e o mercado ainda não precificou isso

Escrito por Neo Mondo | 5 de junho de 2026

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Clima não muda apenas gradualmente — em determinados momentos, sistemas inteiros podem cruzar limites invisíveis e transformar para sempre o equilíbrio que sustenta a vida e a economia - Imagem gerada por IA - Foto: Ilustrativa/Neo Mondo

POR - REDAÇÃO NEO MONDO

Em 2025, eventos climáticos extremos simultâneos em três continentes — temperaturas superficiais recordes no Mediterrâneo, monções fora de padrão no subcontinente indiano e o segundo colapso consecutivo dos rios amazônicos — ocorreram fora das faixas de probabilidade que os modelos de risco climático convencionais estavam usando. Não eram eventos improváveis por definição. Eram eventos que os modelos não haviam aprendido a antecipar porque foram construídos para um clima que já não existe.

O clima não perdeu a lógica. Perdeu a linearidade que permitia modelá-lo com confiança.

Esse é o diagnóstico central do Global Tipping Points Report 2025, elaborado por mais de 160 cientistas coordenados pela Universidade de Exeter e endossado pela Dartington Declaration, assinada por mais de 640 pesquisadores. O relatório distingue dois tipos de mudança climática que o debate público frequentemente confunde: a mudança gradual — aumento progressivo de temperatura, elevação do nível do mar, intensificação de eventos extremos em frequência e magnitude — e a mudança por pontos de inflexão, em que sistemas naturais cruzam limiares e se reorganizam de forma abrupta e irreversível. O primeiro tipo é difícil. O segundo é da ordem do incontrolável. O clima em colapso.

Os pontos de inflexão identificados pelo relatório não são ficção científica. São processos em curso. A AMOC — a grande corrente de circulação do Atlântico que distribui calor entre hemisférios — opera no ponto mais lento dos últimos 1.600 anos. O desaparecimento acelerado do gelo do Mar de Barents, no Ártico, está alterando o padrão do jato polar, com efeitos que amplificam ondas de calor na Europa e desorganizam monções na Ásia. Partes das camadas de gelo da Groenlândia e da Antártica podem já ter cruzado pontos de não retorno que comprometem, a prazo, vários metros de elevação do nível do mar — afetando centenas de milhões de pessoas em zonas costeiras. Já ao aquecimento atual de aproximadamente 1,4°C, os recifes de coral de águas quentes estão cruzando seu limiar térmico, com mortalidade em massa documentada em 84% dos recifes do planeta entre 2023 e 2025.

O que distingue esses processos de uma análise climática convencional é o efeito cascata. Pontos de inflexão não operam de forma isolada — eles interagem. A desestabilização de um sistema amplifica a pressão sobre outros. O derretimento acelerado do permafrost siberiano libera metano — gás de efeito estufa com potencial de aquecimento 80 vezes superior ao do CO₂ em escala de vinte anos — que intensifica o aquecimento, que acelera o derretimento, que libera mais metano. A perda de cobertura de gelo no Ártico reduz o albedo — a capacidade da superfície de refletir radiação solar de volta para o espaço —, aumentando o calor absorvido pelo oceano, que alimenta furacões mais intensos e monções mais erráticas. Cada sistema que cede adiciona carga sobre os demais.

Para o sistema financeiro, essa não-linearidade representa um risco que a maioria dos modelos de gestão de portfólio ainda não incorporou adequadamente. O Global Tipping Points Report é direto: o sistema financeiro enfrenta riscos de pontos de inflexão que ameaçam trilhões de dólares em ativos, da infraestrutura costeira às cadeias produtivas agrícolas, e a maioria das instituições não incluiu esse risco em seus modelos de estresse. Não se trata de uma crítica ideológica à finança global. É uma descrição de uma lacuna técnica com consequências econômicas mensuráveis.

A diferença entre risco gradual e risco de inflexão importa para qualquer decisão de alocação de capital de longo prazo. Risco gradual permite adaptação incremental: redesenho de portfólios, ajuste de seguros, migração de ativos. Risco de inflexão implica mudanças de estado — a fazenda que funcionava deixa de funcionar não porque ficou mais quente, mas porque o regime hídrico regional se reorganizou de forma permanente. A cidade costeira que sobreviveu às últimas décadas de elevação do nível do mar não sobreviverá à combinação de elevação com subsidência do solo e intensificação de tempestades que cruzam um limiar de frequência. O modelo econômico que funcionava em uma faixa de temperatura se torna disfuncional além de outro limiar — não de forma progressiva, mas de forma abrupta.

O Brasil está posicionado de maneira especialmente exposta a essa dinâmica. A Amazônia opera como regulador climático continental — os rios voadores que transportam mais de 20 trilhões de litros de vapor d'água por dia são o mecanismo que abastece de chuva o centro-oeste, o sudeste e o sul do país, além de países vizinhos. Pesquisa publicada na Nature em setembro de 2025, conduzida por Marco Aurélio Franco do IAG-USP, quantificou a extensão dessa exposição: as regiões mais devastadas do arco do desmatamento registraram redução média de 21 milímetros de chuva por estação seca e aumento de 2°C na temperatura máxima nas últimas três décadas e meia. O efeito não se contém nas bordas da floresta — ele viaja pelos rios voadores e chega às lavouras do Mato Grosso, às hidrelétricas do Paraná, às torneiras de São Paulo.

A consequência prática para a gestão de risco é que os modelos que tratam o risco climático como variável exógena e estável subestimam sistematicamente a exposição real. Um gestor de fundos com exposição a commodities agrícolas brasileiras não está apenas exposto à variação de preço de soja ou milho — está exposto à integridade do sistema hidrológico amazônico, que por sua vez depende da cobertura florestal, que por sua vez depende de políticas de uso da terra que variam com ciclos eleitorais. A cadeia de dependências é mais longa e mais frágil do que os relatórios de risco convencionais reconhecem.

Há, nesse cenário, uma abertura que a literatura científica começa a explorar com mais rigor: os pontos de inflexão positivos. O mesmo relatório de Exeter que documenta os riscos de colapso de sistemas naturais identifica pontos de inflexão potencialmente positivos em energia, finanças e uso da terra — transições que, uma vez iniciadas, se autopropagam e se tornam cada vez mais difíceis de reverter. A queda de custo de energia solar e eólica atingiu um ponto em que a expansão de renováveis se tornou economicamente autossustentada em boa parte do mundo. A China, que em 2025 instalou mais capacidade renovável do que toda a sua demanda de crescimento elétrico, é o exemplo mais visível desse ponto de inflexão em ação. O que está em aberto é se os pontos de inflexão positivos ganharão velocidade antes que os negativos cruzem limiares irreversíveis.

O clima não negocia prazos. Mas os sistemas de decisão que o afetam — políticos, econômicos, corporativos — operam em ciclos de quatro anos, trimestres fiscais e relatórios anuais. Essa assimetria temporal entre a física do clima e a lógica das instituições humanas é, talvez, o maior ponto de risco que nenhum modelo consegue precificar — porque não é um risco físico. É um risco de governança.

Este conteúdo integra o especial “O Planeta Fora de Equilíbrio: Da Terra ao Oceano”, produzido pelo Neo Mondo para aprofundar o debate sobre a crise sistêmica do planeta e suas consequências econômicas, geopolíticas e civilizatórias. Um especial Neo Mondo em parceria com a Amanco Wavin e Redemar Brasil.

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