Dia Mundial do Meio Ambiente e Oceano 2026

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Dia Mundial do
Meio Ambiente e Oceano 2026

O que ficou de fora das planilhas

Escrito por Neo Mondo | 5 de junho de 2026

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Ficou cada vez mais difícil separar economia e meio ambiente: para Carlos Primo Braga, a estabilidade climática deixou de ser uma questão ambiental e passou a ser uma condição para a própria viabilidade do desenvolvimento econômico — Foto: Acervo pessoal

Carlos A. Primo Braga não é um economista que descobriu o meio ambiente. É um economista que nunca acreditou que a separação entre as duas coisas fizesse sentido. Formado em engenharia mecânica pelo ITA — onde se aprende que sistemas têm limites, que forças mal calculadas produzem colapsos, e que a realidade não negocia com a teoria — ele construiu uma trajetória singular: de São Paulo ao Banco Mundial, de Washington a Lausanne, do FMI ao El Colegio de México, da Fundação Dom Cabral às mesas onde as regras do comércio e do clima global são escritas e reescritas. Ao longo de mais de quatro décadas, Carlos Primo Braga esteve dentro das instituições que definem como o dinheiro, o poder e os recursos naturais circulam no planeta — e saiu dessas instituições com uma clareza que poucos que passaram por elas mantêm: o sistema funciona para quem o desenhou, e quem o desenhou não incluiu a natureza nos seus cálculos. Essa é a fissura que ele persegue. Não com o vocabulário do ativismo, mas com o instrumental da economia política — tarifas, dívida, financiamento multilateral, precificação de carbono, geopolítica da energia — aplicado à única pergunta que importa neste começo de século: quanto tempo resta, e quem vai pagar a conta.

Antes de se tornar economista, o senhor formou-se em engenharia mecânica no ITA. Isso não é detalhe biográfico — é uma epistemologia. Engenheiros pensam em sistemas, em forças, em pontos de ruptura. Quando o senhor olha para a crise ambiental e para a geopolítica da energia hoje, o que o economista sozinho não consegue ver que o engenheiro-economista enxerga?

É verdade que me formei em engenharia mecânica pelo ITA em 1976 e, imediatamente após, fiz mestrado e doutorado em economia na USP e na Universidade de Illinois em Urbana-Champaign. Nunca trabalhei como engenheiro — uma nota de rodapé relevante é que meu interesse em ciências humanas já existia enquanto estava no ITA, onde lecionava história em cursinhos pré-vestibulares em São José dos Campos e depois em São Paulo.

A formação em engenharia influenciou meu pensamento de forma decisiva. Engenharia é, em essência, sobre tomada de decisões pragmáticas: essa ponte vai funcionar? Esse software vai resolver o problema para o qual foi projetado? A economia, por sua vez, comporta muito mais divergências entre paradigmas. Ao longo dos anos, sobretudo depois de me tornar funcionário do Banco Mundial, fui exposto às complexidades do mundo real que nenhum modelo captura inteiramente. Comecei a ter contato com a economia comportamental — a constatação, bem estabelecida por Daniel Kahneman, de que os agentes econômicos nem sempre agem de forma racional. Gosto muito do que Richard Feynman costumava dizer: imagine quão mais difícil seria a física se os elétrons tivessem sentimentos. Esse é o problema central quando falamos de economia.

Devo acrescentar que a maior influência sobre meu interesse nas questões de meio ambiente não veio da engenharia nem da economia. Veio da minha esposa de 48 anos, Maria Isabel Junqueira Braga, bióloga formada pela USP com mestrado na Universidade de Illinois, que em décadas de debate contínuo me ajudou a compreender a complexidade do meio ambiente e a sua centralidade para a economia mundial.

Em fevereiro de 2025, o senhor escreveu que o colapso do multilateralismo climático poderia transformar a COP30 em Belém numa "COP da floresta" — um espaço de resistência e construção de alianças plurilaterais diante do negacionismo da administração Trump. A COP30 aconteceu. O que efetivamente se construiu em Belém — e o que essa avaliação revela sobre os limites reais da diplomacia climática quando a maior economia do planeta decide abandonar a sala?

A COP30 foi anunciada como a COP da implementação e, nas palavras do presidente Lula, como a COP da verdade. O desmatamento das florestas tropicais foi, de fato, tema central — o que refletia a expectativa que eu havia antecipado. Mas as negociações revelaram, desde o início, as dificuldades estruturais do processo multilateral. Questões como financiamento climático, medidas unilaterais associadas ao controle do desmatamento e a agenda de adaptação tornaram-se tão complexas que o presidente da COP, o embaixador André Correia do Lago, propôs a criação de um "mutirão" — um espaço informal fora da agenda oficial para tratar dos temas mais sensíveis.

Em termos de resultados, a COP30 reafirmou o que a COP29 já estabelecera em Baku: mobilizar cerca de 300 bilhões de dólares por ano até 2035, dentro de uma meta mais ampla de 1,3 trilhão. O Brasil conseguiu posicionar o Tropical Forests Forever Facility com compromissos da ordem de 6,7 bilhões de dólares — mas esses temas não integraram a declaração final, mantendo-se como processos voluntários.

Gosto de uma frase que Ariano Suassuna costumava repetir: o otimista é um ingênuo, o pessimista é um chato, e ele preferia ser um pragmático realista. A COP30 alcançou resultados dentro do possível — mas ficou aquém do necessário, sobretudo porque o segundo maior emissor de gases de efeito estufa do mundo considera, na visão da administração Trump, que todo esse debate é uma grande farsa.

O conflito no Oriente Médio em 2026 — com o Brent oscilando entre 60 e 120 dólares num intervalo de meses, ataques a instalações no Estreito de Ormuz e disrupção nas rotas de GNL — expôs algo que a narrativa da transição energética tendia a suprimir: o petróleo não está sendo substituído, está sendo disputado com mais intensidade. Quando a geopolítica dos fósseis e a geopolítica dos renováveis coexistem dessa forma, qual é o risco real, na avaliação do senhor, de que a transição energética se torne uma forma de recalibrar dependências sem eliminar a vulnerabilidade estrutural?

O fechamento do Estreito de Ormuz retirou aproximadamente 13 milhões de barris por dia da oferta mundial — uma perturbação de magnitude superior aos dois choques de petróleo da década de 1970 combinados. As implicações dependem da duração do conflito. A OCDE projeta crescimento global de 2,8% em 2026 numa solução de curto prazo, e de apenas 2,1% caso a situação se prolongue — uma situação próxima de depressão global, com impacto assimétrico sobre os países asiáticos de menor renda.

No curto prazo, o choque cria incentivos adicionais para renováveis, energia solar, eólica e nuclear. Mas se o conflito se prolongar, veremos inflação, aumento de taxas de juros e uma lógica de resiliência que favorecerá investimentos adicionais em energia fóssil — inclusive carvão. O risco que a pergunta identifica é real: a transição pode recalibrar dependências sem eliminar a vulnerabilidade estrutural, sobretudo quando os instrumentos de política pública que deveriam acelerá-la estão sendo desmontados ao mesmo tempo em que a geopolítica dos fósseis se intensifica.

O Brasil aderiu à OPEP+ ao mesmo tempo em que se apresentava como liderança climática na COP30 — uma contradição que o senhor apontou publicamente. Mas há um argumento econômico legítimo do outro lado: receitas do petróleo financiam a transição. Onde está, precisamente, a linha entre uma estratégia de transição gradual responsável e a captura da agenda climática pelos interesses do setor fóssil?

A percepção de hipocrisia foi real e compreensível. O Brasil, que estava sediando a COP30 e tem uma tradição consolidada de liderança climática entre os países do Sul Global, tornou-se participante não vinculante da OPEP+ numa decisão que muitos analistas interpretaram como contradição — agravada pela discussão sobre exploração de reservas na Foz do Rio Amazonas.

A realidade econômica, porém, é objetiva: o Brasil já é o quinto ou sexto maior produtor de petróleo do mundo, com produção que atingiu cerca de 4 milhões de barris por dia em abril de 2026. Essa produção tem contribuído para minorar os impactos do choque do Golfo Pérsico — e o FMI revisou para cima sua projeção de crescimento do país em 2026, de 1,6% para 1,8%, exatamente em função da melhora nos termos de troca.

A linha entre transição gradual responsável e captura da agenda climática está, precisamente, na destinação das receitas e na credibilidade dos compromissos de descarbonização. Quando as decisões sobre exploração de novas reservas precedem qualquer avaliação de compatibilidade com as metas climáticas, e quando o discurso de liderança não é acompanhado por restrições efetivas à expansão fóssil, a percepção de captura deixa de ser apenas simbólica.

A fragmentação do Inflation Reduction Act americano, o recuo de contribuições multilaterais para o clima e o hiato entre os US$ 300 bilhões acordados na COP29 e os US$ 1,3 trilhão demandados pelos países em desenvolvimento configuram, para o senhor, um colapso do financiamento climático global — ou apenas uma renegociação dentro de um sistema que, no fundo, nunca transferiu recursos na escala necessária?

Não chamaria de colapso — mas o impacto é significativo. Toda a agenda ESG, que na segunda metade da última década atraía atenção crescente do setor privado, deixou de ser prioridade, refletindo mudanças de atitude de governos críticos para a governança climática. O One Big Beautiful Bill eliminou grande parte dos incentivos do Inflation Reduction Act. Em 2024, os Estados Unidos respondiam por mais de 8% das doações voltadas ao controle de emissões e ao financiamento climático em países em desenvolvimento — recursos administrados pela USAID que estão sendo descontinuados.

Mesmo nos Estados Unidos, porém, as coisas variam: a Califórnia mantém seus subsídios para eletrificação e renováveis. Minha expectativa é que as evidências científicas impactarão as decisões governamentais mais cedo ou mais tarde. O problema é o tempo. O intervalo entre a mudança de percepção política e a resposta da realidade climática pode ser suficientemente longo para tornar irreversíveis danos que ainda seriam evitáveis.

O senhor tem acompanhado de perto a discussão sobre o Tropical Forests Forever Facility — o mecanismo que propõe pagar países detentores de florestas tropicais por hectare preservado, monitorado por satélite. Esse modelo representa uma ruptura real com a lógica do REDD+, que nunca escalou, ou é mais um instrumento financeiro sofisticado que chegará tarde demais para os ecossistemas que pretende proteger?

O Brasil teve liderança intelectual e diplomática no lançamento da TFFF e conseguiu, durante a COP30, compromissos da ordem de 6,7 bilhões de dólares. Mas o alvo de implementação é 125 bilhões — ainda há um longo caminho.

A TFFF foi concebida como complemento ao REDD+, não como substituto. O REDD+ baseia o pagamento em reduções verificadas de emissões, com sistemas complexos de contabilidade de carbono. A TFFF adota um modelo mais simples: pagamento fixo por hectare de floresta em pé, monitorado por satélite, criando incentivos para a manutenção das florestas existentes — particularmente adequado para situações de baixo desmatamento. Suas vantagens são a simplicidade e a transparência. Seus limites estão na escala dos recursos que efetivamente se materializarão.

Não diria que chegará tarde demais — mas diria que chegará tarde o suficiente para que a pergunta permaneça válida. A velocidade com que os compromissos se convertem em recursos reais determinará se a TFFF representa uma ruptura genuína ou mais um instrumento bem desenhado que não alcança a escala necessária.

A guerra no Irã e as tensões no Golfo aceleraram o interesse por minerais críticos — lítio, cobalto, terras raras — que sustentam a cadeia de renováveis. O Brasil detém reservas significativas desses minerais e tem potencial para se posicionar nessa nova geopolítica. Mas há um padrão histórico que o senhor conhece bem: o Brasil tende a exportar matéria-prima e importar tecnologia. O que precisaria mudar, estruturalmente, para que o país não repita com os minerais críticos o que fez com o petróleo — abundância de recurso, pobreza de valor agregado?

Uma correção inicial: o Brasil não tem reservas significativas de cobalto. O foco relevante é no lítio e nas terras raras.

No lítio, o Brasil detém entre 4% e 5% das reservas globais, concentradas no Vale do Jequitinhonha, com produção de cerca de 12 mil toneladas em 2025. O desafio é a migração para produtos de maior valor agregado, como baterias. Nas terras raras, o Brasil pode ser o segundo maior país em reservas do mundo — cerca de 20% do total global, superado apenas pela China. Aqui o problema de processamento é muito mais complexo: uma unidade de separação custa da ordem de 2 bilhões de dólares, e a tecnologia existe no Brasil hoje apenas em plantas-piloto.

Para ser realista: estamos falando de 5 a 10 anos para construir capacidade industrial significativa, enfrentando taxa de juros real elevada, burocracia, custo de fazer negócio no Brasil e os impactos ambientais da mineração que precisam de regulamentação rigorosa. O interesse internacional pelas reservas brasileiras existe e é crescente. A pergunta é se o Brasil terá, desta vez, a estratégia para capturar o valor que a geografia lhe oferece.

O senhor passou décadas navegando entre o Banco Mundial, o FMI, o comércio internacional e a economia política do desenvolvimento. Existe uma versão do mundo em que os interesses econômicos dominantes e a estabilidade climática convergem — ou a crise ambiental é, em sua essência, uma consequência inevitável de um sistema econômico que não foi desenhado para internalizar o custo da natureza?

A forma como medimos a produção tem problemas bem documentados. A Comissão Sarkozy, na qual trabalharam Amartya Sen, Fitoussi e Stiglitz, identificou com precisão as limitações do PIB como medida de riqueza: ele captura o valor de mercado dos bens e serviços produzidos, mas não subtrai a deterioração de recursos naturais, a perda de biodiversidade ou os custos de poluição. Se você destrói uma floresta para explorar madeira, isso pode aumentar o PIB no curto prazo enquanto destrói riqueza no longo prazo.

Mas é importante ser preciso: o problema não é a operação de mercados. O problema são as externalidades que não são adequadamente internalizadas na regulamentação das atividades econômicas. Há evidências robustas de que é possível criar incentivos para conservação ambiental através de tributação e outros instrumentos. Não se trata de culpar os mercados, mas de reconhecer que distorções existem — e que podem ser corrigidas.

Para quem prefere uma perspectiva mais cética, gosto de uma piada. Um economista, um médico e um engenheiro viajam juntos e debatem qual profissão é a mais honrosa. O médico argumenta que Deus criou Eva a partir de uma costela de Adão — logo, Ele deve ser cirurgião. O engenheiro replica: antes de Adão e Eva, o universo teve que ser criado a partir do caos — esse movimento de caos para ordem é resultado da engenharia. O economista ouve tudo e diz: de onde vocês acham que o caos veio? Tirem as suas conclusões.

Há uma certa ironia em entrevistar Carlos Primo Braga num especial sobre o planeta fora de equilíbrio. Ele passou boa parte da sua vida profissional dentro das instituições que, em tese, deveriam ter evitado esse desequilíbrio — o Banco Mundial, o FMI, as rodadas de negociação da OMC, os fóruns de governança global onde o futuro era discutido em salas com ar condicionado enquanto as florestas ardiam do lado de fora. Não é uma acusação. É um contexto. E é precisamente por ter estado dentro que a sua análise tem o peso que tem — porque ele sabe, com a precisão de quem conhece os mecanismos, onde o sistema falhou, por que falhou e quem se beneficiou da falha. O que emerge dessa conversa não é pessimismo. É algo mais exigente do que isso: a recusa de qualquer narrativa que absolva as decisões que produziram o presente. A transição energética está acontecendo — mas devagar demais, de forma desigual demais, e sobre fundações geopolíticas frágeis demais para garantir que o resultado final seja a estabilidade que promete. O planeta não está fora de equilíbrio por acidente. Está fora de equilíbrio porque, durante décadas, o custo de mantê-lo em equilíbrio foi deliberadamente omitido das planilhas. Carlos Primo Braga conhece essas planilhas de cor. E sabe exatamente o que foi deixado de fora delas.

Este conteúdo integra o especial “O Planeta Fora de Equilíbrio: Da Terra ao Oceano”, produzido pelo Neo Mondo para aprofundar o debate sobre a crise sistêmica do planeta e suas consequências econômicas, geopolíticas e civilizatórias. Um especial Neo Mondo em parceria com a Amanco Wavin e Redemar Brasil.

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